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AliceDepois do sucesso crítico de “Crimes e Escapadelas”, Woody Allen voltou a realizar outro filme sem a sua participação como actor, o que equivalia a um filme menos cómico, embora neste caso, mais optimista. Com Mia Farrow no papel principal, “Alice” foi um regresso aos dramas psicológicos introspectivos, como que numa continuação de “Uma Outra Mulher”. Desta vez com Mia Farrow contracenaram William Hurt, Joe Mantegna e Alec Baldwin. Na fotografia voltava Carlo Di Palma, depois de dois filmes com Sven Nykvist.

Sinopse:

Alice (Mia Farrow) é uma mulher da classe alta nova-iorquina. Esposa e mãe, sem quaisquer problemasna sua vida, para além do ócio, começa a queixar-se de uma dor nas costas. Tal leva-a a experimentar a terapêutica do misterioso Dr. Yang (Keye Luke). Este através de hipnose, ervas, acupunctura e outros tratamentos menos convencionais, vai lançá-la numa busca pessoal, sobre o que está mal na sua vida. Seja por sonhos ou conversas imaginadas ou pela sua presença invisível em locais onde não deveria estar, descobre a infidelidade do marido Doug (William Hurt), e aceita a sua própria relação com outro homem (Joe Mantegna).

Análise:

“Alice” é o regresso de Mia Farrow ao papel principal num filme de Woody Allen, depois de dois filmes em que representou papéis secundários e outros em que representou em ensemble. É também, em certa medida, uma continuação da temática de “Uma Outra Mulher”. Como naquele filme, Alice (interpretada por Mia Farrow), tem de deixar a sua zona de conforto, colocar a sua vida em causa, e procurar saber o que de facto sente, e quem são as pessoas que a rodeiam.

Tal como em “Uma Outra Mulher”, Allen recorre ao tema da mulher aparentemente bem na vida (Alice casou com um homem abastado, e vive no ócio de Spa’s, visitas da decoradora, e marcações de manicure e cabeleireiros), que é impelida a questionar aquilo em que se tornou. Fá-lo novamente com recurso a técnicas narrativas que evocam Ingmar Bergman, e nomeadamente “Morangos Silvestres” (Smultromstället, 1958). Assim Alice vai recordar o passado (por vezes entrelaçando-o com momentos presentes), e visitá-lo, interagindo com situações de outros tempos (artifícios também presentes em “Crimes e Escapadelas”). Não ficam de fora alguns momentos de surrealismo, como o confessionário que surge no pátio em frente da antiga casa de família, e onde Alice se confessa.

Mas se em “Uma Outra Mulher” essa viagem de redescoberta surgira como fruto do acaso, em “Alice” ela é provocada por alguém de fora, o misterioso homeopata chinês, Dr. Yang (Keye Luke). Este, através de hipnose, e principalmente infusões de ervas, vai trazer a Alice um aspecto fantasista à sua viagem, que passa por: tornar-se invisível para espiar o marido infiel (William Hurt) e as falsas amigas; conversar com o falecido ex-namorado (Alec Baldwin); conhecer a sua musa, quando tenta escrever (Bernadette Peters); voar sobre a cidade; ou mudar de personalidade.

Nesse sentido poder-se-á dizer que “Alice” é, na obra de Allen, um cruzamento entre “Uma Outra Mulher” e “A Rosa Púrpura do Cairo”, no qual, também através de uma alegoria, a personagem de Mia Farrow aprendeu a sair da sua zona de conforto, e sofrer para buscar algo mais real e duradouro. Por outro lado o filme pode ainda ser visto como uma reinterpretação de “Julieta dos Espíritos” (Giulietta degli Spiriti, 1965) de Federico Fellini, onde uma mulher também faz uma viagem pelas suas memórias e subconsciente.

Essa é a viagem de Alice, cujo nome evoca a personagem infantil de Lewis Caroll, e tal não parece ser coincidência. Muitos são os episódios, e as pessoas encontradas por Alice no seu País das Maravilhas privativo, que a vão ajudar a saber quem é quem na sua vida, quem é sincero, como se movimentam as pessoas, e principalmente como separar o verdadeiro do fútil.

Destacam-se Joe (Joe Mantegna), o primeiro interesse amoroso fora do casamento de Alice, que a desperta para a redescoberta de sentimentos que julgara perdidos, e a irmã Dorothy (Blythe Dann), que representa a ligação às origens perdidas na opulência do seu casamento e estado social.

