Etiquetas

, , , , , , , ,

SeptemberDepois de voltar a ter a aclamação da crítica com uma série de filmes menos pretensiosos, misturando alegoria, nostalgia com uma comédia simples de rosto humano, Woody Allen voltou a lançar-se num drama psicológico de inspiração bergmaniana. Voltando a apostar nalguns dos seus “actores”, como Mia Farrow, Dianne Wiest e Sam Waterston, o filme contava ainda com Denholm Elliot, Elaine Stricht e Jack Warden. Como habitual nos seus dramas, Woody Allen não participava como actor.

Sinopse:

Na casa de campo de Lane (Mia Farrow), esta passa o Verão com um grupo de pessoas que a vêm reanimar após uma depressão que a levou a tentar o suicídio. À sua volta circulam o vizinho Howard (Denholm Elliot), mais velho, mas enamorado dela; a melhor amiga, Stephanie (Dianne Wiest), que aproveita o retiro para se afastar do marido; a hiperactiva mãe (Elaine Stricht) que, ao lado do seu novo noivo Loyd (Jack Warden), não se cansa de colocar a sua vida e memórias em destaque; e o inquilino e protegido de Lane, Peter, um escritor a tentar escrever o seu primeiro livro, mas que não responde ao interesse amoros de Lane, antes se apaixonando por Stephanie.

Análise:

“Setembro” é um mês que para Allen marca uma fronteira. É o fim do Verão, e também o fim da pausa que por vezes nos concedemos, como um retiro das nossas vidas, para retemperar energias, reavaliar conceitos, e quem sabe, sonhar um pouco. Setembro é por isso o voltar à realidade com tudo o que ela tem de amargo e difícil.

Nove anos depois de “Intimidade” Woody Allen parece voltar a filmar esse filme, com esta sua segunda obra sem qualquer traço de humor. Filma-o no interior de paredes, e no contexto físico de “Uma comédia Sexual de uma Noite de Verão”, que também decorria numa casa de campo, o tal espaço que, para Allen, fica longe do mundo a sério, e onde nos lagos há seres que se movem, e as casas estão cheias de insectos.

Assim em vez de uma família disfuncional centrada em torno de uma mãe dominadora, temos um grupo de amigos, centrados em torno de Lane, uma mulher aparentemente frágil (a incontornável Mia Farrow), cujas forças são maiores que aquilo que vemos a olho nu, e cujos momentos de explosão são, afinal, escapes de segredos e dores que ela sempre carregou sozinha. Ao mesmo tempo, a história evolui em torno de um ciclo amoroso em que todos amam alguém que ama outro.

Quando Peter (o interesse amoroso de Lane, interpretado por Sam Waterston) declara que escreve um livro sobre sobreviventes, destacando a Diane (Elaine Stricht), mãe de Lane, como uma sobrevivente, tanto ele como nós somos iludidos quanto à mensagem do filme. É verdade que a hiperactiva e magnética Diane nos chega como a clássica figura que nunca temeu os perigos da vida, esteve em todo o lado, viu e viveu tudo, e continua hoje com um sorriso optimista nos lábios. Mas porque razão esse exemplo de sobrevivência não nos comove? Talvez por ela própria confessar que o álcool foi sempre o seu melhor companheiro, ou talvez por nos parecer ter uma sensibilidade muito superficial.

De facto, como nos apercebemos mais tarde, a verdadeira sobrevivente da história é a própria Lane. Foi Lane quem suportou as consequências das escolhas erradas da sua mãe. Foi Lane que viveu sempre na sombra daquela que até hoje precisou dos holofotes à sua volta (roubando até a atenção de Peter). E por fim, é Lane que carrega os segredos mais pesados da sua mãe.

Sabemos durante o filme que o Verão passado na casa de campo não é um simples retiro de férias. É uma forma de ajudar Lane a recuperar. Curioso portanto como aos poucos nos apercebemos como todos os presentes ajudam a tornar a vida de Lane mais insuportável. Peter é o seu interesse amoroso, insensível a isso, que usa Lane, mas está mais interessado em Stephanie. Stephanie, embora goste de Lane, sucumbe aos avanços de Peter, traindo a amiga onde mais lhe dói. Quanto à mãe, não só trata Lane como um projecto inacabado, como é rápida a destruir-lhe os sonhos, como se mostra no episódio em que pede de volta a casa que antes lhe dera.

