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Hannah and her SistersEm 1986 Woody Allen voltou a realizar um filme de ensemble, reunindo à sua volta uma constelação de estrelas, algumas pela primeira vez, e mantendo algumas presenças recorrentes, como Mia Farrow, Dianne Wiest, Sam Waterston, Julie Kavner e Tony Roberts. Reminiscente de “Intimidade” apenas no facto de tratar da história de três irmãs, o filme foi o maior sucesso comercial de Allen nos anos 80, conseguindo-lhe várias nomeações para os Oscars. “Ana e as suas Irmãs” foi ainda o primeiro filme de Allen desde “Annie Hall” sem a fotografia de Gordon Willis.

Sinopse:

Ana (Mia Farrow) tem um casamento aparentemente bem sucedido com Elliot (Michael Caine), como peça central de uma enorme família tradicional nova-iorquina. Mas o que Ana não sabe é que Elliot está apaixonado por Lee (Barbara Hershey), a irmã dela. Lee vive uma relação desigual e frustrante com o pintor Frederick (Max von Sydow) que, mais velho que ela, a trata como aluna, vivendo uma vida de reclusão e pessimismo. A terceira irmã é Holly (Dianne Wiest), ainda sem rumo para a sua vida, e à procura do homem ideal.

Ainda em torno de Ana assistimos à relação dos seus pais (Maureen O’Sullivan e Lloyd Nolan, e à vida do seu ex-marido Mickey (Woody Allen), um produtor televisivo hipocondríaco procurando redefinir as suas prioridades.

Análise:

“Ana e as suas Irmãs” foi o mais bem sucedido filme de Woody Allen nos anos 80, e vulgarmente considerado pela crítica um dos seus melhores de sempre. O filme é o regresso do autor à história nova-iorquina agri-doce de intrincadas relações de um grupo de pessoas de meia idade, de aspirações artísticas, que se procura, redefine, e tenta encontrar felicidade e amor num mundo onde os desafios constantemente os fazem repensar a sua vida.

Nesse sentido, o filme pode ser visto como uma continuação de “Annie Hall” e “Manhattan”, pelo modo como Allen explora os temas e entrelaça drama e comédia. Tal ideia é ainda reforçada pelo papel do próprio Woody Allen, cujo neurótico e nervoso Mickey (um produtor de televisão hipocondríaco), ecoa Alvy Singer e Isaac dos dois filmes citados.

Mas no modo de construir o argumento e nos apresentar os personagens, o filme aproxima-se mais de “Intimidade” e “Uma Comédia Sexual numa Noite de Verão”, os dois anteriores filmes em ensemble, realizados por Allen. Só que ao contrário do que aconteceu nesses dois filmes, Allen mostra aqui uma bem maior aptidão para desenvolver histórias paralelas, e dar vida aos seus personagens, para que, nunca se focando num único personagem, consiga trazer-nos uma história fluida, de pessoas que sentimos reais e próximas até.

Allen triunfa logo na escolha do elenco, que nesta altura já nos traz alguma familiaridade, como se a escolha de actores fosse uma prova de que estamos a olhar para dentro do seu mundo. Assim se a segura e madura Ana, que dá nome ao filme, é a incontornável Mia Farrow (aqui num papel discreto, longe de ser o centro das atenções), vemos ainda Dianne Wiest (uma actriz com peso importante nesta fase da carreira de Allen), Sam Waterston e Tony Roberts (este em dois breves cameos sem falas, como o eterno amigo de Woody Allen, e aparentemente o mesmo personagem de “Annie Hall”). Nos papéis masculinos principais, Michael Caine e Max von Sydow trazem experiência e uma presença dramática que dá densidade à história principal. A completar esta nota de familiaridade, veja-se o facto de Maureen O’Sullivan (a famosa Jane dos filmes da série “Tarzan” com Johnny Weissmuller), que interpreta a mãe de Ana e suas irmãs, ser a mãe de Mia Farrow; de as cenas festivas em casa de Ana serem filmadas em casa de Mia Farrow; e de algumas das crianças usadas como figurantes serem de facto filhos de Mia Farrow e/ou Woody Allen (incluíndo Soon-Yi Previn, futura esposa de Allen). Destaque ainda para os curtos cameos de Julia Louis-Dreyfus, Daniel Stern e John Turturro.

Passando à história, esta centra-se nas relações entre três irmãs, as suas diferentes personalidades, da segura Ana (cujo maior defeito é precisar de tão pouco) à emocional Lee (Barbara Hershey) e à insegura Holly (Dianne Wiest), como três facetas de uma mesma personalidade. O modo como interagem, o que contam e não contam umas às outras, como se procuram, aconselham ou se sentem intimidadas umas pelas outras, define o grosso do filme. Neste aspecto a descrição lembra-nos “Intimidade”, mas onde esse filme parecia frio, “Ana e as suas Irmãs” cativa-nos pelo calor dos personagens. É fácil identificar-nos com os seus erros, medos, sonhos e ansiedades, que são os de toda uma geração.

