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Crimes and MisdemeanorsNo mesmo ano em que escreveria, realizaria e interpretaria a curta-metragem “Oedipus Wrecks” para o filme “Histórias de Nova Iorque” (New York Stories, 1989), em parceria com Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, Allen voltava a mais um drama de carácter filosófico, de novo com a fotografia de Sven Nyquist. Desta vez, embora participando como actor, no seu habitual personagem do pequeno neurótico de pretensões intelectuais, em crise de meia idade, Allen confiou o papel principal a Martin Landau. Com os habituais Mia Farrow e Sam Waterston, estaria ainda Angelica Huston, e Alan Alda, este um actor que voltaria a trabalhar com Allen noutros filmes.

Sinopse:

Judah Rosenthal (Martin Landau) é um reputado oftalmologista, amado chefe de família e pilar da comunidade judaica de Nova Iorque, mas a braços com um problema aparentemente intransponível. Em tempos envolveu-se numa relação extraconjugal com Dolores (Angelica Huston), a qual ameaça contar tudo à sua esposa. Sem saber o que fazer, Judah recorre ao irmão Jack (Jerry Orbach), o qual poderá ter uma solução radical para o problema.

Em simutâneo assistimos à frustração de Cliff Stern (Woody Allen), o qual quer manter a integridade intelectual produzindo documentários, mas acaba sempre comparado ao cunhado Lester (Alan Alda) um comediante de TV de sucesso. A compreensão parece chegar na forma da produtora Halley Reed (Mia Farrow).

Análise:

Com “Crimes e Escapadelas” Woody Allen surpreendeu os seus espectadores ao trazer um novo novo tema ao seu universo filosófico. Sendo conhecido pela aura pessimista (ou simplesmente crua) com que aborda alguns dos seus temas mais queridos, como as relações amorosas, a sua relação perante a mortalidade, ou a inconsistência humana em geral, Allen foi aqui mais longe no seu pessimismo.

Através do personagem de Judah Rosenthal (Martin Landau), Allen vai-se (e vai-nos) perguntar, onde está a moralidade num mundo sem Deus? Se não existe algo ou alguém que nos vigia e nos obriga a observar a lei, o que nos impede de vivermos numa completa amoralidade, sem ter a quem prestar contas?

Aparentemente um homem de sucesso, Judah vive com um segredo que não sabe como esconder. Tem uma amante, Dolores (Anjelica Huston), que não só ameaça expô-lo perante a família, como denunciá-lo de usos indevidos de dinheiro da comunidade. Embora relutante a início, Judah acede à sugestão do irmão (que ao contrário dele “conhece o mundo verdadeiro”), concordando que a única solução é matar Dolores. O crime nunca lhe será ligado, Judah não o testemunhará. Tudo é tão simples como o famoso “premir de um botão” que fará alguém noutro lado do mundo morrer para nosso benefício. Poderemos nós dizer que nunca o faríamos, se a nossa impunidade estivesse garantida?

Como segunda história temos Cliff Stern (Woody Allen), o eterno neurótico em crise de meia idade, frustrado por não conseguir a carreira intelectual que persegue. A atormentá-lo, a esposa Wendy (Joanna Gleason), venera o irmão, Lester (um Alan Alda brilhante), e não pára de os comparar. Para Cliff, Lester é arrogante, superficial, narcisista, trocando qualquer integridade por aquilo que se venda mais facilmente. Note-se o comentário final de Lester sobre Cliff. Num verdadeiro elogio do cinismo, Lester diz que Cliff já tem idade para perceber que a vida ganha-se fazendo dinheiro, não com sonhos”.

A dado momento sentimos que Cliff pode triunfar ao seu jeito, ao conseguir a admiração de Halley Reed (uma contida Mia Farrow, num registo muito seguro), que transforma em sua cúmplice e confessora. Os seus momentos, assistindo a um filme antigo ou às palestras do professor Louis Levy (o psicólogo Martin Bergman, cujos discursos surgem como o mote para o filme), são momentos de beleza singela e serena comunhão. Daí que a escolha inesperada de Halley por Lester seja um dos momentos emocionalmente mais crueis que Allen já nos deu a ver.

