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Bullets over BroadwayEm 1994 Woody Allen traria ao seu público duas longas metragens. A segunda foi o telefilme “Don’t Drink the Water”, baseado na sua própria peça de teatro com o mesmo nome, e que não será aqui tratado. A primeira foi “Balas sobre a Broadway”. Já sem a TriStar, Allen trabalhava agora para a Miramax, que relegou os habituais Jack Rollins e Charles H. Joffe para o papel simbólico de co-produtores executivos. Com um orçamento mais elevado que o habitual, Allen reunia um elenco notável (John Cusack, Dianne Wiest, Jennifer Tilly, Chazz Palminteri, Jack Warden, Tracey Ullman, Jim Broadbent) para uma comédia escrita em parceria com Douglas McGrath, e na qual Woody Allen não participaria como actor.

Sinopse:

David Shayne (John Cusack) é um jovem dramaturgo com dois fracassos às costas, e com uma nova peça por encenar. Com poucas hipóteses de a produzir, David deixa-se convencer seu seu empresário Julian Marx (Jack Warden), que traz para a produção o dinheiro do mafioso Nick Valenti (Joe Viterelli) o qual, em contrapartida, exige que a namorada Olive Neal (Jennifer Tilly) tenha um papel na peça.

Cedo David percebe que perde o controlo da sua própria peça. É não só a cedência a Viterelli, como as sugestões da sua diva Helen Sinclair (Dianne Wiest), que o seduz e manipula, mas principalmente as ingerências do guarda-costas de Olive, Cheech (Chazz Palminteri), que acaba por alterar significativamente a peça original.

Análise:

Se era claro que o papel da arte, a produção artística e as lutas dos autores contra o mundo do espectáculo, eram temas caros ao universo de Woody Allen (veja-se quantas vezes escritores e/ou autores de cinema/televisão são os seus personagens principais), com “Balas Sobre a Broadway”, o processo criativo tornou-se o tema principal de um dos seus filmes.

Sem Allen entre os actores, o filme é, no entanto, a continuação na nova fase de comédia, iniciada com “O Misterioso Assassínio em Manhattan”. Ou seja, Allen continuava em terreno ligeiro, sem os dramas psicológicos que marcaram a sua obra durante todos os anos 80. Renovando a ideia de querer manter-se em terreno familiar, Allen volta a filmar Nova Iorque (mais concretamente a Broadway), nos anos 20, com o seu jazz, bebida ilegal, speakeasies e guerras de gangsters. Uma Nova Iorque feita de becos sombrios, e recantos perfeitos para um mafioso se livrar de um corpo.

Embora uma comédia de tons ligeiros, “Balas Sobre a Broadway” não deixa de fazer algumas perguntas tipicamente Allenianas, que definem o rumo da história. A primeira é: Até que ponto pode um autor comprometer-se, mantendo a sua integridade artística? A segunda: Devemos amar o homem ou o artista?

Esta segunda pergunta surge no início, numa conversa entre artistas desconhecidos, snobs, fundamentalistas da ideia de que a verdadeira arte não vende. São exemplo o pintor que mutila os seus quadros depois de pintados, ou o dramaturgo (o também realizador Rob Reiner) que garante que as suas peças têm como objectivo nunca serem encenadas. Para eles é o artista quem conta, como na anedota do incêndio onde se deve escolher entre salvar um ser humano ou a última cópia de Shakespeare. A pergunta volta no final quando o protagonista, David Shayne (John Cusack), pergunta à namorada Ellen (Mary-Louise Parker) se quer o homem ou o artista, deixando de ser o segundo, e passando a ser apenas um homem.

Embora os diálogos com os seus colegas autores rocem por vezes o absurdo com o pretensiosismo mostrado em clichès anedóticos, ainda assim sentimos que Woody Allen fala com os seus fantasmas. Por exemplo o direito do artista à criação do seu universo moral é algo que ressoa “Crimes e Escapadelas” e poderia ser uma justificação para os problemas domésticos que Allen atravessara nos anos precedentes.

