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Radio DaysEm 1987, Woody Allen voltou a deixar que o seu olhar nostálgico sobre a sua própria infância fosse tema de um seu filme. Embora não repetindo o sucesso comercial de “Ana e as suas Irmãs”, o filme “Os Dias da Rádio” recebeu os elogios da crítica. Participando apenas como narrador, Allen construiu o filme como uma enorme série de quadros, sustentados por um conjunto de actores, na maioria conhecidos do seu público, como Mia Farrow, Diane Keaton, Julie Kavner, Danny Aiello, Jeff Daniels, Tony Roberts, Michael Tucker e Dianne Wiest. No papel do pequeno alter ego de Allen, estaria Seth Green.

Sinopse:

A narração do adulto Joe (Woody Allen, em voz off) mostra-nos a sua infância (Seth Green) em Queens, Nova Iorque, nos anos 40 do século XX, num período onde a rádio era feita ao vivo, e a única janela para um mundo maior e mais glamoroso que o das vidas banais da sua família. Através de um conjunto de histórias, acontecimentos, anedotas de bastidores e mitos urbanos realcionados com a rádio, acompanhamos o quanto esses dias da rádio fizeram parte da vida da família de Joe, e são hoje ainda memórias inesquecíveis.

Análise:

Se é comum na obra de Woody Allen o olhar nostálgico sobre uma era remota, ligada à sua infância, e a uma Nova Iorque em muitos casos já desaparecida, o filme “Os Dias da Rádio” é o mais puro elogio dessa nostalgia. Neste filme faz-se a homenagem a um tempo diferente, em que a rádio era feita ao vivo e, para famílias de classe média suburbana, como a representada no filme, a única janela para um mundo diferente, feito de charme, requinte, magia. Era o mundo dos salões de baile, das orquestras, dos clubes frequentados pelo jet-set, dos cantores românticos que encantavam as raparigas, das radionovelas de dramas e aventuras, e claro, a fonte de notícias que fazia uma nação sentir-se unida e parte de algo.

Com o seu habitual olhar autobiográfico, é difícil sabermos o quanto da história da família de Joe (representado como o eterno ruivo traquinas, interpretado por Seth Green, e narrado por Woody Allen), é ou não baseada em eventos da família de Woody Allen. Mas mesmo que os factos sejam ficcionados, a representação daquela era e infância, têm decerto muito de realista, se bem que, como o próprio Woody Allen adverte no início, sejam romantizados pelo olhar da distância e pelo saudosismo do passado.

A realçar o carácter autobiográfico está a família de Joe. Trata-se de uma família judia, barulhenta, conflituosa, com muita gente a viver sob o mesmo tecto, um pai de emprego incerto, e conflitos com os vizinhos.

O filme constrói-se como uma enorme série de episódios, a maioria anedóticos, de situações dos bastidores da rádio, ou de como os programas faziam parte da vida familiar. Desde os ladrões que páram o assalto para responder a um telefonema do “Adivinhe a canção” ao próprio Joe que rouba o dinheiro da colecta da Sinagoga para um estado Palestiniano, para comprar um anel do seu superherói preferido, todas as histórias são divertidas, com uma pontinha de inocência nostálgica que nos repete como aqueles tempos eram diferentes.

Foi a transmissão de uma ficcionada invasão marciana (um piscar de olhos a Orson Welles) que impediu que a tia Bea (Dianne Wiest) fosse vítima do seu namorado dessa noite. Foi o relato da morte de uma criança num poço que tornou uma tareia paterna de Joe numa cena de ternura familiar. E seria impossível enumerar aqui todas as formas como a rádio e a vida familiar se tocaram.

A família de Joe é constituída por rostos familiares no universo alleniano a mãe (Julie Kavner) e o pai (Michael Tucker) são presenças recorrentes nos seus filmes, bem como a citada Dianne Wiest, cujo papel parece a continuação da eterna solteirona de “Ana e as suas Irmãs”. Não faltam as piadas ao conservadorismo hebraico, como a cena do espancamento de Joe na sinagoga, ou a ridicularização do Sabbath, sucumbindo sob propaganda comunista.

