Etiquetas

, , , , , , , , ,

The KillingSinopse:

Johnny Clay (Sterling Hayden) é um criminoso que prepara o golpe perfeito, o roubo do dinheiro das apostas de um hipódromo em pleno dia de corridas. Para isso reúne um conjunto de pessoas insuspeitas, desde o empregado do balcão de apostas, George Peatty (Elisha Cook Jr.), o barman Mike O’Reilly (Joe Sawyer), o polícia Randy Kennan (Ted de Corsia), o atirador Nikki Arcane (Timothy Carey) o lutador profissional Maurice Oboukhoff (Kola Kwariani) para provocar uma distracção, e o patrono Marvin Unger (Jay C. Flippen) que financia toda a operação.

Quando George revela o que se passa à sua mulher Sherry (Marie Windsor), esta passa a espiá-lo e conta tudo ao amante Val Cannon (Vince Edwards), o qual passa a seguir o grupo, pois pretende obter o dinheiro para si. Chegado o dia do roubo, todos sabem perfeitamente os seus papéis para executar o crime perfeito. Mas nem todos sabem que há quem os esteja a espiar.

Análise:

“Um Roubo no Hipódramo” foi a quinta realização do conceituado Stanley Kubrick, e a sua primeira longa-metragem usando uma equipa e elenco profissionais. Escrito pelo próprio realizador, a partir de um livro de Lionel White, e financiado pelo seu amigo James B. Harris, o filme trata da descrição de um roubo, com todos os detalhes da sua preparação e execução, recordando um pouco a temática de “Quando a Cidade Dorme” (The Asphalt Jungle, 1950) de John Huston.

O filme enquadra-se no género Noir, embora seja um dos primeiros a quebrar algumas das suas convenções, o que aliás seria imagem de marca em Kubrick, um realizador conhecido por surpreender com as escolhas que muitas vezes quebrariam padrões e tornariam os seus filmes difíceis de catalogar.

Com um narrador omnipresente, e não participante na história, o filme ganha desde os primeiros segundos um carácter documental e solene. A narração é intercalada com discurso directo da parte dos personagens, que nos dão a ver, peça a peça, o puzzle que é a preparação e execução do golpe. Para isso Kubrick recorre a uma narrativa não linear onde os vários episódios nos são mostrados sequencialmente, mas fora da ordem cronológica em que ocorrem, e algumas vezes sobrepondo-se. Não só esta não linearidade, mas também a multiplicidade de pontos de vista (seguimos em momentos diferentes os vários intervenientes como personagens principais das “suas” histórias), lembram Orson Welles em “Um Mundo a seus Pés” (Citizen Kane, 1941). O uso de ângulos pouco convencionais e a profundidade de campo ligam ainda, visualmente, este filme a Welles, e a outros clichès do Noir, como o soberbo uso do chiaroscuro.

Voltando ao campo clássico Noir, temos os típicos anti-heróis, aqui vários, embora centrados em Johnny (Sterling Hayden perfeito no seu duro e frio personagem). À excepção de Johnny, todos os outros são cidadãos insuspeitos com cadastro limpo, pessoas a quem a cidade dessensibilizou para questões de bem e mal. Assim, colocaram a moralidade de lado, e a troco da promessa de uma vida melhor, longe das agruras que a honestidade até aí lhes trouxe, vão (repetindo a expressão típica do Noir) “fazer o que for preciso”.

O equilíbrio entre eles (e note-se como tão raras vezes no Noir se filmou uma relação de sincera lealdade entre um grupo de homens) é traído pelo elemento feminino. Sherry (Marie Windsor) a esposa de George, é a mulher fatal típica. Ela manipula o marido, usando-o, confundindo-o até obter a informação desejada com que pensa iludir o grupo em seu próprio proveito.

Note-se a diferença entre Sherry e Fay (Coleen Gray) a esposa de Johnny, dedicada, fiel, e que confia completamente no seu marido. Por essa lealdade, Fay será a única pessoa a sair ilesa da história, no que aliás seria um final politicamente correcto. Lembrando-nos que estamos a assistir a um quase documentário (uma ascenção e queda), vemos como tudo desmorona, e todos os envolvidos são mortos ou capturados.

A meticulosidade da explicação do plano serve sobretudo para criar tensão sobre os inúmeros pontos onde ele pode falhar (veja-se o caso da caixa de flores no cacifo, e o empregado do parque de estacionamento). No final, como lição, fica-nos a ideia de que nenhum plano é perfeito, já que nunca conta com a ambição humana (as pessoas verdadeiramente más no filme são Sherry e Val), nem com imprevistos de última hora, como um simples cão a correr por um aeroporto.

O filme, que esteve longe de ser um sucesso de bilheteira, destaca-se não só pela forma irreverente de contar a história (influenciando muitos filmes posteriores), como pelas excelentes interpretações de todos os actores, em especial Sterling Hayden, Marie Windsor e Elisha Cook Jr. Foi o primeiro filme a lançar as atenções sobre o então jovem promissor Stanley Kubrick.

Produção:

Título original: The Killing; Produção: Harris-Kubrick Pictures Corporation; País: EUA; Ano: 1956; Duração: 85 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 20 de Maio de 1956 (EUA), 7 de Agosto de 1957 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Stanley Kubrick; Produção: James B. Harris; Argumento: Stanley Kubrick, com diálogos de Jim Thompson [baseado no romance “Clean Break” de Lionel White]; Música: Gerald Fried; Fotografia: Lucien Ballard (preto e branco); Direcção Artística: Ruth Sobotka; Montagem: Betty Steinberg; Produtor Associado: Alexander Singer; Caracterização: Robert Littlefield; Efeitos Especiais: Dave Koehler; Cenários: Harry Reif; Figurinos: Beaumelle.

Elenco:

Sterling Hayden (Johnny Clay), Coleen Gray (Fay), Vince Edwards (Val Cannon), Jay C. Flippen (Marvin Unger), Ted de Corsia (Agente Randy Kennan), Marie Windsor (Sherry Peatty), Elisha Cook Jr. (George Peatty), Joe Sawyer (Mike O’Reilly), James Edwards (Vigilante do Parque), Timothy Carey (Nikki Arcane), Kola Kwariani (Maurice Oboukhoff), Jay Adler (Leo the Loanshark), Tito Vuolo (Joe Piano), Dorothy Adams (Mrs. Ruthie O’Reilly), Herbert Ellis (Segundo Balconista da American Airlines), James Griffith (Mr. Grimes, Gerente da Companhia Aérea), Cecil Elliott (Senhora com o cão), Joe Turkel (Tiny), Steve Mitchell (Brown, Balconista da American Airlines).