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As produções de Val Lewton na RKO

por David Lourenço
autor do blog O Narrador Subjectivo

Val Lewton teve em Hollywood a oportunidade de viver o sonho americano à sua maneira. Como muitos produtores da mesma era (os irmãos Warner da Polónia, Louis B. Mayer da Bielorússia, entre outros), o studio system foi uma oportunidade para seguir, desenvolver e enriquecer com a sua paixão pelo cinema mas também para se integrar no país que o acolheu, vindo de um canto da Europa.

No entanto, é seguro dizer que Lewton foi dos que teve mais altos e baixos. Depois de anos a trabalhar para David O. Selznick, maioritariamente como escritor fantasma, foi contratado em 1942 pela RKO para chefiar a sua nova secção de terror, onde teria de seguir três condições em cada projeto: os filmes teriam de custar menos de 150.000$, teriam de durar menos de 75 minutos e os títulos seriam escolhidos pelos seus superiores.

Assim surgiu uma série de onze filmes com um timbre peculiar e transversal a todos eles, a que se seguiu problemas na tentativa de transitar para outros géneros, desentendimentos com os realizadores Mark Robson e Robert Wise, que protegera e a quem permitira dar os primeiros passos, numa versão primária do que Roger Corman viria a fazer por Martin Scorsese ou Francis Ford Coppola, e problemas de saúde, que conduziram à sua morte prematura, com apenas 46 anos.

"The Leopard Man" de Jacques Tourneur

A pronunciada mudança de direcção da RKO e o baixo orçamento de Cat People são denunciados pela reciclagem dos cenários da mansão de The Magnificent Ambersons; o génio extravagante de Orson Welles cedia lugar ao génio mais subtil e sustentável, e talvez por isso menos notório, de Val Lewton. Reconhecíveis, nesse filme realizado por Jacques Tourneur, são algumas das características que permeiam os posteriores deste grupo, como a presença de protagonistas femininas fortes, a gestão do silêncio e o recurso a artifícios que já se tornaram clássicos neste tipo de cinema, desde as sombras à noite, ao som do vento ou ao misticismo para sugerir medo, o que resulta em imagens com uma atmosfera densa e de um negrume poético – realço a cena da piscina em Cat People, mas também a cena do cemitério em The Leopard Man e o discurso sobre poder do capitão em The Ghost Ship, que é totalmente um thriller psicológico.

Aliás, o fascínio com os mais bizarros destinos da mente humana é tão superior à tentativa de chocar, que nenhum destes filmes se resume a um monstro disforme ou a um acto de violência, e penso que é sintomático que em The Seventh Victim o duche de uma mulher seja interrompido apenas por uma conversa através da cortina da banheira, e não por um banho de sangue, como aconteceria 17 anos depois em Psycho.

"The Curse of the Cat People" de Robert Wise

Filmes aconselhados:

  • “A Pantera” (Cat People, 1942) de Jacques Tourneur
  • “Zombie” (I Walked With A Zombie, 1943) de Jacques Tourneur
  • “O Homem Leopardo” (The Leopard Man, 1943) de Jacques Tourneur
  • “The Seventh Victim” (1943) de Mark Robson
  • “O Barco da Morte” (The Ghost Ship, 1943) de Mark Robson
  • “Mademoiselle Fifi” (Mademoiselle Fifi, 1944) de Robert Wise
  • “A Maldição da Pantera” (The Curse Of The Cat People, 1944) de Robert Wise
  • “Youth Runs Wild” (1944) de Mark Robson
  • “O Túmulo Vazio” (The Body Snatcher, 1945) de Robert Wise
  • “A Ilha dos Mortos” (Isle Of The Dead, 1945) de Mark Robson
  • “A Casa Sinistra” (Bedlam, 1946) de Mark Robson
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