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O meu ciclo - João Palhares

Margens e Correntes

por João Palhares
autor do blog Cine Resort

O rio sabe e pode muitíssimo.

Pode ser espelho dos nossos desejos ou traidor dos nossos segredos mais profundos. Pode até lavar crimes e pecados ao princípio mas no fim há-de trazê-los sempre à tona, a boiar numa das margens, sem a nossa aprovação. Faz parte do destino. Porque o rio tem consciência e sabe quem há-de perdoar ou deixar à deriva. Pode até vergar-se à simplicidade e inteligência do Homem como quem faz uma vénia… Mas quanto pode um rio?

A missão do homem é descobrir isso mesmo, a custo de uma viagem intensa e impossível, rio acima ou rio abaixo, para a outra margem ou mesmo pelas suas correntes, questionando-se a si próprio e ultrapassando os limites da sanidade, rumo à loucura.

Em viagens megalómanas, violentas, decisivas e putrefactas com odores moribundos… são as simples águas de um qualquer rio, sempre imponente, sempre importante, sempre presente, que acompanham este processo doloroso e transformador destas personagens elevadas a pessoas elevadas a monumentos. Assista-se às histórias de Ema (Vale Abrãao), Bill Jr. (Steamboat Bill Jr.), Allen e Rosalee (The River), Jim, Boone e Teel Eye (The Big Sky), Nardo, Ben e Meg (The River’s Edge), Jim, Sylvia e o marido Harry (Appointment in Honduras), Chuck, Carol e a resistentemente teimosa e belíssima Ella (Wild River), o decadente e sedento Stephen, a sua mulher, Marjorie, e o seu irmão, John (House by the River), Harriet, o Capitão John, Valerie, Melanie e o miúdo inocente, Bogey (The River), o cauteloso Ed Gentry e o bárbaro Lewis Medlock (Deliverance), o louco Brian Fitzgarald (Fitzcarraldo) e a vampira fantasmagórica Carolina (O Rio do Ouro) e talvez se tenha uma ideia desta corrente contínua de negociações insanas, íntimas e reveladoras dos rios desta vida que é tão deles como nossa. Por mais que tentemos, por mais que lutemos, o rio sabe e o rio vigia.

Elevemo-nos à sua medida, mas com muita cautela.

"Wild River" de Elia Kazan

Filmes aconselhados:

  • “O Marinheiro de Água Doce” (Steamboat Bill Jr., 1928) de Charles Resisner e Buster Keaton
  • “The River” (1929) de Frank Borzage
  • “A Casa à Beira do Rio” (House by the River, 1950) de Fritz Lang
  • “O Rio Sagrado” (The River, 1951) de Jean Renoir
  • “Céu Aberto” (The Big Sky, 1952) de Howard Hawks
  • “Encontro nas Honduras” (Appointment in Honduras, 1953) de Jacques Tourneur
  • “Matar para Viver” (The River’s Edge, 1957) de Allan Dwan
  • “Quando o Rio Se Enfurece” (Wild River, 1960) de Elia Kazan
  • “Fim-de-Semana Alucinante” (Deliverance, 1972) de John Boorman
  • “Fitzcarraldo” (Fitzcarraldo, 1982) de Werner Herzog
  • “Vale Abrãao” (1993) de Manoel de Oliveira
  • “O Rio do Ouro” (1998) de Paulo Rocha
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