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SmultronställetIsak Borg (Victor Sjöström) é um médico viúvo, em fim de vida, que se prepara para viajar à Universidade de Lund onde receberá um título honorífico. Após um sonho perturbador sobre a sua própria morte, Isaak decide, à última da hora, viajar de carro desde Estocolmo, sendo acompanhado pelo nora Marianne (Ingrid Thulin).

No caminho param junto da casa de infância de Isak, onde este se vê transportado no tempo, assistindo ao momento em que a sua prima e antiga noiva, Sara (Bibi Andersson), o trocou pelo irmão. Voltando à realidade, Isak, acolhe um trio de jovens em viagem liderado por uma outra Sara (também Bibi Andersson, e logo depois tem um acidente com um carro dirigido por um casal em litígio violento. Segue-se a visita a casa da mãe de Isak, e mais um sonho onde este vê a traição da antiga esposa.

Aos poucos, Isaak, perturbado pelos acontecimentos, troca confidências com a nora, que o acusara de ser um homem frio e cruel. E é já como um homem diferente que Isak chega a Lund onde é recebido pelo filho Evald, e tenta contribuir para que este não repita os seus erros e acolha Marianne com calor. As contínuas experiências da viagem, as memórias, o descoberto carinho da família e a despedida dos novos amigos dão a Isak um sentimento de paz como nunca conhecera.

Análise:

Ingmar Bergman, o conceituado e influente realizador sueco, é um exemplo de como o surrealismo entra no cinema. É frequente na sua obra encontrarmos sonhos, alegorias, simbolismo, ou passagens ilógicas, como modos de contar uma história. Não se podendo chamar aos seus filmes surrealistas (afinal o surrealismo puro era apenas uma aspiração dos anos 20 do século XX), estes elementos são fundamentais no cinema de Bergman.

Exemplo de tal uso de elementos surrealistas é o filme “Morangos Silvestres”, a história de Isak Borg, um homem de ciência, em fim de vida (interpretado com elegância pelo antigo realizador Victor Sjöström), que perante a ideia da morte faz uma reavaliação da sua vida.

Uma longa viagem de carro é o terreno fértil para o contacto mais próximo com a nora Marianne (Ingrid Thulin), que o acompanha e o despreza. Serve também para conhecer e reencontrar de pessoas que surgem ou partilham parte do seu caminho, e despoletar memórias e sonhos sobre o passado. Através de todas essas incidências Isak apercebe-se de que é visto como um homem frio, egoísta e cruel, cuja vida de cientista fez dele um observador sem envolvimento emocional com os que o rodeavam. Compreende assim como os caminhos seguidos e as escolhas passadas o afastaram de quem amava, o impediram de viver, e impossibilitaram de ter relações felizes com os outros.

O filme intercala sonhos e memórias com as situações que ocorrem durante a viagem, mas mesmo estas, embora no terreno do realismo, têm a sua componente simbólica, e veja-se alguns exemplos.

A nora Marianne, ao falar a Isak da sua possível separação do filho deste, Evald (com quem Isak é tão parecido), é para o velho professor, o relembrar do seu casamento falhado. Os jovens a quem Isak e Marianne dão boleia, representam a juventude e inocência, não sendo por acaso que a rapariga se chama Sara e é interpretada pela mesma actriz (Bibi Anderson) que interpreta a outra Sara, o amor de juventude de Isaak. Também esta Sara é jovial, inocentemente sonhadora, e cortejada por dois homens. Atente-se na despedida final e no “Não esquecerei” de Isak, quando Sara lhe declara o seu amor, e temos uma das muitas interdependências entre o passado e o presente. Por fim o casal Alman, encontrado no caminho, após um acidente de automóvel, é o recordar das brigas entre Isak e a sua falecida esposa.

Mas se estas cenas (em que se poderia incluir a visita à mãe de Isak, e o reconhecimento na bomba de gasolina – num cameo do jovem Max von Sydow), estão no campo do realismo, o surrealismo é trazido pelos vários sonhos de Isak.

