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O meu ciclo - David Furtado

O anti-herói – espelho da sociedade

por David Furtado
autor do blog Wand’rin’ Star

Em vários aspetos, o anti-herói é mais interessante do que o herói formal do cinema. É o fugitivo da Justiça perseguido por agentes corruptos, o indivíduo que só quer salvar a pele mas não abdica da ética pessoal, a figura que conquista a simpatia do público. Inserido numa civilização em que os poderes estabelecidos tentam esmagar a individualidade e ocultar a corrupção dos sistemas, o anti-herói é um homem ou uma mulher comum que escreve direito por linhas tortas e, talvez por isso, o público o aplauda.

Alguns exemplos. O anti-herói por excelência é Don Corleone (Marlon Brando) em “O Padrinho”: Um mafioso, sim, mas um homem com valores de família que não quer para o filho o mesmo destino que teve. Encara a vida com sabedoria e pragmatismo, perante a corrupção de políticos e forças da autoridade. Adorado por várias gerações, o personagem será adorado por outras tantas.

10 anos antes, Burt Lancaster encarnou “O Prisioneiro de Alcatraz”, um assassino condenado que, na cadeia, se torna perito em aves, chegando a escrever quase um tratado de anatomia. Os anos passam, o seu desespero aumenta e a sua humanidade vem ao de cima.

Alguns atores já eram, na vida real, anti-heróis; no caso de Steve McQueen, por ter sido abandonado pelo pai e negligenciado pela mãe. Em “Tiro de Escape” protagonizou um ex-presidiário com sentimentos, embora brutal perante a autoridade.

Birdman of Alcatraz

Quase 40 anos depois, surge “Drive – Risco Duplo”, em que Ryan Gosling, um dos atores mais talentosos da atualidade, personifica um mecânico e duplo de cinema, motorista de fuga em assaltos. O personagem de Gosling é atormentado por dilemas morais – a atração por Carey Mulligan não o impede de auxiliar outro criminoso, o marido dela, num roubo que poderá ajudar o casal a livrar-se dos agiotas. Não corre bem. Ao motorista, resta-lhe o código ético.

Em 2007, Jodie Foster, confessa admiradora do anti-herói, interpretou Erica, uma mulher brutalmente violada, cujo namorado é assassinado. Não só devido ao trauma, mas também à necessidade de se proteger, Erica vê-se de arma na mão e faz a justiça que a polícia não pôde. O filme é demasiado longo e algo pesado – salvo pelo talento de Foster. Quantos de nós não pensámos na solução “olho por olho, dente por dente” perante crimes brutais? Podemos, em consciência, não advogar tais soluções justiceiras a corta-mato que descambariam na anarquia, mas não evitamos ficar do lado de Erica durante “A Estranha em Mim”.

Foster participou em “Taxi Driver”, que nos mostra outro exemplo: Neste caso, um homem solitário e martirizado pela podridão urbana que o cerca. Travis Bickle (Robert De Niro) põe as fantasias em prática. Salva uma prostituta menor e abate quem a explora. Travis enquadra-se na definição de psicopata, mas o filme de Scorsese é mais complexo, socialmente importante e atual.

Taxi Driver

“Beco sem Saída” é a história de um ex-presidiário que não se adapta. Dustin Hoffman é excelente como Max Dembo, numa obra que denuncia a reabilitação social como uma armadilha com intenções opostas. Max tenta regenerar-se, mas o sistema impede a reentrada na sociedade. Solução: Voltar ao crime. A belíssima atriz Theresa Russell serve de contraponto dócil ao violento e antissocial Max.

Para terminar, agradecendo o convite ao Wand’rin’ Star (e devido a esse nome), não podia deixar de referir Lee Marvin, o insubordinado Major Reisman de “Doze Indomáveis Patifes”. Marvin poucas vezes foi o “herói” no sentido pleno do termo. A sua experiência pessoal, na guerra, aliada ao carisma, tornaram-no numa figura que aplaudimos, mesmo estando do lado errado da lei.

Filmes citados:

  • O Prisioneiro de Alcatraz (Birdman of Alcatraz, 1962) de John Frankenheimer
  • Doze Indomáveis Patifes (The Dirty Dozen, 1967) de Robert Aldrich
  • O Padrinho (The Godfather, 1972) de Francis Ford Coppola
  • Tiro de Escape (The Getaway, 1972) de Sam Peckinpah
  • Taxi Driver (Taxi Driver, 1976) de Martin Scorsese
  • Beco sem Saída (Straight Time, 1978) de Ulu Grosbard
  • A Estranha em Mim (The Brave One, 2007) de Neil Jordan
  • Drive – Risco Duplo (Drive, 2011) de Nicolas Winding Refn
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