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Fellini-SatyriconEncólpio lamenta a perda do amante Gíton, levado por Ascilto, o seu companheiro de apartamento. Ascilto conta-lhe que vendeu Gíton a uma companhia de teatro, e Encólpio resgata-o. No regresso, Gíton escolhe ficar com Ascilto, provocando a fúria de Encólpio, em simultâneo com um terramoto.

Com o poeta Eumolpo, Encólpio participa num festim em casa de Trimálquio. Após uma desavença sobre poesia, Eumolpo é levado, e Trimalcione convida todos a testemunharem um simulacro da sua morte e funeral, enquanto conta a história da Matrona de Éfeso. Encólpio parte levando o maltratado Eumolpo.

No dia seguinte Encólpio, Gíton e Ascilto são levados num navio pirata, como carga para o imperador. O capitão, Licas, apaixona-se por Encólpio, e casa com ele. Ao chegar à ilha onde o imperador vive, uma revolta depõe-o e ele suicida-se. Lica é decapitado pelos soldados e Encólpio e Ascilto fogem, encontrando a vila abandonada de um casal que se suicidara, e domindo com a escrava que ficou para trás.

Encólpio e Ascilto deixam a vila e encontram viajantes que pedem a Ascilto que satisfaça as necessidades de uma ninfomaníaca. Seguem-nos até ao Templo de Ceres onde vive um hermafrodita que se crê ser semi-deus e ter poderes curativos. No templo ajudam um homem a raptar o hermafrodita, mas no caminho pelo deserto ele morre.

Encólpio é capturado e forçado a lutar com o Minotauro, para deleite dos espectadores. Este poupa-lhe a vida, explicando que é tudo uma celebração. Como recompensa Encólpio pode ter sexo com Ariadne, a sacerdotiza-prostituta, mas não consegue e é acusado de impotência.

Eumolpo o poeta, reencontra Encólpio e leva-o para o Jardim dos Prazeres, um bordel, onde as prostitutas devem curar Encólpio. O tratamento falha, mas é contado a Encólpio o poder de Enótea, e este viaja para a encontrar. Ao encontrá-la Encólpio é curado, mas Ascilto é morto pelo barqueiro que os transportou. Encolpio decide então juntar-se a Eumolpo que vai viajar de barco, mas descorbre que este morrera, deixando a herança àqueles que comerem o seu cadáver. Encólpio decide ainda assim viajar no no barco.

Análise:

Data do primeiro século da nossa era uma das maiores obras da literatura romana clássica, “Satíricon” de Petrónio. Nela, o autor faz, num misto de verso e prosa, um retrato da sociedade do seu tempo, vista por pessoas de classe baixa. Embora exista uma clara sátira social aos costumes do seu tempo, a obra é considerada um retrato realista, algo que, com Fellini, foi completamente transformado.

De facto o “Satyricon” de Fellini, é uma obra onde o surrealismo tem um papel muito forte, fazendo com que a crítica e sátira social de de costumes (embora presente), surja mais velada e não tão fácil de identificar.

Tal como em Petrónio, Fellini segue a história das viagens pelo submundo romano, de Encólpio (Martin Potter), um jovem enamorado do andrógino Gíton (Max Born), o qual é seduzido por um terceiro, Ascilto (Hiram Keller), que tem ele próprio uma relação sexualizada com Encólpio. Os encontros e desencontros destes personagens vai levá-los a viver episódios singulares, numa narrativa fragmentada, na qual estão também presentes sequências originais. Por exemplo as sequências dos suicídios, de Minotauro, da ninfomaníaca e do hermafrodita, bem como a morte de Ascilto não constam do livro de Petrónio.

