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Husbands and WivesApós 9 anos e 11 filmes com a Orion Pictures, Woody Allen realizou em 1992 o seu primeiro filme para a TriStar. Este seria, em simultâneo, o seu último filme com Mia Farrow. Novamente com um filme de ensemble, seguindo em paralelo a vida de várias pessoas, Woody Allen conseguia mais um drama, com pouquíssimo humor, desta vez consigo próprio como protagonista. Ao seu lado e de Farrow, a já habitual constelação de estrelas: Judy Davis, Sydney Pollack, Juliette Lewis e Liam Neeson. Para muitos este seria o último grande filme de Woody Allen.

Sinopse:

Quando Jack (Sydney Pollack) e Sally (Judy Davis) anunciam a sua separação ao casal de amigos Gabe (Woody Allen) e Judy (Mia Farrow), a notícia cai como um choque. Primeiro Gabe e Judy acham a separação, após tantos anos de matrimónio, um desperdício que não compreendem, mas aos poucos começam a questionar também o seu próprio casamento.

Jack acaba por conhecer uma mulher menos complicada que Sally, a jovem Sam (Lysette Anthony), o que choca Sally, que se envolverá com o romântico Michael (Liam Neeson). Ao mesmo tempo, as divergências entre Gabe e Judy acentuam-se, ela buscando um romantismo diferente, que vê no mesmo Michael, que apresentara a Sally, e ele fascinado com atenção da sua aluna Rain (Juliette Lewis).

Análise:

“Maridos e Mulheres” surge na obra de Woody Allen, como o manual definitivo do pessimismo das relações amorosas, em particular para casais de meia idade. É um pouco o culminar, ou aprofundar de muitas pontas soltas deixadas noutros filmes, em particular “Annie Hall” e “Ana e as suas Irmãs”, embora transversal a quase todos os seus filmes desde 1977.

Esse amadurecimento do tema é notório logo desde a cena inicial, em que, a frio, nos é mostrado um casal que se vai separar. Ao contrário de filmes mais antigos não há da parte de Woody Allen uma necessidade de mostrar o construir de uma relação, seja pelo lado afectivo seja pelo racional. Isso é agora passado, e percebemos que ele está noutra fase. A relação existe, já a conhecemos (como se viesse de outros filmes seus), e queremos apenas perceber em que se vai transformar. No fundo desde logo somos largados no reino da velha pergunta Alleniana “Porque duram ou acabam as relações?”

Nesse sentido o filme é uma história típica de crises de meia idade, pelos personagens preferidos de Allen, intelectuais nova-iorquinos de classe média-alta. Allen é neste filme um professor de literatura, e as referências a literatura, música clássica, arquitectura e decoração são os catalizadores dos diálogos, e testes para a compatibilidade ou falta dela entre os casais.

Seja através do casal Jack e Sally (Sydney Pollack e Judy Davis), seja através de Gabe e Judy (Woody Allen e Mia Farrow), é a dinâmica interna, as incompatibilidades e o esmorecimento dos factores de atracção (físicos, intelectuais, emocionais) que constitui o cerne da história.

Jack e Sally começam por aceitar civilizadamente que se afastaram como casal, e devem procurar outras soluções. Ele procura paixão sexual, ela é adepta de um racionalismo que o castra. Ambos acabam procurando nas novas relações, o oposto daquilo que tinham. Jack procura a irreverência e descomprometimento de Sam (Lysette Anthony), uma mulher mais jovem, despretensiosa e livre, que o deixa respirar. Por seu lado Sally procura o romântico, sensível e atencioso Michael (Liam Neeson), que a pode voltar a fazer acreditar na inocência de uma relação. Ambos acabam por rejeitar as diferenças que procuraram. Fica no ar a pergunta, terão aprendido com os erros, ou são simplesmente seus prisioneiros?

Por outro lado Gabe e Judy começam com uma revisão do seu matrimónio, que não só perdeu a atracção física, como a cumplicidade intelectual (note-se como ambos procuram a opinão de terceiros sobre a sua escrita, não confiando na do cônjuge), e a noção de projecto a dois (exemplificado nas divergências quanto à constituição de família). Uma série de conflitos levá-los-á à separação, quando chegam à inevitável conclusão de que apenas lhes restam as memórias.

Em ambos os casos se nota a obsessão de Allen pela racionalização das relações e seus problemas. Em certo sentido estas parecem-nos demasiado cerrebrais, como compromissos cuja resolução tem um sentido puramente prático (Jack e Sally cedem à necessidade de companhia; Judy, procura alguém que preencha os requisitos do seu projecto). Em ambos os casos o sucesso das escolhas fica em aberto, não nos sendo claro se os compromissos finais são ou não do inteiro agrado dos protagonistas.

Aumentando o seu leque de recursos narrativos, Allen construiu o filme como um pseudo-documentário (o seu terceiro, e todos bem diferentes entre si). Todos os personagens surgem em discurso directo com a câmara no escritório de um entrevistador do qual só se ouve a voz (Jeffrey Kurland, o habitual figurinista de Allen), e o qual narra em jeito introdutório os vários episódios que constituem o filme. Fica a ideia de que estas pequenas entrevistas, mais que partes de um documentário, são um confessionário, em que os personagens se abrem completamente perante o público, à parte do filme. Tal surge como uma análise quase científica sobre estas relações, fosse possível pegar em casos reais e examiná-los em toda a sua realidade e pormenor.

