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White HeatSinopse:

O bando de Cody Jarrett (James Cagney), um assaltante de instintos fortemente violentos, e dependente de sua mãe, assalta um comboio, deixando quatro mortos pelo caminho. Tal torna-os alvos prioritários das buscas policiais. Para se livrar da acusação que lhe valerá certamente a cadeira eléctrica, Cody entrega-se como culpado de um roubo cometido no mesmo dia noutro estado, para cumprir uma pena de três anos, e assim garantir um alibi.

Sabendo que tudo não passa de um esquema bem planeado, a polícia implanta na mesma cadeia o agente Hank Fallon (Edmond O’Brien) com a missão de ganhar a confiança de Cody, e seguir todos os seus passos.

Análise:

“Fúria Sanguinária” com a sua história de um criminoso de forte componente psicopática, está para além do que é habitual no Film Noir. De facto o personagem de Cody Jarrett (James Cagney) surge-nos como detentor de uma maldade que nada tem de ambígua. Mais que o homem empurrado por circunstâncias que não controla, que o levado numa espiral de más decisões, Jarrett surge em controlo das suas acções com uma atitude dominadora e resoluta.

Alimentado por um James Cagney no pleno das suas capacidades, é fácil comparar este Cody Jarrett aos personagens criados por Cagney no auge dos filmes de gangsters que ele ajudou a definir. Mas em “Fúria Sanguinária” se quisermos entender um pouco melhor a ambiguidade Cody, é uma análise psicológica, e não factual ou motivacional, que nos apontará o caminho. Cody é filho de um pai (que não conhecemos) que morre num hospital psiquiátrico, e de uma mãe dominadora (interpretada por Margaret Wycherly), que o incentiva para além do razoável, e com quem mantém uma relação de tal proximidade que chega a parecer incestuosa (de reparar como é sempre a mãe e não a esposa o alvo da atenção, da confiança e do carinho de Cody, e compare-se ainda a reacção de Cody à perda da mulher, com a que tem perante a perda da esposa). Cody é incrivelmente violento, com comportamento imprevisível, e dado a crises de dores de cabeça (crises epilépticas?) que se desconfia serem apenas modos de chamar a atenção materna. Por tudo isto Cody tem de provar constantemente ser inteligente, estar em controlo, não ir ceder à loucura que matou pai e, fundamentalmente, cumprir as expectativas da sua mãe.

Com tanto nas suas mãos, Cagney compôs um personagem vívido e perturbador, capaz de uma violência não habitual no cinema dos anos 40 (ou 50). Cody Jarrett domina completamente o filme com a sua energia, e pelo modo como, impulsivamente, joga com a vida de todos os outros personagens e eventos.

Se a mãe de Cody (certamente inspirada na infame Ma Barker, célebre gangster do início do século XX) domina o filho, já a esposa Velma (Virginia Mayo), funciona como um símbolo ou um troféu. Velma segue o dinheiro, e sujeita-se ao medo que, tal como todos, nutre por Cody. Vê a sua oportunidade na prisão do marido, e é aí que, pela primeira vez, age como mulher fatal, manipulando o amante, Big Ed, a cortar as amarras a Cody. Tal termina com a morte de Big Ed, pela qual ela é grandemente responsável. A partir de então Velma deixa de ser a mulher fatal e passa a ser novamente o troféu de Cody. A sua pouca importância é explicitada quando, na perseguição final, os seus préstimos são rejeitados pela polícia, e as últimas palavras de Cody são para a mãe.

Com uma história de crime e violência, Raoul Walsh usa a noite e a sombra como pano de fundo para a evolução dos acontecimentos. Seja nos planos de novos crimes, nas sequências na prisão, nas várias fugas de Cody, ou no combate final, tudo parece acontecer à noite. Com uma realização discreta Walsh parece saber que é Cagney o trunfo do seu filme, conseguindo dele uma interpretação inesquecível, num personagem de instintos selvagens, como habitual na obra de Walsh.

A especial atenção ao detalhe técnico, com extensivas explicações de como triangular a origem de um sinal rádio, como ler relatórios forênsicos, como montar uma perseguição com três carros em paralelo, juntamente com o papel da leitura de lábios, e a explicação do conceito de “Cavalo de Tróia”, dão por vezes ao filme um carácter documental.

A cena final com Cagney a gritar “Made it, Ma! Top of the World!” é das mais emblemáticas do cinema. Representará esse topo do mundo a busca doentia de grandeza que prova que Cody sofria já de loucura? Ou será simplesmente a consciência de que a sua cura, e libertação dos males do mundo (e de si próprio) só seria atingida pelo sacrifício final?

“Fúria Sanguinária” foi nomeado para o Oscar de Melhor Argumento, e é considerado pelo American Film Institute como um dos melhores filmes de gangsters de todos os tempos.

Produção:

Título original: White Heat; Produção: Warner Bros.-First National Pictures; País: EUA; Ano: 1949; Duração: 114 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 2 de Setembro de 1949 (Inglaterra), 9 de Novembro de 1950 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Raoul Walsh; Produção: Louis F. Edelman; Argumento: Ivan Goff, Ben Roberts [a partir de uma história de Virginia Kellogg]; Música: Max Steiner; Fotografia: Sidney Hickox (preto e branco); Direcção Artística: Edward Carrere; Montagem: Owen Marks; Cenários: Fred M. MacLean; Figurinos: Leah Rhodes; Efeitos Especiais: Roy Davidson, H. F. Koenekamp; Orquestração: Murray Cutter; Caracterização: Perc Westmore.

Elenco:

James Cagney (Cody Jarrett), Virginia Mayo (Verna Jarrett), Edmond O’Brien (Hank Fallon / Vic Pardo), Margaret Wycherly (Ma Jarrett), Steve Cochran (“Big Ed” Somers), John Archer (Philip Evans), Wally Cassell (Cotton Valletti), Fred Clark (“Trader” Winston), Ian MacDonald (Bo Creel), Paul Guilfoyle (Roy Parker), G. Pat Collins (“Reader” Curtin), Fred Coby (“Happy” Taylor).