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THX 1138Sinopse:

Numa sociedade do futuro, os seres humanos são mantidos numa rigorosa rotina, controlo emocional e falta de individualismo, graças ao uso obrigatório de drogas. THX (Robert Duvall) é um funcionário da fábrica de robots policiais, que lida com material radioactivo. A precisão dos seus gestos começa a falhar no momento em que o seu cocktail de sedativos é mudado sem que ele o saiba. Tal é culpa de LUH (Maggie McOmie), a sua companheira de quarto que percebe que sem sedativos, ambos começam a sentir emoções novas. Tal leva-os a sentir afecto um pelo outro e a terem relações sexuais, o que é proibido na sua sociedade e os vai levar à prisão.

Análise:

“THX 1138” foi a estreia na realização do jovem George Lucas, um dos nomes integrantes da chamada Film School Generation, que marcaria o cinema de Hollywood nos anos 70. Desenvolvido a partir de um projecto anterior seu, dos tempos da universidade, o filme foi produzido pela recém-formada American Zoetrope, de Francis Ford Coppola, outro dos nomes sonantes da geração.

Logo à partida, pela junção dos dois nomes citados, adivinha-se um filme alternativo, que escapou ao controlo dos grandes estúdios (embora produzido para a Warner Bros. os autores tiveram total liberdade), e é exactamente isso que se nota desde as primeiras imagens de “THX 1138”.

Com argumento do próprio Lucas, e de Walter Murch, o filme conta-nos a história de um homem cujo nome código é THX 1138 (Robert Duvall) numa sociedade e tempo onde a desumanização faz dos seres humanos pouco mais que autómatos, com papéis especificados e comportamentos controlados.

O filme é por isso uma distopia futurística, o que prenunciava já a apetência de Lucas para a fantasia e a ficção científica. Mas aqui, ainda longe dos épicos que marcariam as duas franchises de sua autoria mais famosas dos anos 1970/1980 (Star Wars e Indiana Jones), Lucas não está ainda preocupado em surpreender o grande público com espectacularidade e aventura, mas sim com ideias.

A sociedade de THX é fortemente controlada, numa lógica economicista, onde todos são números, e qualquer decisão tem principalmente em conta a supressão de despesas. Os seres humanos são mantidos numa completa repressão de emoções e individualismo, mercê de um cocktail de sedativos que regula o seu comportamento. Falhar na medicação é, aliás, o maior crime de rebelião contra o sistema, e algo que pode pôr em causa a segurança da sociedade. Assim as suas vidas são totalmente monitorizadas, e escrutinizadas, em busca de sinais de desvio em relação aos padrões impostos como optimizados.

Nesta sociedade o sexo é considerado um desvio comportamental perigoso. As crianças são educadas e medicadas desde tenra idade. A polícia é constituída por robots de aspecto humanóide, que obedecem cegamente a ordens. A lavagem cerebral é contínua, quer através das transmissões holográficas (uma espécie de televisão 3D), quer com a permanente declamação de frases propangadísticas aos ouvidos de todos os cidadãos, em qualquer momento do seu dia. Finalmente, a sua relação com o divino, é ela própria materialista, com as visitas aos confessionários de OMM (o deus da sociedade do filme), a servirem de pontos de escuta, e mera repetição de frases gravadas (“És um verdadeiro crente. Benção do Estado, benção das massas. Trabalha arduamente, aumenta a produção, previne os acidentes, e sê feliz”).

O desiquilíbrio na história acontece quando LUH (Maggie McOmie), companheira de quarto de THX, e monitora da actividade dos cidadãos, começa a modificar o cocktail de sedativos, fazendo com que ambos passem a um diferente estado de consciência. Tal fá-los ganhar emoções, ao mesmo tempo que os torna diferentes do resto da população, e cedo alvo das desconfiança de quem os vigia. O casal passa a uma relação afectiva que culmina no acto sexual, e a consequente gravidez de LUH. A descoberta do crime leva-os a ser presos para recodificação química. LUH acaba por morrer, e THX foge da sua prisão com a ajuda de SRT (Don Pedro Colley), um actor holográfico em fuga, e de SEN (Donald Pleasence), o superior hierárquico de LUH, que tentara recrutar LHX para se juntar à sua causa de rebelião contra o sistema.

