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Le Charme Discret de la BourgeoisieQuando Don Rafael Acosta (Fernando Rey), embaixador de Miranda em França, o seu amigo Thevenot (Paul Frankeur) e as acompanhantes deste, Simone Thévenot (Delphine Seyrig) e Florence (Bulle Ogier) vão jantar a casa do casal Sénéchal, descobrem que só eram esperados no dia seguinte. Decidem sair com a anfitriã, Alice Sénéchal (Stéphane Audran) para jantarem numa pensão, mas ao sentarem-se à mesa descobrem que em simultâneo decorre um funeral e abandonam o local.

Marcado novo jantar (após se ver que o embaixador trafica droga com os dois amigos), o quarteto chega a casa dos Sénéchal, mas Alice e o marido Henri (Jean-Pierre Cassel) escondem-se para fazer amor, e não os recebem, pelo que o quarteto parte. Quando os Sénéchal regressam chega Monsenhor Dufour (Julien Bertheau) que lhes pede para ser o seu jardineiro.

Simone, Florence e Alice, numa casa de chá, que não tem bebidas, ouvem a história da infância criminosa de um soldado. Em casa de Don Rafael, Simone Thévenot visita-o revelando-se como sua amante, mas a chegada do marido interrompe-os. Chega depois uma guerrilheira de Miranda (Maria Gabriella Maione), que tenta em vão matar o embaixador.

Marca-se novo jantar, agora também com Monsenhor Dufour, mas ele é interrompido pela chegada de soldados em manobras militares, um dos quais conta um sonho em que falava com mortos. Em agradecimento pela hospitalidade o Coronel (Claude Piéplu) convida os sete amigos a irem jantar consigo.

Em casa do Coronel revela-se que todos os objectos são adereços cénicos, e o jantar não passa de uma peça de teatro. Os sete convivas não sabem as suas falas e fogem. Henri Sénéchal acorda percebendo tratar-se de um sonho, e segue com a esposa para o verdadeiro jantar do Coronel. Lá, após uma troca de insultos, Don Rafael Acosta mata o Coronel a tiro. Thevenot acorda, percebendo que tudo fora um sonho dentro de um sonho.

Em casa dos Sénéchal alguém busca um padre para dar uma extrema-unção. Monsenhor Dufour oferece-se e, descobrindo que o moribundo foi a pessoa que muitos anos antes envenenou os seus pais, mata-o a tiro.

Enquanto os seis amigos voltam a reunir-se para jantar, a chegada da polícia leva-os todos presos. Na esquadra, os polícias contam a história do Sargento Sanguinário (Pierre Maguelon), cujo fantasma liberta os prisioneiros, revelando-se ser um sonho do Inspector Delecluze (François Maistre). Este recebe uma chamada do Ministro (Michel Piccoli) que ordena a libertação dos seis amigos.

Reunidos para novo jantar os amigos são interrompidos pela chegada de três terroristas, que os matam com metrelhadoras. Tal revela-se ser um sonho de Don Rafael.

O filme termina com a continuação da cena que intercala as várias histórias, os seis amigos caminhando lado a lado numa estrada sem fim.

Análise:

Luis Buñuel, para muitos o pai do surrealismo no cinema, após os primeiros sucessos em França com filmes puramente surrealistas, diversificou a sua carreira, adoptando outros temas e estéticas. No entanto nunca deixou de incorporar elementos surrealistas no seu cinema, e sinónimo disso é este “O Charme Discreto da Burguesia” em que uma história simples, e aparentemente banal, vai aos poucos ganhando contornos cómicos, absurdos e inexplicáveis do ponto de vista da razão.

O argumento, do próprio Buñuel e de Jean-Claude Carrière, revolve em torno de seis amigos que combinam um jantar. Por diversas razões esse jantar é sempre interrompido, ou nem sequer chega a começar. Inicialmente a razão é tão corriqueira como o erro de uma data, mas aos poucos as razões vão-se tornando mais estranhas. Temos uma pousada onde ao lado das mesas de jantar se vela um morto; uma chegada de soldados em manobras que se instalam em casa; um jantar que é afinal uma peça de teatro; um outro que termina num duelo; um jantar interrompido pela chegada da polícia, um último interrompido a tiro por terroristas.

A marcar o carácter surreal dos acontecimentos temos o facto de os personagens aceitarem a lógica interna das situações. Por exemplo ninguém se choca pela invasão de soldados, ou por estar numa peça de teatro, onde aliás, o maior desespero dos participantes é não se lembrarem das suas falas. A isso junta-se ainda o facto de parte das histórias serem flashbacks que surgem do nada, e outras serem sonhos, ou mesmo sonhos dentro de sonhos, baralhando os personagens, e os espectadores, como um jogo de procura de uma lógica que parece perto, mas teima em nos escapar.