Mostrando como Allen gosta de trabalhar em terreno familiar, temos os cameos de Dany Aiello, Jeff Daniels, Tony Roberts, Diane Keaton (a sua única aparição num filme de Allen com Mia Farrow), Larry David (que anos mais tarde protagonizaria um dos filmes de Allen) e Wallace Shaw (o vingador mascarado, que tal como em “Annie Hall” nos engana por a sua presença física não ter nada a ver com o que esperávamos dele). Mia Farrow, no papel de Sally, é a única personagem não pertencente à família de Joe, que surge em diversas histórias, desta vez com uma voz irritantemente aguda, que é um impedimento à sua carreira na rádio, mas estando presente em diversos episódios marcantes.

Com um misto de realismo urbano e glamour do mundo das estrelas (um pouco como os contrastes que distinguem os dois lados da tela em “A Rosa Púrpura do Cairo”), e sempre com um forte sentimento nostálgico, Woody Allen guia-nos, com a sua própria voz por um filme de memórias, lindíssimo. Sem a densidade psicológica ou filosófica de outros filmes seus, “Os Dias da Rádio” é um exercício pessoal de nostalgia e homenagem, sendo por isso um dos filmes mais pessoais do realizador.

Mesmo quem não se possa rever nas memórias por ele descritas, fica com a sensação de que elas passaram a ser suas. Nesse sentido o filme traz-nos à memória Fellini, nomeadamente em Amarcord, de 1973, podendo ainda ser visto como o paralelo para a rádio do que “Cinema Paraíso” (Nuovo Cinema Paradiso, 1988) de Giuseppe Tornatore, seria para o cinema.

A riqueza de cenários, a fotografia admirável, o uso da música, e o modo como tantas histórias se interligam, sem que nenhuma seja minimamente desinteressante (tudo em menos de 90 minutos), fazem do filme uma das mais ricas e elaboradas produções de Woody Allen.

O filme seria nomeado para os Oscars de Melhor Direcção Artística e Melhor Argumento Original, tendo ainda recebido vários prémios na Europa.

Produção:

Título original: Radio Days; Produção: Orion Pictures Corporation / Jack Rollins-Charles H. Joffe Productions; Produtores Executivos: Jack Rollins, Charles H. Joffe; País: EUA; Ano: 1987; Duração: 88 minutos; Distribuição: Orion Pictures Corporation; Estreia: 30 de Janeiro de 1987 (EUA), 28 de Agosto de 1987 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Robert Greenhut; Argumento: Woody Allen; Produtores Associados: Ezra Swerdlow, Gail Sicilia; Supervisão Musical: Dick Hyman; Fotografia: Carlo Di Palma (filmado em Panavision); Design de Produção: Santo Loquasto; Montagem: Susan E. Morse; Figurinos: Jeffrey Kurland; Direcção Artística: Speed Hopkins; Cenários: Carol Joffe, Les Bloom; Caracterização: Fern Buchner.

Elenco:

Woody Allen (Narrador), Danny Aiello (Rocco), Jeff Daniels (Biff Baxter), Mia Farrow (Sally White), Seth Green (Joe), Robert Joy (Fred), Julie Kavner (Mãe), Diane Keaton (Cantora do Ano Novo), Julie Kurnitz (Irene), Renée Lippin (Ceil), Kenneth Mars (Rabbi Baumel), Josh Mostel (Abe), Tony Roberts (MC de ‘Silver Dollar’), Wallace Shawn (Vingador Mascarado), Michael Tucker (Pai), David Warrilow (Roger), Dianne Wiest (Bea), Don Pardo (Apresentador de ‘Adivinhe a Canção’), William Magerman (Avô), Leah Carrey (Avó), Joy Newman (Ruthie), Larry David (Vizinho communista).

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