Como distopia, “THX 1138” mostra-nos um mundo de pesadelo, onde a individualidade humana deixou de ser possível, e a emoção foi suprimida. De facto, em termos de comportamento, pouco distingue os humanos dos robots policiais. Os cenários são quase sempre ofuscantes, o branco domina, iludindo contornos, e fazendo com que as linhas que definem os interiores quase desapareçam. O resultado é uma explosão de luz criando um efeito irreal, que torna os interiores todos iguais, e perfeitamente desumanizados (tal como já o faziam as roupagens iguais de todos, e as cabeças rapadas). A própria descrição da sociedade, dependente de drogas, seguindo uma lógica puramente economicista, de racionalidade extrema, é perfeitamente desumana. A constante repetição de frases propagandísticas e a linguagem técnica futurística ajudam a criar uma permanente sensação de desconforto e distância.

“THX 1138” é por isso um filme que perturba, tanto pelas ideias como pela sua forma. Lucas disse uma vez que não pretendia criar um filme sobre o futuro, mas sim um filme que parecesse vir do futuro. Por isso muito do que está por trás dos diálogos ou das frases gravadas é-nos impossível de perceber, e por isso também a própria montagem nos parece estranha. Segundo Lucas, não havia necessidade de o explicar, pois as pessoas desse futuro compreendiam-no e tal bastava. Isso ajuda a criar em nós a sensação de desconforto e distância perante aquela sociedade impossível de compreender.

Ainda assim, a conclusão traz-nos uma pequena sensação de esperança e de regresso a uma normalidade que tem mais a ver com o mundo que conhecemos. Nesse sentido, o filme é também uma alegoria sobre os perigos do pensamento único, controlo excessivo, e luta contra os desvios da chamada normalidade e individualidade humana.

Embora tenha sido um fracasso de bilheteira, o filme estabeleceu desde logo o nome de George Lucas como o de um visionário capaz de quebrar barreiras em termos de cinema. A Warner Bros. acabaria por fazer alguns cortes na versão original, acrescentando depois novas cenas em 1977, após o sucesso de “A Guerra das Estrelas” (Star Wars – Episode IV: A New Hope, 1977). O próprio George Lucas supervisionou a montagem “director’s cut”, de 2004, a qual inclui cenas anteriormente descartadas, bem como tratamento digital da imagem para incluir novos detalhes dentro de cenas anteriormente filmadas.

Produção:

Título original: THX 1138; Produção: American Zoetrope / Warner Bros.; Produtor Executivo: Francis Ford Coppola; País: EUA; Ano: 1971; Duração: 89 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 11 de Março de 1971 (EUA), 6 de Janeiro de 1985 (Fundação Calouste Gulbenkian, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: George Lucas; Produção: Lawrence Sturhahn; Produtor Associado: Ed Folger; Argumento: George Lucas e Walter Murch [a partir de um anterior argumento de George Lucas]; Música: Lalo Schifrin; Fotografia: Albert Kihn, David Myers (filmado em Techniscope); Direcção Artística: Michael Haller; Montagem: George Lucas; Figurinos: Donald Longhurst.

Elenco:

Robert Duvall (THX), Donald Pleasence (SEN), Don Pedro Colley (SRT), Maggie McOmie (LUH), Ian Wolfe (PTO), Marshall Efron (TWA), Sid Haig (NCH), John Pearce (DWY), Irene Cagen [como Irene Forrest] (IMM), Gary Alan Marsh (CAM), John Seaton (OUE), Eugene I. Stillman (JOT), Jack Walsh [como Raymond J. Walsh] (TRG), Mark Lawhead (Shell Dweller), Robert Feero (Robot), Johnny Weissmuller Jr. (Robot), Claudette Bessing (ELC), Susan Baldwin (Oficial de Controlo), James Wheaton (Voz de OMM), Henry Jacobs (Estudante Mark 8), Bill Love (Instrutor Mark 8), Doc Scortt (Monge), Gary Austin (Homem de amarelo), Scott L. Menges (Criança #1), Toby L. Stearns (Criança #2), Paul K. Haje (Acusador no Tribunal), Ralph Chesse (Solicitador no Tribunal), Dion M. Chesse (Defensor no Tribunal), Bruce Chesse (Pontifex no Tribunal).