Sonhos e outras histórias têm em comum elementos de violência (são vários os personagens mortos a sangue frio), e aparições de fantasmas que falam com os vivos. Como não podia deixar de ser a violência está bem presente, como uma das imagens de marca do surrealismo. Como presentes na obra de Buñuel estão a sexualidade reprimida (é uma escapada sexual em momento e lugar impróprio que impede um dos repastos), e o papel dúbio da igreja (com o bispo assassino). Presente está ainda um símbolos preferidos de Buñuel: os insectos, que jorram de um piano (este novamente com conotação negativa) onde um prisioneiro é torturado.

Com todos estes elementos, o filme funciona como um sonho, onde não questionamos a lógica interna, que é a de uma longa história que nos frustra por nunca conseguirmos atingir um objectivo (note-se como, além das refeições, também o acto sexual é constantemente interrompido). As passagens de uma a outra cena são por isso irrelevantes, como se repetíssemos desordenadamente um momento ou uma sensação. Esse caminhar inconsequente parece reforçado pelas imagens recorrentes do sexteto principal a caminhar paciente por uma estrada vazia no meio do campo. Talvez o verdadeiro sentido dessa caminhada se explique por Buñuel considerar “O Charme Discreto da Burguesia” o segundo da sua trilogia da “busca da verdade”, sendo os outros dois filmes da trilogia: “A Via Láctea” (La Voie Lactée, 1969) e “O Fantasma da Liberdade” (Le Fantôme de la Liberté, 1974). Ou talvez, como o próprio um dia disse, não signifique mesmo nada. Ou será ainda toda a história um sonho de Don Rafael, motivado pela sua fome, que o leva a correr ao frigorífico ao acordar, para a única refeição consumada de todo o filme?

Por fim, o filme funciona ainda como uma sátira à classe alta que lhe dá o nome, com as suas realidades superficiais e conversas fúteis, vivendo para os seus pequenos prazeres, e demasiado virada para dentro do seu mundo para compreender o que a rodeia. Repare-se como, embora nunca finalizando um jantar, os convivas se divertem falando quase sempre de comida, como a preparar e como a degustar, com inegável de snobismo, dado aos vícios da classe, e nunca deixando que as contrariedades os demovam.

O pouco de realismo que surge com as referências à fictícia República de Miranda (sempre rebatidas com cinismo), ou a qualquer outra situação política, termina sempre com uma conversa inaudível devido a ruídos externos, como que a dizer-nos que não adianta procurarmos explicações lógicas no filme.

Considerado um dos filmes de Buñuel mais apelativos ao grande público, “O Charme Discreto da Burguesia” foi bastante bem recebido internacionalmente, valendo mesmo ao realizador espanhol o Oscar da Academia para Melhor Filme de Língua Estrangeira.

Produção:

Título original: Le Charme Discret de la Bourgeoisie; Produção: Greenwich Film Productions; País: França, Itália, Espanha; Ano: 1972; Duração: 101 minutos; Distribuição: Twentieth Century Fox Film Corporation; Estreia: 15 de Setembro de 1972 (França), 21 de Maio de 1973 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Luis Buñuel; Produção: Serge Silberman; Argumento: Luis Buñuel, Jean-Claude Carrière; Direcção Artística: Pierre Guffroy; Fotografia: Edmond Richard; Director de Produção: Ully Pickard; Montagem: Hélène Plemiannikov; Caracterização: Odette Berroyer, Fernande Hugi; Figurinos: Jacqueline Guyot; Efeitos Sonoros: Luis Buñuel.

Elenco:

Fernando Rey (Don Rafael Acosta), Paul Frankeur (Thevenot), Delphine Seyrig (Simone Thévenot), Bulle Ogier (Florence), Stéphane Audran (Alice Sénéchal), Jean-Pierre Cassel (Henri Sénéchal), Julien Bertheau (Monsenhor Dufour), Milena Vukotic (Ines), Maria Gabriella Maione (Guerrilheira), Claude Piéplu (Coronel), Muni (Camponês), Pierre Maguelon (Sargento Sanguinário), François Maistre (Inspector Delecluze), Michel Piccoli (Ministro), Georges Douking (Jardineiro), Maxence Mailfort (Sargento que conta o seu sonho), Ellen Bahl, Christian Baltauss, Olivier Bauchet, Robert Benoît, Anne-Marie Deschodt.

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