Allen repete aqui temas que frequentemente usa na construção dos seus personagens. Lane, como a aparentemente frágil mulher, que procura ainda um rumo (sabe que se quer expressar artisticamente, mas não sabe como, talvez por fotografia), lembra Joey (Mary Beth Hurt) de “Intimidade”, Annie (Diane Keaton) de “Annie Hall”, ou mesmo Lee (Barbara Hershey) de “Ana e as suas Irmãs”. Peter como o possível escritor que se auto-bloqueia, e não sabemos se tem talento, ou apenas deseje ter, está presente em inúmeros filmes de Allen, desde Frederick (Richard Jordan) de “Intimidade” até aos mais recentes “Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos” (You Will Meet a Tall Dark Stranger, 2010) e “Meia Noite em Paris” (Midnight in Paris, 2011). Diane é a mãe dominadora, que está presente em quase todos os filmes de Allen. Embora aqui não domine tanto por impor a sua vontade, não deixa de procurar ser o centro das atenções. Mesmo Howard nos relembra a figura do mais velho protector, constante e confiável, como víramos em “Manhattan”, e “Anna e as suas Irmãs”. Mais uma vez a arte (aqui a música jazz) é motivo para diálogos de sedução. Por fim a própria estrutura circular como os personagens se ligam (Howard ama Lane, que ama Peter, que ama Stephanie), é reminiscente de “Uma Comédia Sexual Numa Noite de Verão”.

Com toda a acção a decorrer em dois únicos dias, dentro de uma casa (não há nenhuma cena filmada fora da casa), “Setembro” faz-nos lembrar uma peça de teatro, e tem um pouco de claustrofóbico. Nesse sentido, o filme tem uma estrutura mais coesa e bem conseguida que “Intimidade”. Mas tal como o filme de 1978, “Setembro” volta a mostrar-nos actores demasiado rígidos (os célebres diálogos de Allen, feitos de improviso, hesitações e atropelamentos aqui não existem), num ambiente que, embora menos frio que o de “Intimidade”, volta a ser filmado com planos minimalistas (muitas vezes fixos e sem cortes), num esquema de cores semelhante, e tantas vezes através de portas, janelas ou espelhos, como que a dizer-nos que os personagens não estão completamente ali à nossa frente. De notar é ainda o forte uso do chiaroscuro, evidente sobretudo na primeira noite, na prolongada sequência da falta de luz, motivo para as cenas desligadas de personagens sozinhas ou em par, como se a ausência de luz tivesse tornado uma só sala comum em mundos diferentes e intocáveis.

Se como disse, o filme nem sempre flui, e por vezes os personagens parecem um pouco artificiais (talvez funcionando melhor no teatro), é ainda assim uma evolução desde “Intimidade”, voltando Allen a dar-nos a ideia de que quando quer um filme sério, ele não pode participar como actor. Como erro, o facto de todos os personagens terem de explicar com muitas palavras aquilo que um filme deve mostrar por imagens (novamente por parecer escrito para o palco).

O ponto mais alto do filme é talvez a manhã seguinte, na belíssima sequência da visita dos compradores. Depois de uma tarde e noite de apresentação dos personagens e possíveis focos de conflito, temos um segundo dia em que tudo parece revelar-se. Lane descobre Peter e Stephanie juntos, e na discussão com a mãe revela o segredo tantos anos escondido. Nesse momento, com a tensão no seu auge, descobrimos que Lane é de facto uma sobrevivente, e simpatizamos com ela.

Terminadas as revelações, Lane tem que acordar para a nova realidade da sua vida. Despedir-se das pessoas, e tomar novas decisões. O Verão terminou, e já é Setembro. E no discurso de final de Stephanie a Lane, encontramos o existencialismo de Allen, que aqui se parafraseia: “Se não tens razões para acordar amanhã, inventa uma. Distrai-te, muda-te, apaixona-te. Talvez resulte, talvez não, mas encontrarás um milhão de coisas fúteis que te farão continuar, e distracções que te manterão afastada da verdade. Eu não sei o que é a verdade, e tu também não.”

O filme terá sido primeiramente filmado com Sam Shepard no papel de Peter (depois de Christopher Walken ter filmado algumas cenas), Maureen O’Sullivan no papel de Diane, e Charles Durning no papel de Howard. Allen não gostou do resultado terá reescrito todo o filme, e voltou a filmar tudo com os novos actores. Ainda assim “Setembro” foi o maior fracasso de bilheteira da carreira de Allen.

Produção:

Título original: September; Produção: Orion Pictures Corporation / Jack Rollins-Charles H. Joffe Productions; Produtores Executivos: Jack Rollins, Charles H. Joffe; País: EUA; Ano: 1987; Duração: 83 minutos; Distribuição: Orion Pictures Corporation; Estreia: 18 de Dezembro de 1987 (EUA), 26 de Agosto de 1988 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Robert Greenhut; Argumento: Woody Allen; Produtora Associada: Gail Sicilia; Fotografia: Carlo Di Palma (filmado em Panavision); Design de Produção: Santo Loquasto; Montagem: Susan E. Morse; Figurinos: Jeffrey Kurland; Direcção Artística: Speed Hopkins; Cenários: George DeTitta Jr.; Caracterização: Lee Halls, Fern Buchner.

Elenco:

Denholm Elliott (Howard), Dianne Wiest (Stephanie), Mia Farrow (Lane), Elaine Stritch (Diane), Sam Waterston (Peter), Jack Warden (Lloyd), Ira Wheeler (Mr. Raines), Jane Cecil (Mrs. Raines), Rosemary Murphy (Mrs. Mason).

Anúncios