Fellini, familiar do surrealismo, sempre deixou que os seus filmes fossem uma porta para o subconsciente, algo que em “Satyricon” é por demais evidente. Servindo-se ao máximo da natureza fragmentada da narrativa, os episódios sucedem-se sem continuidade ou lógica aparentes, com personagens e cenários a mudarem sem aviso, e uma história que não segue nenhuma lógica racional. A Roma de Fellini é por isso uma Roma fictícia, longe do tempo histórico que evoca (ou de qualquer outro tempo definido), e ainda que recorra a linguagem e personagens do tempo de Petrónio, não pretende fazer uma recriação realista.

Por isso as paredes podem ter grafitis, os cenários surgem como tremendamente garridos, vastos (muitas vezes apenas uma ou outra parede lisa), irreais, e os personagens são quase sempre grotestos, demasiadamente caracterizados, e comportando-se de modo bizarro e exagerado. Fellini chamaria mesmo a esta interpretação da Roma imperial, uma ficção científica do passado. Mas de facto o seu filme é bem mais que isso, já que recorrendo a temas queridos dos surrealistas (a sexualidade, a violência, o desejo, a busca, a ansiedade, a frustração) nos transporta por aquilo que mais parece a filmagem de um sonho longo, recorrente e inquietante.

A sexualidade é o tema mais evidente do filme, e que domina quase todos os episódios, motivações e comportamentos. É através dela que os personagens se expressam, como se nos dessem a conhecer os seus desejos mais secretos, medos e inibições. Todos eles são uma face da corrupção moral, de ambição desmedida e desejos libidinosos, no que (a exemplo de outros filmes de Fellini), constitui uma crítica social aos valores decadentes do seu tempo. Ainda assim “Satyricon” não deixa de ser uma obra cheia de lirismo, e um exemplo da fotografia de influências barrocas, e do imaginário pleno de simbolismo e inquietação de Federico Fellini.

O nome de Fellini no título do filme deve-se ao facto de que no ano anterior estreara em Itália um outro filme chamado “Satyricon”, realizado por Gian Luigi Polidoro.

Produção:

Título original: Fellini-Satyricon; Produção: Produzioni Europee Associati (PEA); Produtor Executivo: Enzo Provenzale; País: Itália; Ano: 1969; Duração: 138 minutos; Distribuição: United Artists (EUA); Estreia: 6 de Setembro de 1969 (Itália), 16 de Janeiro de 1975 (Cinema S. Jorge, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Federico Fellini; Produção: Alberto Grimaldi; Argumento: Federico Fellini, Bernardino Zapponi, Brunello Rondi [adaptação livre do clássico de Petrónio]; Música: Nino Rota, Ilham Mimaroglu, Tod Dockstader, Andrew Rudin; Direcção de Produção: Roberto Cocco; Direcção Artística: Danilo Donati; Cenários: Danilo Donati, Luigi Scaccianoce; Consultor de Pintura: Antonio Scordia; Consultor de Latim: Luca Canali; Fotografia: Giuseppe Rotuno; Efeitos Especiais: Joseph Natanson; Montagem: Ruggero Mastroiani, Enzo Ocone; Caracterização: Rino Carboni; Guarda-roupa: Danilo Donati.

Elenco:

Martin Potter (Encólpio), Hiram Keller (Ascilto), Max Born (Gitone), Salvo Randone (Eumolpo), Il Moro (Trimálquio), Magali Noël (Fortunata), Capucine (Trifena), Alain Curry (Licas), Fanfulla (Vernáquio), Danica la Loggia (Scintilla), Pasquale Baldassare (Hermafrodita), Giuseppe Sanvitale (Abinna), Genius (Escravo libertado e enriquecido), Lucia Bose e Joseph Weelher (O Casal de suicidas), Hylette Adolphe (A Jovem Escrava), Tanya Lopert (O Imperador), Gordon Mitchell (O Guarda), Luigi Montefiori (O Minotauro), Marcello do Folco (O Procônsul), Elisa Mainardi (Ariadne), Donyale Luna (Enótea), Carlo Giordana (O Capitão), Antonia Pietrosi (Matrona de Éfeso), Wolfgang Hilliger (Soldado).

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