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Manhattan Murder MysteryUm ano após os tumultuosos acontecimentos que levaram à separação de Woody Allen e Mia Farrow, com exposição pública das suas vidas na imprensa, em torno do escândalo Soon-Yi Previn, Allen voltava a filmar. Desta vez, sem Farrow como actriz principal, Allen voltou a convidar a velha amiga Diane Keaton. Com eles regressam Alan Alda e Angelica Huston, para uma divertida comédia, contrastante com a vida de Allen e com o rumo soturno do seu cinema mais recente. Pela primeira vez desde “Manhattan”, 1979, Allen voltava a escrever um argumento em parceria com Marshall Brickman.

Sinopse:

Larry e Carol Lipton (Woody Allen e Diane Keaton) são um casal nova-iorquino, que um dia conhece os vizinhos Paul e Lillian House (Jerry Adler e Lynn Cohen) no elevador, passando um serão em sua casa. No dia seguinte a notícia da morte de Lillian House, choca-os, e Carol começa a sentir que há algo errado na história. A princípio por curiosidade, depois mais obsessivamente, Carol começa a espiar o vizinho Paul House. Se tal actividade provoca o indignação do marido, ela encontra companhia no amigo Ted (Alan Alda). Aos poucos o mistério vai-se adensando, e em breve não só Larry, Carol e Ted estão envolvidos, como arrastam consigo a nova namorada deste, Marcia (Anjelica Huston) e outros amigos, na caça ao possível assassino.

Análise:

Muito se falou entre 1992 e 1993 do escândalo familiar que acabou de vez com a família de Woody Allen e Mia Farrow. O filme anterior, “Maridos e Mulheres”, tem sido descrito como um olhar para a vida privada do casal, algo que Allen sempre refutou. Seja como for, para seu filme seguinte, Allen decidiu mudar completamente o rumo do seu cinema, voltando à comédia simples.

Sem Farrow ao seu lado, voltou a diva dos seus filmes dos anos 70, Diane Keaton, que aqui, visivelmente mais velha, compõe com toda a sua graciosidade, a personagem enérgica e voluntariosa, que preenche de olhos fechados as entrelinhas dos diálogos de Allen, não se notando que o papel havia sido escrito para Mia Farrow. O regresso de Alan Alda e Anjelica Huston foram também apostas seguras em dois actores que já antes haviam trabalhado com Allen, sendo que Alda voltaria a fazê-lo.

“O Misterioso Assassínio em Manhattan” começa como se fosse uma continuação de “Maridos e Mulheres”, e por momentos Allen and Keaton parecem estar a repetir os papéis de Allen e Farrow nesse filme. São casados, estão constantemente a reavaliar o seu casamento (a sequência inicial em que vemos a divergência dos seus mundos quando ele prefere o desporto e ela a ópera é paradigmática na obra de Allen), e vêem no ciúme uma fonte de insegurança, ele constantemente ameaçado por Ted (Alan Alda) ela por Marcia (Anjelica Huston). O próprio sentir ciúmes pelo amigo solteiro que começa a sair com outra mulher é um tema recorrente nos filmes do autor (ver por exemplo a personagem de Farrow em “Maridos e Mulheres”).

Mas as semelhanças com “Maridos e Mulheres” terminam nessa descrição do casal. A partir de então a história é verdadeiramente de crime e mistério. Através de uma série de suspeitas que a outros poderiam passar despercebidos, Carol põe em funcionamento a sua imaginação, e salta imediatamente para uma história macabra. Na sua mente, o vizinho Paul House (Jerry Adler) matou a esposa Lillian (Lynn Cohen) para fugir com uma possível amante. Embora sem provas concretas, e muita oposição do marido (Allen está aqui ao seu mais alto nível de nervosismo e neurose, onde não faltam ataques de claustrofobia, e muito humor físico), Carol prossegue até ao ponto de nem mesmo Larry poder negar que algo se passa.

É curioso que, embora o filme decorra quase como um Film Noir, com imensos episódios cómicos (na maior parte das vezes resultantes da química entre Allen e Keaton), a investigação surja como um olhar para a vida do casal. Primeiro a negação de Larry provoca em Carol um sentimento de frustração e inferioridade. Depois, a cumplicidade que se gera entre Carol e Ted vem trazer ciúmes a Larry, que acaba por se juntar à investigação, não por crença, mas para estar perto da esposa. Mais à frente, o contributo de Marcia (uma escritora, com alta intuição para histórias macabras) vem provocar o ciúme e quase desinteresse de Carol, ao ver tanto Larry como Ted conduzidos pelas ideias da escritora. Finalmente, é a conclusão, com o salvamento de Carol pelo marido, que surge como prova de que são feitos um para o outro, e a relação volta a ganhar humor e cumplicidade.

