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Viva la MuerteFando é um rapaz que vive em Espanha, após a Guerra Civil Espanhola. Por entre a propaganda anti-comunista Fando assiste à prisão do seu pai, considerado um traidor, e agente comunista. Fando tenta compreender o que aconteceu ao pai, descobrindo ter sido a própria mãe a denunciá-lo às autoridades. Esta fê-lo tanto pelo seu fervor religiososo e respeito pela causa de Franco, como pelo medo do que a descoberta trouxesse sobre o seu filho.

Fando nunca compreende o gesto da sua mãe e irá continuar a busca do seu pai, que não crê como traidor. Seja em episódios reais, ou fantasiosos, Fando vai imaginar reencontros com o pai, e revisitar o que pensa que aconteceu, em sonhos de extrema violência e crueldade, onde a sua mãe surge tanto como a responsável, como objecto dos desejos sexuais do próprio filho.

Análise:

“Viva La Muerte”, a primeira realização do poeta e romancista, ensaísta e pintor espanhol Fernando Arrabal, é um filme extramente violento e visualmente perturbador, que granjeou desde logo um culto ao autor radicado em França. O filme foi filmado numa colaboração entre uma produtora francesa e tunisina, e não teria estreia em Espanha até depois do fim da ditadura de Franco. De notar que o próprio Arrabal esteve preso pelas suas ideias de esquerda.

Pegando num tema caro à sua geração (a Guerra Civil Espanhola), Arrabal escreveu e realizou, ainda no período franquista, um filme que funciona como uma crítica sobre os excessos do regime, e a sua repressão sanguinária. Tal é-nos contado pelos olhos de uma criança que não compreende o destino dado ao seu pai, um esquerdista, acusado de trair o regime.

O olhar infantil de Fando (Mahdi Chaouch), e principalmente a sua incompreensão, levam-no à necessidade de fantasiar os acontecimentos e processá-os ao seu modo. O resultado são excessos visuais e momentos de extremo surrealismo, em sequências que intercalam todo o filme e nos mostram o estado interior de Fando.

Essas sequências fantasiosas mostram-nos o desejo incompreendido de Fando por sua mãe (Núria Espert), traduzido em cenas que vão desde a nudez a gestos masturbatórios, o duche numa substância que faz lembrar o sémen, até ao beijo de um Fando adulto, enclausurado dentro de um boi. Temos por outro lado as visões da mãe como traidora, como Fando a imagina, entregando o seu pai (Ivan Henriques), participando na sua execução, defecando sobre o marido, e prostituindo-se perante a polícia.

Há todo um sentido apocalíptico no filme, com cenas de juízo final (referidas a Fando pela sua mãe ferverosa católica), inspiradas nos desenhos de Torpor, que constituem o genérico de abertura do filme, e que lembram vagamente a obra de Hyeronimus Bosch. Através de mutilações, tortura e sofrimento, parece-se reconstituir esses quadros iniciais, da forma caótica com que Fando tenta processar os acontecimentos que o torturam (a perda do pai), e que continua sem compreender.

“Viva La Muerte”, é ao mesmo tempo o grito que os soldados vão repetindo, como que confirmando que o regime triunfante é ele próprio castrador, e causador da morte (intelectual, artística, criativa, emocional, ou de valores) da sociedade espanhola, que condena a uma crendice cristã de contornos pagãos, ultrapassada e baseada no medo.

O resultado é um filme visualmente chocante, com uma fotografia que recorre a técnicas avant-garde, difícil de ver e compreender, e que utiliza um imaginário caro ao surrealismo: a repressão dos sentidos, o desejo sexual, a extrema violência, a associação livre, e a atmosfera onírica. O filme gerou um culto que fez de Arrabal um dos vultos do surrealismo europeu da segunda metade do século XX.

Produção:

Título original: Viva la Muerte; Produção: Isabelle Films / S.A.T.P.E.C.; País: França/Tunísia; Ano: 1971; Duração: 86 minutos; Distribuição: Max L. Raab Productions (EUA); Estreia: 12 de Maio de 1971 (França), 28 de Setembro de 1974 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Fernando Arrabal; Direcção de Produção: Jean Velter, Hassene Daldoul; Argumento: Fernando Arrabal, Claudine Lagrive [a partir do livro “Baal Babylone” de Fernando Arrabal]; Direcção Musical: Jean-Yves Bosseur; Fotografia: Jean-Marc Ripert; Montagem: Laurence Leininger (filmado em Panavision, Eastmancolor); Esculturas: Hechmi Marzouk; Cenários: Claudine Lagrive; Caracterização: Heger Daldoul, Phuong Maittret; Desenhos: Roland Topor.

Elenco:

Anouk Ferjac (A Tia), Núria Espert (A Mãe), Mahdi Chaouch (Fando), Ivan Henriques (O Pai), Jazia Klibi (Thérèse), Suzanne Comte (A Avó), Jean-Louis Chassigneux (O Avô), Mohamed Bellasoued (Coronel), Víctor García (Fando, 20 anos).

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