O caracter documental, e pode-se dizer, realista, é tanto maior quanto Allen opta pela filmagem com câmara no ombro, com que a maior parte das cenas (nomeadamente os diálogos) são filmadas. Tal proximidade entre câmara (ou espectador) e personagens, com movimentos erráticos por entre os actores, nem sempre focando quem fala (a separação entre som e imagem é uma característica de Woody Allen), que nos faz sentir como se estivéssemos lá, esquecendo-nos que estamos num filme. Tal traz uma intensidade extra às emoções sentidas em cada momento.

“Maridos e Mulheres” chega a ferir-nos pela sua intensidade e realismo, seja na cena inicial em que Gabe e Judy perdem a calma perante a calma da anunciada separação de Jack e Sally; seja no momento em que Sally se apercebe que Jack tem nova namorada, e na vontade de fugir deixa cair o conteúdo da mala no chão; seja na tempestuosidade e violência com que Jack trata Sam no momento em que se apercebe que não quer mais estar com ela; seja no momento em que Jack confronta Sally e Michael.

Esse realismo é tão bem conseguido que nos faz sentir mal por observarmos todos esses momentos, como se fôssemos voyeurs da vida de pessoas reais, e nos devêssemos envergonhar disso. Tal é conseguido não só pela fotografia (novamente Carlo Di Palma), como dito de câmara ao ombro e close-ups bruscos, mas também pelas interpretações (as quatro principais, são excelentes, acompanhadas sem mácula por Liam Neeson e Juliette Lewis), pelos diálogos sujos, nervosos, atropelados, e principalmente pela montagem, aqui mais crua que habitualmente, cortando frases a meio e saltando no tempo durante um mesmo diálogo.

Se a pergunta principal, atrás descrita, é clara, a resposta é incerta. Sabemos que a resposta mais simples de Allen para o que mantém certas relações um sucesso é “sorte”, mas em “Maridos e Mulheres” ele procura alternativas, as quais são evidentes nos discursos finais dos personagens. Para Jack e Sally o medo da solidão fá-los aceitar que certos assuntos devem permanecer por falar. Para Judy e Michael a fé num futuro melhor é suficiente para reescrever o passado (note-se como o deles é sempre diferente de cada vez que é contado, e fica no ar a ideia de que um foi manipulado pelo outro). Para Gabe resta a paz de espírito, como base da racionalização que lhe permite acreditar nas suas opções.

Deve-se ainda salientar a recorrência do tema do Pigmalião (de que “Manhattan”, “Uma Comédia Sexual numa Noite de Verão” e “Ana e as Suas Irmãs” são bons exemplos), e o fascínio pela relação com uma mulher mais jovem, que neste caso prova estar emocionalmente ao nível do homem mais velho. Este tema está a par da clássica dicotomia Alleniana entre mulheres complicadas e interessantes (seja a demente Harriet, ou a obsessiva Sally) e as mulheres simples, fáceis de ter ao lado, mas pouco estimulantes (como Sam e Judy).

Curiosa é a inserção do livro de Gabe na história. Através de uma discussão sobre a motivação dos personagens do livro, nós temos como que uma justificação de Allen sobre o que o levou a escrever “Maridos e Mulheres”. Gabe confessa ser o seu livro baseado na sua experiência, o que nos reforça a ideia de que o filme terá o mesmo efeito para Allen. A sua luta entre o cinismo e pessimismo do que conhece sobre a crise das relações é refutado pela alegria da jovem Rain (Juliette Lewis), fazendo-nos pensar se não seria isso já uma evidência do que o autor sentia ao procurar a relação com a jovem Soon-Yi Previn, cuja revelação espantaria o mundo nos meses seguintes.

O filme, que alguns autores consideram mais uma homenagem a Ingmar Bergman, particularmente influenciado por “Cenas da Vida Conjugal” (Scener ur ett äktenskap, 1973), valeu a Allen o reconhecimento da crítica (poucos dos seus filmes posteriores foram tão bem aceites como este), bem como inúmeros prémios, incluíndo as nomeações para os Oscars de Melhor Argumento e Actriz (Judy Davis).

Produção:

Título original: Husbands and Wives; Produção: TriStar Pictures / Jack Rollins-Charles H. Joffe Productions; Produtores Executivos: Jack Rollins, Charles H. Joffe; País: EUA; Ano: 1992; Duração: 104 minutos; Distribuição: TriStar Pictures; Estreia: 18 de Setembro de 1992 (EUA), 12 de Março de 1993 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Robert Greenhut; Argumento: Woody Allen; Fotografia: Carlo Di Palma (filmado em Technicolor); Design de Produção: Santo Loquasto; Montagem: Susan E. Morse; Figurinos: Jeffrey Kurland; Produtor Associado: Thomas Reilly; Director de Produção: Joseph Hartwick; Direcção Artística: Speed Hopkins; Cenários: Susan Bode; Caracterização: Fern Buchner.

Elenco:

Woody Allen (Gabe Roth), Blythe Danner (Mãe de Rain), Judy Davis (Sally), Mia Farrow (Judy Roth), Juliette Lewis (Rain), Liam Neeson (Michael Gates), Sydney Pollack (Jack), Lysette Anthony (Sam), Cristi Conaway (Shawn Grainger, Prostituta), Timothy Jerome (Paul), Ron Rifkin (Psicanalista de Rain), Jerry Zaks (Convidado na festa), Jeffrey Kurland (Entrevistador, Narrador – voz), Bruce Jay Friedman (Peter Styles), Rebecca Glenn (Gail), Galaxy Craze (Harriet), Benno Schmidt (Ex-marido de Judy), Brian McConnachie (Pai de Rain), Matthew Flint (Namorado de Rain).

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