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Night and the CitySinopse:

Harry Fabian (Richard Widmark) é uma criatura da noite, empregado como agente de um clube nocturno para o qual tenta ludibriar clientes, mas sempre procurando o golpe que lhe dê uma vida de facilidades, a si e à namorada Mary (Gene Tierney), cantora no clube.

Um dia, ouvindo uma discussão entre o antigo campeão de luta greco-romana Gregorius (Stanislaus Zbyszko), e o filho deste Kristo (Herbert Lom), actualmente o homem que controla o negócio das lutas em Londres, Harry tem uma ideia. Convence Gregorius a abrir uma nova academia de luta consigo, para promover lutas, e enfrentar o poder de Kristo. Tal aventura, para a qual precisa do dinheiro do seu patrão, Nosseross (Mike Mazurki), vai fazê-lo um alvo da fúria de Nosseross e Kristo.

Análise:

“Foragidos da Noite” é um Noir passado em Londres, que segue as regras do género estabelecidas para filmar as cidades americanas. A partir de uma história original de Gerald Kersh, Jules Dassin realizou o filme enquanto passava à lista negra de McCarthy, o que o faria deixar os Estados Unidos.

Conhecido especialmente pelos seus Noir, Dassin, filmou uma história centrada na figura do anti-herói Harry Fabian (Richard Widmark), o típico rufia da noite, que nunca trabalhou, mas sempre se viu acima daquilo que é. Habituado a queimar etapas, Fabian não pode esperar para conseguir, no golpe seguinte, atingir o sucesso, e a tal vida de facilidade e abundância a que almeja. Para isso Fabian esquece a sua moral, e fará o que for necessário, incluíndo pequenos delitos, e manipulação daqueles que nele confiam.

Nesse sentido, o filme é uma história de confianças quebradas. Harry Fabian começa por trair a namorada Mary (Gene Tierney num pequeno papel), ao prometer-lhe sempre mais do que pode dar-lhe, e servindo-se dela, quando tudo o que ela quer é apenas uma vida simples. Trai Gregorius, o velho lutador com princípios, que confia que Harry devolverá à luta greco-romana o seu estatuto artístico. Trai o patrão, Noseross (Francis L. Sullivan), ao obter o dinheiro através de um embuste congeminado pela mulher deste. E trai a mulher do patrão, Helen (Googie Withers), ao usar o dinheiro que ela lhe conseguira, para que ele tratasse de uma licença de que ela precisa para se libertar do casamento indesejado.

Se é verdade que, de uma forma ou de outra, todos se tentam jogar uns aos outros, são as inúmeras traições de Harry que o isolam. Se elas funcionam como uma fuga para a frente, através do objectivo impossível, não admira por isso que o filme comece e termine com uma fuga.

Brilhantemente filmadas na húmida e suja noite londrina, as corridas Harry Fabian pela cidade têm um prenúncio de catástrofe anunciada. Tal é ainda mais evidente no avolumar do desespero evidenciado na interpretação intensa de Richard Widmark, que repetia de algum modo alguns traços do papel que o notabilizou em “O Denunciante” (Kiss of Death, 1947), com o seu jeito nervoso, acção imprevisível e riso compulsivo, arrastando-nos na sua queda. Dassin filma a noite (cuja proeminência é evidente desde o título do filme), com um uso perfeito do chiaroscuro e da sombra. Os seus ângulos baixos, grandes planos e cenários angulares de escadas e corredores, trazem à memória Orson Welles, e também “O Terceiro Homem” (The Third Man, 1949) de Carol Reed. Ao mesmo tempo, esses recursos visuais dão às fugas de Harry uma qualidade de pesadelo, numa noite sem fim.

Numa breve redenção, Harry percebe apenas no final os erros que cometeu. E pela primeira vez, vendo-se pelos olhos de Mary, Harry compreende que poderia ter tido tudo o que precisava, se não quisesse sempre ter mais. Tal constatação leva-o a sacrificar-se pela mulher que nunca soube amar, e sempre o amou, na sua única atitude digna da nossa simpatia.

Destaque ainda para o papel do mafioso Kristo, interpretado pelo frio Herbert Lom, então em início de carreira, num filme que foi criticado pelo facto de o mal triunfar, e de os seus gangsters sairem ilesos.

Uma nova versão da mesma história seria filmada em 1992 por Irwin Winkler como “Noite na Cidade”, com Robert DeNiro e Jessica Lange nos principais papéis.

Produção:

Título original: Night and the City; Produção: Twentieth Century-Fox Productions; Produtor Executivo: Darryl F. Zanuck [não creditado]; País: Reino Unido; Ano: 1950; Duração: 96 minutos; Distribuição: Twentieth Century-Fox Film Corporation; Estreia: Abril de 1950 (Inglaterra), 1 de Janeiro de 1952 (Cinema Capitólio, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jules Dassin; Produção: Samuel G. Engel; Argumento: Jo Eisinger [a partir de uma história de Gerald Kersh]; Música: Benjamin Frankel (versão inglesa), Franz Waxman (versão americana); Fotografia: Max Greene (preto e branco); Direcção Artística: C. P. Norman; Montagem: Nick DeMaggio, Sidney Stone; Figurinos: Oleg Cassini, Margaret Furse.

Elenco:

Richard Widmark (Harry Fabian), Gene Tierney (Mary Bristol), Googie Withers (Helen Nosseross), Hugh Marlowe (Adam Dunn), Francis L. Sullivan (Philip Nosseross), Herbert Lom (Kristo), Stanislaus Zbyszko (Gregorius), Mike Mazurki (The Strangler), Charles Farrell (Mickey Beer), Ada Reeve (Molly, a florista), Ken Richmond (Nikolas de Atenas).