Quanto à primeira pergunta, ela guia todo o filme. Nele vemos David Shayne, um dramaturgo inocente e íntegro, que se deixa manipular por todos à sua volta, acabando com uma peça que é um sucesso, mas apenas porque foi tão alterada, que ele deixa de a reconhecer como sua. Tudo começa com concessões de ordem prática, como aceitar a inexperiente (e péssima) actriz Olive Neal (Jennifer Tilly) só para garantir dinheiro de um mafioso, ou modificar linhas do papel dado a Helen Sinclair (Dianne Wiest) só para lhe satisfazer o ego. Mas mais tarde, David percebe que as sugestões do gangster Cheech (Chazz Palminteri) mudam toda a peça, tornando-a bem melhor do que esta era inicialmente.

Esta é a mensagem principal do filme; o talento não se aprende, existe na pessoa… ou então não existe. David fez os cursos certos, leu os clássicos, aprendeu com os mestres, mas não consegue escrever nada que seja real e emotivo. Cheech nunca escreveu, nunca leu, não estudou, e no entanto o seu instinto é insuperável, e as suas ideias transformam a peça num sucesso. É a velha ideia de Allen de que não são as escolas que formam o artista.

O veículo para esta história é, como dito atrás, a comédia. E o filme é uma comédia divertida, com desempenhos fenomenais. Cusack, interpretando um nervoso e inseguro autor, chega a lembrar-nos o próprio Allen (a primeira vez que o personagem de Allen é interpretado por outro actor). Dianne Wiest é fenomenal no papel da diva exageradamente dramática, naquele que é talvez o seu melhor papel num filme de Allen (e que lhe garantiu o segundo Oscar num filme de Allen, bem como o Globo de Ouro). Chazz Palminteri é deliciosamente convincente no papel do bruto de sensibilidade artística, que incapaz de fugir à sua natureza irá matar (e morrer) a bem da sua própria arte. Jennifer Tilly é divertidíssima no papel da burra e irritante namorada com capricho de ser actriz. E todo o restante elenco é simplesmente perfeito.

Embora decepcionando aqueles que queriam um regresso a dramas mais pesados, “Balas Sobre a Broadway” obteve críticas favoráveis, como uma comédia equilibrada, realizada com inteligência, com um ritmo notável, e interpretações fabulosas, ao nível do melhor que Allen já produziu. Foi por isso nomeado para sete Oscars da Academia.

Existem planos do próprio Woody Allen para que “Balas Sobre a Broadway” seja adaptado a musical na própria Broadway, com argumento seu, e música dos anos 20.

Produção:

Título original: Bullets over Broadway; Produção: Miramax Films / Sweetland Films / Magnolia Productions; Produtores Executivos: Jim Doumanian, J. E. Beaucaire; País: EUA; Ano: 1995; Duração: 96 minutos; Distribuição: Miramax Films; Estreia: 1 de Outubro de 1994 (EUA), 19 de Maio de 1995 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Robert Greenhut; Argumento: Woody Allen, Douglas McGrath; Fotografia: Carlo Di Palma (filmado em Technicolor); Design de Produção: Santo Loquasto; Montagem: Susan E. Morse; Figurinos: Jeffrey Kurland; Produtor Associado: Thomas Reilly; Directores de Produção: Jonathan Filley, Helen Robin; Direcção Artística: Tom Warren; Cenários: Susan Bode, Amy Marshall; Caracterização: Joe Campayno; Orquestração e Direcção Musical: Dick Hyman.

Elenco:

Jim Broadbent (Warner Purcell), John Cusack (David Shayne), Harvey Fierstein (Sid Loomis), Chazz Palminteri (Cheech), Mary-Louise Parker (Ellen), Rob Reiner (Sheldon Flender), Jennifer Tilly (Olive Neal), Tracey Ullman (Eden Brent), Joe Viterelli (Nick Valenti), Jack Warden (Julian Marx), Dianne Wiest (Helen Sinclair), Stacey Nelkin (Rita), Malgorzata Zajaczkowska [como Margaret Sophie Stein] (Lili), Charles Cragin (Rifkin), Nina von Arx [como Nina Sonya Peterson] (Josette), Edie Falco (Lorna), Hope W. Sacharoff (Hilda Marx), Debi Mazar (Violet), Brian McConnachie (Mitch Sabine), Tony Sirico (Rocco), Jennifer Van Dyck (Substituta de Olive).

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