O ponto mais alto do filme é o diálogo final que une Judah e Cliff (que até aí não interagiram ainda), como que um reunir de dois caminhos separados. Sob o pretexto de analisarem o possível argumento de um filme (o crime sem castigo de Judah), Cliff, apesar de destroçado pelos acontecimentos que viveu, não aceita essa amoralidade, e numa réstea de optimismo, crê haver na pessoa humana sempre algo que a impele ao bem, e a recrimina se fizer o mal. Quanto a Judah, triunfante nos seus objectivos, vê neles o fracasso da espécie humana, por isso ironiza amargamente com o seu próprio sucesso, refutando a ideia de Cliff “isto é a realidade, não ficção. Na realidade nós racionalizamos e entramos em negação. Senão não conseguiríamos sobreviver.” Judah sabe pela sua própria experiência que num ou noutro dia poderá ter alguma dúvida, mas no final seguirá feliz, e o peso do seu crime se desvanecerá no tempo.

Curioso ainda como o personagem que une as duas histórias, Ben (Sam Waterston), cunhado de Cliff, paciente e confessor de Judah, e visto por ambos como um santo, seja um receptor de um infortúnio incontornável, ao ficar cego. É o assumir literal da frase do próprio Ben “sem Deus tudo é escuridão”, (afinal é Judah, o criminoso impune, o oftalmologista) e o confirmar da ideia de que não há recompensa para os justos, tal como não há castigo para os maus.

Ainda sob influência de Bergman (a fotografia de Nyqvist torna o filme visualmente uma continuação de “Uma Outra Mulher”), Allen não escapa mesmo à repetição de uma sequência em que um personagem idoso interage com a sua infância, como em “Morangos Silvestres” (Smultromstället, 1958). Sendo um filme que vem na continuidade dos filmes mais sérios de Allen, “Crimes e Escapadelas” é de longe o mais equilibrado e bem conseguido desses filmes, conseguindo a dose certa de humor para fazer fluir uma história bastante negra. O tema do crime sem castigo, e a forma como o perpretador se sente depois disso, seria revisitado por Allen em “Match Point” (Match Point, 2005) e “O Sonho de Cassandra” (Cassandra’s Dream, 2007), afinal uma ideia provinda de “Crime e Castigo” de Dostoievsky.

Consta que a participação de Allen como actor terá sido uma imposição da distribuidora, sendo Cliff Stern o mais sério dos seus personagens. “Crimes e Escapadelas” foi muito apreciado pela crítica, e recebeu três nomeações para os Oscars: Melhor Filme, Melhor Argumento e Melhor Actor Secundário (Martin Landau, num dos melhores papéis da sua longa carreira).

Produção:

Título original: Crimes and Misdemeanors; Produção: Jack Rollins and Charles H. Joffe Productions; Produtores Executivos: Jack Rollins, Charles H. Joffe; País: EUA; Ano: 1989; Duração: 104 minutos; Distribuição: Orion Pictures Corporation; Estreia: 13 de Outubro de 1989 (EUA), 27 de Abril de 1990 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Robert Greenhut; Argumento: Woody Allen; Produtores Associados: Thomas Riley, Helen Robin; Fotografia: Sven Nykvist (filmado em Panavision); Design de Produção: Santo Loquasto; Direcção Artística: Speed Hopkins; Cenários: Susan Bode; Montagem: Susan E. Morse; Figurinos: Jeffrey Kurland; Caracterização: Fern Buchner, Frances A. Kolar.

Elenco:

Bill Bernstein (Orador), Martin Landau (Judah Rosenthal), Claire Bloom (Miriam Rosenthal), Stephanie Roth Haberle (Sharon Rosenthal), Gregg Edelman (Chris), Anjelica Huston (Dolores Paley), Woody Allen (Cliff Stern), Jenny Nichols (Jenny), Joanna Gleason (Wendy Stern), Alan Alda (Lester), Sam Waterston (Ben), Zina Jasper (Carol), Dolores Sutton (Secretária de Judah), Mia Farrow (Halley Reed), Martin Bergmann (Professor Louis Levy), Caroline Aaron (Barbara), Kenny Vance (Murray), Jerry Orbach (Jack Rosenthal), Stanley Reichman (Pai de Chris), Rebecca Schull (Mãe de Chris), David S. Howard (Sol Rosenthal), Garrett Simowitz (Jovem Judah), Frances Conroy (Dona da Casa).

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