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L'année Derniere a MariebandNo hotel de Marienbad, que fica num antigo palácio barroco, ricamente decorado e ornamentado, e cercado por jardins formais de estilo francês, um homem, cujo nome não é dito, insinua-se perante uma mulher cujo nome também não é revelado. Segundo ele, eles já se encontraram ali, no ano anterior, e ela dissera-lhe para esperarem mais um ano até se encontrarem. A mulher diz, ou finge, não se lembrar, e o homem, repetidamente tenta lembrá-la dos acontecimentos do ano anterior. Imagens do presente intercalam-se com as do passado, narrado, imaginado, ou sonhado pelo homem.

Análise:

Alain Resnais, um dos nomes mais conhecidos da chamada Nouvelle Vague do cinema francês dos anos 1950s e 1960s, realizou em 1961 um dos seus filmes mais estranhos. Com argumento do escritor Alain Robbe-Grillet, “O Último Ano em Marienbad” é um filme que transgride as formas narrativas convencionais usadas no cinema, tendo por isso constituído um marco na nova vaga do cinema europeu.

A história é bastante simples, e reduz-se às tentativas de um homem (Giorgio Albertazzi) de convencer uma mulher (Delphine Seyrig), que eles se encontraram em Marieband, no ano anterior, e teriam deixado a promessa de se encontrarem novamente. Perante a relutância da mulher em aceitar esse facto, o homem repete a história incessantemente, repisando, e acrescentando exemplos e detalhes desse possível encontro.

A voz pausada e hipnótica do homem funciona ao mesmo tempo como narração em off, como recordação de um passado, e como acção no presente. Esta voz, tal como a presença do par é transversal a passado e presente. Assim, uma frase no presente que começa como o relembrar de um momento passado, logo é dita no flashback desse passado. Os saltos entre passado e presente são constantes e caóticos (por vezes com imagens intermitentes pelo meio), tal como o são os cenários, onde os interiores do palácio, ou os jardins exteriores parecem ir mudando com o tom da narração e o tempo em que ela ocorre.

E esta narração, feita em modo repetitivo, em torno das mesmas ideias chave (tantas vezes repetidas em mantra), e dos mesmos motivos (os corredores, os ornamentos barrocos, os muros, as portas, as estátuas) numa descrição contínua do hotel, é ela própria uma prisão temporal, que nos vicia numa permanência perpétua. Tal não só nos torna impossível estabelecer uma cronologia, como confere ao filme um carácter onírico, surreal.

“O tempo não significa nada” diz a dado momento o homem, como que desafiando-nos a tentar interpretar os diferentes momentos, sem sabermos se o passado evocado aconteceu há um ano, um dia ou um minuto. Essa estaticidade é reforçada pela arquitectura do palácio, os jardins formais de uma simetria rígida, e claro as estátuas que em diversos momentos são um paralelo do casal. Estátuas parecem ainda os restantes personagens que, como ornamentos, surgem completamente estáticos sempre que a acção não os envolve, num perpetuar dessa estaticidade do tempo.

No final ficam-nos sempre as perguntas. O ano anterior aconteceu mesmo? São as diversas recordações do homem apenas sonhos? Será todo o filme um sonho? Essa pergunta sem resposta lembra o jogo jogado pelos personagens, o qual estava destinado a ser perdido por todos menos o outro homem. Este outro homem (Sacha Pitoëff), o possível marido da mulher, surge sobranceiramente como figura capaz de desestabilizar a possível história do casal principal, como se detivesse uma verdade que escapa aos restantes.

“O Último Ano em Marienbad” continua a deixar-nos perplexos, o que tem sido até alimentado pelos seus autores, pois tanto o realizador como o argumentista têm dado explicações contraditórias sobre o significado do filme. Se alguns autores vêem no filme uma sátira às histórias de amor convencionais, outros chamam-no um exercício puramente estético de novas formas narrativas, ou uma busca filosófica sobre o significado da verdade.

Fica acima de tudo o elogio do tempo, do espaço, da forma, com uma bonita fotografia, que presta uma enorme atenção ao pormenor, onde interiores e jardins nos apontam o vazio e a rigidez da forma, e onde o desejo, a memória e o sonho parecem temas principais. Destaque ainda para a banda sonora (em grande parte tocada em órgão de igreja) também ela intrigante, e onírica.

O filme venceu o Leão de Ouro do Festival de Veneza.

Produção:

Título original: L’année dernière à Marienbad; Produção: Cocinor / Terra Film / Société Nouvelle des Films Cormoran / Precitel / Como Film Production / Argos Films / Les Films Tamara / Cinétel / Silver Films / Cineriz; País: França; Ano: 1961; Duração: 89 minutos; Distribuição: Cocinor; Estreia: 25 de Junho de 1961 (França).

Equipa técnica:

Realização: Alain Resnais; Produção: Pierre Courau, Anatole Dauman, Robert Dorfmann, Raymond Froment; Argumento: Alain Robbe-Grillet; Música: Francis Seyrig; Fotografia: Sacha Vierny (preto e branco); Montagem: Jasmine Chasney, Henri Colpi; Direcção Artística: Jacques Saulnie; Cenários: Jean-Jacques Fabre, Georges Glon, André Piltant; Caracterização: Alexandre Marcus, Éliane Marcus; Figurinos: Bernard Evein; Direcção de Orquestra: André Girard; Organista: Marie-Louise Girod.

Elenco:

Giorgio Albertazzi (O Homem), Delphine Seyrig (A Mulher), Sacha Pitoëff (O Outro Homem, Marido), Françoise Bertin (Hóspede do Hotel), Luce Garcia-Ville (Hóspede do Hotel), Héléna Kornel (Hóspede do Hotel), Françoise Spira (Hóspede do Hotel), Karin Toche-Mittler (Hóspede do Hotel), Pierre Barbaud (Hóspede do Hotel), Wilhelm von Deek (Hóspede do Hotel), Jean Lanier (Hóspede do Hotel), Gérard Lorin (Hóspede do Hotel), Davide Montemurri (Hóspede do Hotel), Gilles Quéant (Hóspede do Hotel).

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