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Shadows and FogEm 1991, para além da sua participação ao lado de Bette Midler no filme “Cenas Conjugais” (Scenes from a Mall), de Paul Mazursky, Woody Allen realizou “Sombras e Nevoeiro”. Baseado na sua própria peça de teatro “Death”, Allen filmou a preto e branco em cenários bastante estilizados, uma história que se situa entre o seu universo e o de Kafka. Com Mia Farrow ao seu lado, Allen fez-se ainda acompanhar de uma constelação de estrelas, incluindo John Malkovich, Donald Pleasance, Madonna, John Cusack, Kathy Bates, Jodie Foster, Kenneth Mars, Julie Kavner e John C. Reilly. O filme seria um rotundo fracasso de bilheteira, e o seu último para a Orion Pictures.

Sinopse:

A meio da noite, por entre gritos, Max Kleinman (Woody Allen) é acordado por amigos e vizinhos, para que se junte a eles na caça a um assassino que estrangula pessoas no nevoeiro nocturno. Max veste-se e sai, mas vê-se sozinho pelas ruas da cidade, entre o seu medo e encontros incidentais com diversos personagens, que nunca lhe explicam a sua parte no plano de captura. Ao mesmo tempo Irmy (Mia Farrow), desiludida com a traição do namorado Paul, o palhaço (John Malkovich) abandona o circo onde ambos trabalham, e vai deambular pela cidade, onde acompanha Max nas suas buscas, descobertas e fugas por entre as sombras e nevoeiro.

Análise:

“Sombras e Nevoeiro” é um exercício de estilo no qual Woody Allen quis prestar homenagem a alguns dos seus mestres. Com toda a acção a decorrer numa única noite, numa cidade que pode muito bem ser imaginária (sem quaisquer referências ao mundo real, ou ao universo habitual de Allen), o filme é marcado pela fotografia, a preto e branco, num ambiente estilizado, onde nevoeiro é quase um personagem.

Notam-se desde logo as referências ao cinema expressionista alemão do período entre as duas guerras mundiais (Murnau, Lang, Leni, Pabst), mas também ao cinema de Orson Welles, a filmes como “O Terceiro Homem” (The Third Man, 1949) de Carol Reed, e a alguma atmosfera de Fellini. Não só o cenário é constituído por ruas labirínticas, becos escuros, túneis sob pontes e interiores exíguos, como nos surgem personagens por vezes grotescos (como que saídos de um pesadelo) e estamos perante um mistério de proporções quase fantasiosas, sobre um terrível assassino cuja motivação nunca chegamos a compreender.

Essa incompreensão lança o pânico sobre os habitantes da cidade. Entre eles está Max Kleinman (Woody Allen) que, chamado à pressa a meio da noite pelos vizinhos, vai percorrer as ruas como nosso guia, levando-nos por uma viagem que está na fronteira do surrealismo. Pelos olhos de Max vamos assistindo aos diversos incidentes, desfilar de personagens, e acumular de corpos assassinados. Nesse sentido, o personagem desajustado de Max, num mundo que parece não ser o seu, lembra os filmes “O Herói do Ano 2000” de 1973, e “Nem Guerra nem Paz” de 1975.

O filme é por isso uma viagem pela noite daquela cidade fantasiosa, e pelos medos e limitações de uma pessoa que se sente sozinha contra o mundo, que vai surgindo à sua frente de modo enigmático. Como nós, Max/Allen está fora desse mundo. Por isso, como nós, ele pergunta incessantemente qual é esse plano de que todos os outros personagens falam, mas ele nunca chega a saber. Como se fosse um segredo para iniciados, algo que faz parte do código genético de todos. Não saber o plano, não o cumprir, vale a Max o desprezo de todos, que não só deixam de o ver como parte do conjunto, como passarão a persegui-lo (vigilantes, polícia e assassino). Nesse sentido a história lembra o universo kafkiano, em particular “O Processo” (que teria uma versão filmada por Orson Welles), onde o motivo de perseguição do personagem principal parece ser do conhecimento geral, menos do próprio interessado, ou do leitor. Tal como o personagem de “O Processo” se comporta como se aceitasse a sua culpa, apenas não conseguindo perceber de que se trata, também Max aceita fazer parte de um plano que não conhece. A sua apreciação do ridículo de toda a situação e as frases desconcertantes com que responde às contrariedades, constituem a fonte de humor do filme.

Fora deste conjunto está o circo, de onde nos chega Irmy (Mia Farrow), que por alguns instantes se torna a única a pessoa a fazer sentido na noite de Max. Também ela vive uma noite especial, que a afasta do seu meio (o circo), do namorado (John Malkovich) e até da sua conduta moral (prostituindo-se quase por acidente) e finalmente da sua zona de conforto (aceitando perfilhar uma criança que encontra abandonada).

Se para Irmy o encontro com esta noite de sombras e nevoeiro é uma reavaliação da sua vida, que lhe dá coragem para a colocar no caminho pretendido, para Max ela é a prova de que ele não pertence à cidade e vida que sempre viveu. Não espanta por isso que ele se sinta mais à vontade com a desconhecida Irmy ou até no bordel, que com os seus amigos ou noiva. Nem espanta por isso, que prefira a aventura do circo, que lhe traz a magia que (nas palavras do mágico) “todos nós precisamos”.