O primeiro, várias vezes imitado por outros autores (ver por exemplo Woody Allen), mostra-nos um relógio sem ponteiros, uma cidade vazia, um homem sem rosto, uma carruagem sem cocheiro, que choca insistentemente contra um poste, símbolos de solidão, friexa emocional e teimosia. O sonho culmina num caixão caído por terra, onde o morto não só puxa Isaak, como se revela como sendo ele próprio. No segundo sonho Isak é submetido a um teste que não compreende. É acusado de ser culpado, é interrogado sobre regras da medicina, obrigado a ler um texto sem sentido, tem de analisar ao microscópio o seu próprio olhar, e por fim tem de diagnosticar uma morta que volta à vida para se rir dele. De notar que o examinador é o Sr. Alman, e a esposa morta a Sra. Alman. É levado de seguida para ver a esposa a traí-lo, assistindo à raiva desta por saber que nem isso irá provocar emoção em Isak. A sua pena é a solidão. A culpa são as mortes (figurativas) que causou com precisão cirúrgica.

Este olhar de fora para acontecimentos passados proporciona vários olhares sobre a juventude de Isak, em que este ora observa, ora participa, falando com Sara (a já citada Bibi Anderson), que nos revela que embora Isak seja o homem ideal com quem casar, ela prefere o calor e aventureirismo do seu irmão. Isak está presente nestes momentos da juventude como idoso, e é como idoso que é tratado. Alguém que nunca se soube emocionar, abrir, dar, e por isso foi sempre um velho, como o relembra a prima e amante Sara, na cena do espelho.

Mas se o filme é uma viagem (tanto exterior, como interior), ela surge-nos como uma razão de mudança. E esta é visível na relação para com Marianne, que aos poucos passa a gostar do velho sogro. Essa mudança expressa-se na necessidade de Isak de acreditar que a vida do filho será diferente da sua, e vê-se como tenta construir novas pontes, seja no carinho para com a sua governanta, ou no olhar final que dirige às memórias da sua família.

Os sonhos, as memórias, as conversas, as incidências do caminho trouxeram a Isak toda a paz que a sua vida e carreira (ou o prémio vazio que fora receber) nunca conseguiram dar, e que surge agora, antes da morte que parece insinuar-se. Por isso a última imagem do filme é o rosto agora tranquilo de Isak, no seu leito, resplandecendo com uma nova paz.

Vencedor do Urso de Ouro de Berlim e dos Globos de Ouro nos EUA, “Morangos Silvestres” toca-nos pelo olhar sincero e humano sobre uma vida, numa história nostálgica e bucólica, onde a inter-relação entre sonhos, memórias e encontros, ficou como uma lição de Bergman (de toques autobiográficos), tantas vezes seguida por outros autores.

Produção:

Título original: Smultronstället; Produção: Svensk Filmindustri (SF); País: Suécia; Ano: 1957; Duração: 92 minutos; Distribuição: Svensk Filmindustri (Suécia) / Janus Films (EUA); Estreia: 26 de Dezembro de 1957 (Suécia), 17 de Dezembro de 1960 (Cinema Império, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Allan Ekelund [não creditado]; Argumento: Ingmar Bergman; Fotografia: Gunnar Fischer (preto e branco); Direcção Artística: Gittan Gustafsson; Música: Erik Nordgren; Montagem: Oscar Rosander; Figurinos: Millie Ström; Caracterização: Nils Nittel.

Elenco:

Victor Sjöström (Professor Isak Borg), Bibi Andersson (Sara), Ingrid Thulin (Marianne Borg), Gunnar Björnstrand (Dr. Evald Borg), Jullan Kindahl (Miss Agda), Folke Sundquist (Anders), Björn Bjelfvenstam (Viktor), Naima Wifstrand (Sra. Borg, Mãe de Isak), Gunnel Broström (Sra. Alman), Gertrud Fridh (Karin Borg, Esposa de Isak), Sif Ruud (Tia Olga), Gunnar Sjöberg (Sten Alman / O Examinador), Max von Sydow (Henrik Åkerman), Åke Fridell (Amante de Karin), Yngve Nordwall (Tio Aron), Per Sjöstrand (Sigfrid Borg), Gio Petré (Sigbritt Borg), Gunnel Lindblom (Charlotta Borg), Maud Hansson (Angelica Borg), Ann-Marie Wiman (Eva Åkerman), Eva Norée (Anna Borg), Lena Bergman (Kristina Borg, Gémea), Monica Ehrling (Birgitta Borg, Gémea).

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