O filme é ainda (como o nome espelha) mais uma declaração de Allen amor a Manhattan (atente-se à canção de abertura “I Happen to Like New York” de Cole Porter), com uma sucessão de “postais ilustrados”, apresentados quer na nomeação de edifícios importantes para Allen, como no passear pelas ruas.

Voltam também os clichès do universo Alleniano, senão veja-se. O personagem de Allen é um editor, e todos os personagens se movem no mundo das letras, teatro ou cinema. São recorrentes (geralmente para efeito cómico) as referências à psicanálise. O cinema é referido diversas vezes, seja na vontade de Larry de ver Bob Hope na TV; seja numa menção a “O Último Ano em Marienbad” (L’année dernière à Marienbad, 1963) de Alain Resnais, como memória do primeiro filme que Larry e Carol viram juntos; seja no autocarro onde vemos que a morta ainda está viva, o qual faz apropriadamente publicidade a “A Mulher que Viveu duas Vezes” (Vertigo, 1958) de Hitchcock. Aliás, Hitchcock é uma referência fundamental para “O Misterioso Assassínio em Manhattan”, que parece seguir de muito próximo o enredo de “A Janela Indiscreta” (Read Window, 1954). Finalmente note-se o uso da sala cinema, com todos os espelhos atrás do écrã no qual passa “A Dama de Xangai” (The Lady from Shanghai, 1947) de Orson Welles, cuja sequência final Allen imita em jeito de homenagem.

Nota-se ainda um certo olhar para “Annie Hall” o filme de 1977 que marcou para sempre a carreira de Woody Allen e Diane Keaton. Não só a história de “O Misterioso Assassínio em Manhattan” nasceu de ideias que ficaram de fora de “Annie Hall” (ambos os filmes co-escritos com Marshall Brickman), como os dois personagens principais parecem versões mais velhas de Alvy Singer e Annie Hall. Consciente dessa associação, Allen não resistiu à brincadeira de colocar Carol a dizer que está farta de gravatas, numa clara alusão ao vestuário típico de Annie.

O filme foi a estreia no cinema de Zach Braff que, num curto cameo interpreta o filho de Larry e Carol. Bem recebido pela crítica, e nomeado para vários prémios internacionais, ainda assim “O Misterioso Assassínio em Manhattan” foi o último filme de Woody Allen para a TriStar, que alegadamente se terá querido dissociar da má publicidade trazida pelos problemas pessoais do realizador.

Produção:

Título original: Manhattan Murder Mystery; Produção: TriStar Pictures / Jack Rollins-Charles H. Joffe Productions; Produtores Executivos: Jack Rollins, Charles H. Joffe; País: EUA; Ano: 1993; Duração: 107 minutos; Distribuição: TriStar Pictures; Estreia: 18 de Agosto de 1993 (EUA), 10 de Dezembro de 1993 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Robert Greenhut; Argumento: Woody Allen, Marshall Brickman; Fotografia: Carlo Di Palma (filmado em Panavision); Design de Produção: Santo Loquasto; Montagem: Susan E. Morse; Figurinos: Jeffrey Kurland; Produtor Associado: Thomas Reilly; Director de Produção: Joseph Hartwick; Direcção Artística: Speed Hopkins; Cenários: Susan Bode; Caracterização: Fern Buchner.

Elenco:

Alan Alda (Ted), Woody Allen (Larry Lipton), Anjelica Huston (Marcia Fox), Diane Keaton (Carol Lipton), Jerry Adler (Paul House), Joy Behar (Marilyn), Ron Rifkin (Sy), Lynn Cohen (Lillian House), William Addy (Jack – o Porteiro), John Doumanian (Vizinho), Sylvia Kauders (Vizinho), Ira Wheeler (Médico), Melanie Norris (Helen Moss), Marge Redmond (Mrs. Dalton), Zach Braff (Nick Lipton), Aida Turturro (Empregada do Hotel), John Costelloe (Polícia), Frank Pellegrino (Polícia), Philip Levy (Polícia), Wendell Pierce (Polícia), Steven Randazzo (Polícia), Yanni Sfinias (Empregado de Hotel à noite), Gloria Irizarry (Empregada de quarto), Ruth Last (Irmã de Lillian).

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