Com este carácter fantasioso e alegórico, longe de qualquer relação com os problemas urbanos de intelectuais da classe média-alta de Manhattan, “Sombras e Nevoeiro” parece deslocado de toda a obra e temática de Woody Allen. Voltam no entanto as referências a Deus e à existência humana, com o optimismo de Irmy, do homem da ciência (Donald Pleasance) e do homem de fé (o Padre) a oporem-se ao cepticismo do estudante Jack (John Cusack) e de Max. Presente está também a discussão sobre o que une ou desune duas pessoas (note-se a referência à “sorte”, já evidente deste “Annie Hall”). Curiosamente estes momentos filosóficos ganham expressão no bordel, reforçando o interesse dado por Allen à prostituição, já notado em “A Rosa Púrpura do Cairo”.

Sendo o primeiro filme de Allen a preto e branco desde que deixou de trabalhar com Gordon Willis, a fotografia de Carlo Di Palma resulta em pleno, conferindo ao filme o seu ambiente opressivo e enigmático, como se se tratasse de uma noite de pesadelo. Woody Allen destaca-se como actor principal, cujo nervosismo e medo nos colocam no estado de espírito ideal para percorrermos aquela noite de nevoeiro. Embora rodeado de um elenco admirável, (John Malkovich, Donald Pleasance, Madonna, John Cusack, Kathy Bates, Jodie Foster, Lily Tomlin, etc.) poucos actores se destacam ao nível de Allen ou Farrow (excepção para Kenneth Mars no brilhante papel do mágico), tendo na sua maioria apenas pequenos papéis restringidos a uma secção do filme.

Por ser um filme completamente deslocado do universo de Allen, filmado a preto e branco, com uma fotografia reminiscente de produções do início do cinema, e algumas técnicas já repetidas noutros filmes (veja-se por exemplo a câmara rotativa na conversa entre Irmy e as prostitutas) “Sombras e Nevoeiro” não conseguiu captar a atenção do público nem da crítica, que sentiu tratar-se de uma obra menor, sem consequências ou ligações à restante obra do autor.

O filme destaca-se pela sua beleza visual, embora pareça por vezes confuso e inconsequente, com tons que vão do terror à comédia, passando pelo romance e surrealismo. O fracasso de bilheteira precipitou a decisão da Orion de não produzir mais nenhum filme de Woody Allen. A produtora entraria em falência nesse mesmo ano.

Produção:

Título original: Shadows and Fog; Produção: Orion Pictures Corporation / Jack Rollins-Charles H. Joffe Productions; Produtores Executivos: Jack Rollins, Charles H. Joffe; País: EUA; Ano: 1991; Duração: 82 minutos; Distribuição: Orion Pictures Corporation; Estreia: 5 de Dezembro de 1991 (EUA), 9 de Outubro de 1992 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Robert Greenhut; Argumento: Woody Allen; Fotografia: Carlo Di Palma (filmado em Panavision); Design de Produção: Santo Loquasto; Montagem: Susan E. Morse; Figurinos: Jeffrey Kurland; Produtor Associado: Thomas Reilly; Director de Produção: Joseph Hartwick; Direcção Artística: Speed Hopkins; Cenários: George Titta Jr., Amy Marshall; Caracterização: Bernadette Mazur.

Elenco:

Woody Allen (Max Kleinman), Kathy Bates (Prostituta), John Cusack (Jack, Estudante), Mia Farrow (Irmy), Jodie Foster (Prostituta), Fred Gwynne (Seguidor de Hacker), Julie Kavner (Alma), Madonna (Marie, a Trapezista), John Malkovich (Paul, o Palhaço), Kenneth Mars (Mágico), Kate Nelligan (Eve), Donald Pleasence (Médico), Lily Tomlin (Prostituta), Philip Bosco (Mr. Paulsen), Robert Joy (Assistente de Spiro), Wallace Shawn (Simon Carr), Kurtwood Smith (Seguidor de Vogel), Josef Sommer (Padre), David Ogden Stiers (Hacker), Michael Kirby (Assassino), James Rebhorn (Vigilante), Victor Argo (Vigilante), Daniel von Bargen (Vigilante), Camille Saviola (Senhoria), Tim Loomis (Anão), Katy Dierlam (Mulher Gorda), Dennis Vestunis (Homem-Músculo), Anne Lange (Prostituta), Andy Berman (Estudante), Paul Anthony Stewart (Estudante), Thomas L. Bolster (Estudante), Fred Melamed (Vigia), Greg Stebner (Chefe da Polícia), Peter Appel (Polícia na Estação), John C. Reilly (Polícia na Estação), Brian Smiar (Polícia na Estação), Michael P. Troy (Polícia na Estação), Remak Ramsay (Polícia na Estação), Ron Turek (Polícia na Estação), Peter McRobbie (Barman), Ira Wheeler (Polícia com o Padre), Eszter Balint (Mulher com o Bebé), Rebecca Gibson (Bebé), Robert Silver (Seguidor de Hacker), Charles Cragin (Spiro), William H. Macy (Polícia com Spiro), Tom Riis Farrell (Vigilante como Spiro), Ron Weyand (Vigilante como Spiro).

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