Destacam-se pela positiva Joe (Joe Mantegna), o primeiro interesse amoroso fora do casamento de Alice, que a desperta para a redescoberta de sentimentos que julgara perdidos, e a irmã Dorothy (Blythe Dann), que representa a ligação às origens perdidas na opulência do seu casamento e estado social. Pela negativa, descobrimos as amigas bisbilhoteiras e falsas, o marido infiel incapaz de acreditar na capacidade de Alice, a editora Nancy Brill (Cybill Shepherd) que atingiu o lugar ilegitimamente e menospreza o trabalho de Alice, ou até o seu professor de literatura, que apenas ensina para tentar levar alunas para a cama.

Por tudo isto “Alice” é uma alegoria de descoberta pessoal, de alguém que só após aceitar o risco e a dor, pode deixar a coma imposta pelo seu estado social, e ter uma vida própria mais cheia e sincera. O filme é por isso conduzido por Mia Farrow, que de um modo discreto e cheio de candura nos vai enredando no modo de pensar da sua Alice. Por outro lado a sua interpretação quase esvazia os outros actores, muitos deles estrelas de créditos firmados.

De notar que “Alice” é um dos poucos filmes em que Woody Allen lida fortemente com o catolicismo no modo como afecta a sua personagem principal. Usando de novo a paisagem nova-iorquina, o filme, como se previa com o regresso de Carlo Di Palma, deixa os interiores Bergmanianos, e baseia-se mais no estilo característico e urbano de fotografia de Allen. Destacam-se ainda assim as cenas de fantasia, em ambientes sombrios, plenos de cor, talvez um pouco reminiscentes de Fellini.

Talvez o optimismo final e a demasiada inocência com que Alice é tratada, surjam como demasiado forçados, aligeirando um filme que, cheio de grandes ideias, não funciona como um todo. Com uma história lenta, nem sempre fácil de seguir, e sem um fio de humor que a anime, “Alice” foi um fracasso de bilheteira. No entanto valeu a Allen mais uma nomeação aos Oscars para Melhor Argumento Original. Mia Farrow venceu com este filme o Globo de Ouro para Melhor Actriz em Comédia/Musical.

Produção:

Título original: Alice; Produção: Orion Pictures Corporation / Jack Rollins-Charles H. Joffe Productions; Produtores Executivos: Jack Rollins, Charles H. Joffe; País: EUA; Ano: 1990; Duração: 107 minutos; Distribuição: Orion Pictures Corporation; Estreia: 25 de Dezembro de 1990 (EUA), 19 de Abril de 1991 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Robert Greenhut; Argumento: Woody Allen; Produtores Associados: Thomas A. Reilly, Jane Read Martin; Fotografia: Carlo Di Palma (filmado em DeLuxe); Design de Produção: Santo Loquasto; Montagem: Susan E. Morse; Figurinos: Jeffrey Kurland; Director de Produção: Joseph Hartwick; Direcção Artística: Speed Hopkins; Efeitos Especiais: Jeff Balsmeyer; Cenários: Susan Bode; Caracterização: Fern Buchner.

Elenco:

Alec Baldwin (Ed), Blythe Danner (Dorothy), Judy Davis (Vicki), Mia Farrow (Alice), William Hurt (Doug), Keye Luke (Dr. Yang), Joe Mantegna (Joe), Bernadette Peters (Muse), Cybill Shepherd (Nancy Brill), Gwen Verdon (Mãe de Alice), June Squibb (Hilda), Marceline Hugot (Monica), Dylan O’Sullivan Farrow (Kate), Matthew H. Williamson (Dennis), Julie Kavner (Decoradora), Holland Taylor (Helen), Robin Bartlett (Nina), Linda Wallem (Penny), Diane Cheng (Assistente do Dr. Yang), Patrick O’Neal (Pai de Alice), Kristy Graves (Alice aos 18 Anos), Laurie Nayber (Jovem Dorothy), Rachel Miner (Alice aos 12 Anos), Amy Barrett (Mrs. Keyes), Caroline Aaron (Sue), Elle Macpherson (Modelo), Diane Salinger (Carol), David Spielberg (Ken), Bob Balaban (Sid Moscowitz).

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