Filmados por Woody Allen os personagens atropelam-se nos diálogos, hesitam, perdem-se falam de boca cheia, num bem conseguido realismo, desprovido de floreados românticos. Confirme-se na cena do primeiro beijo de Elliot e Lee, que não podia ser menos poética. É o repetir dos diálogos orgânicos allenianos, filmados ao modo de Gordon Willis, ainda que ele já não esteja presente.

É verdade que nesta altura Allen não nos traz temas novos. As neuroses, e crises de meia idade dos personagens são agora recorrentes na obra de Allen. Repare-se como todos se movem em meios de ligação artística, e como a arte é uma técnica de sedução. É com sugestões de livros e filmes que Elliot (Michael Caine) seduz Lee, a qual está numa relação pela atracção ao seu mentor intelectual, Frederick (Max von Sydow, por excelência um actor bergmaniano), na clássica relação de Pigmalião e sua criação. É com arquitectura que David (Sam Waterston) corteja tanto Holly como a amiga desta, April (Carrie Fisher) numa desculpa para fazermos mais uma viagem pela Manhattan de Allen. É ainda pela escrita que Mickey e Holly se reaproximam, depois de antes ter sido a música a separá-los (numa cena que relembra Alvy Singer num concerto de Bob Dylan em “Annie Hall”).

Quase como história à parte, temos o episódio de Mickey com a sua hiponcondria. Tal leva Allen a mais uma abordagem da sua (má) relação com a morte, na sua incessante busca de respostas para um sentido que torne o fim menos difícil de aceitar. Por entre monólogos, desabafos, e diálogos com seguidores de outras religiões, o episódio dá-nos os momentos mais cómicos de um filme, que de outro modo seria totalmente dramático. De notar como mais uma vez é o seu amor pelo cinema (neste caso os irmãos Marx) que o salva.

Mas embora envolto numa história de desejo, frutrações, traição e culpa como inconsistências do comportamento humano, Allen quer apresentar-nos apenas mais um episódio da vida que o rodeia. Por isso (lembrando Bergman) o filme começa e termina com festas familiares de Dia de Acção de Graças, simbolizando ciclos repetitivos da vida, numa história sem um princípio ou fim declarados. A evolução (ou a síntese) é representada pela presença do casal idoso (pais de Ana e suas irmãs). Através deles recuperamos momentos de nostalgia, que dão sentido a uma vida a dois, ao mesmo tempo que somos relembrados, através das suas intermináveis brigas, como nada é perfeito, e mesmo esse casamento duradouro, e aparentemente feliz, é o fruto de muitos sonhos frustrados.

Com toda esta riqueza, Allen atinge o cume da sua pintura nova-iorquina sobre a complexidade das relações na sua geração dominada tanto por sonhos como frustrações, brindando-nos com um raro final feliz. “Ana e as suas Irmãs” define o conceito do “filme Alleniano”. O filme foi nomeado para sete Oscars da Academia, incluíndo os de Melhor Filme e Realização. Dianne Wiest e Michael Caine venceriam os Oscars para Melhor Actriz Secundária e Melhor Actor Secundário, respectivamente. Quanto a Allen, venceria o de Melhor Argumento Original, o seu último Oscar até hoje.

Produção:

Título original: Hannah and her Sisters; Produção: Orion Pictures Corporation / Jack Rollins-Charles H. Joffe Productions; Produtores Executivos: Jack Rollins, Charles H. Joffe; País: EUA; Ano: 1986; Duração: 107 minutos; Distribuição: Orion Pictures; Estreia: 7 de Fevereiro de 1986 (EUA), 25 de Setembro de 1986 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Robert Greenhut; Argumento: Woody Allen; Produtora Associada: Gail Sicilia; Fotografia: Carlo Di Palma (filmado em Technicolor); Direcção Artística: Stuart Wurtzel; Figurinos: Jeffrey Kurland; Montagem: Susan E. Morse; Cenários: Carol Joffe; Caracterização: Fern Buchner.

Elenco:

Woody Allen (Mickey), Michael Caine (Elliot), Mia Farrow (Hannah), Carrie Fisher (April), Barbara Hershey (Lee), Lloyd Nolan (Evan), Maureen O’Sullivan (Norma), Daniel Stern (Dusty), Max von Sydow (Frederick), Dianne Wiest (Holly), Julie Kavner (Gail), Bobby Short (O próprio), Joanna Gleason (Carol), Lewis Black (Paul), Julia Louis-Dreyfus (Mary), Christian Clemenson (Larry), J.T. Walsh (Ed Smythe), John Turturro (Escritor), Rusty Magee (Ron), Allen DeCheser (Gémeo de Hannah), Artie DeCheser (Gémeo de Hannah), Ira Wheeler (Dr. Abel), Richard Jenkins (Dr. Wilkes), Tracy Kennedy (Convidado), Fred Melamed (Dr. Grey), Benno Schmidt (Dr. Smith), Maria Chiara (Manon Lescaut), Sam Waterston (David), Stephen De Fluiter (Dr. Brooks), The 39 Steps (Banda Rock), Ken Costigan (Padre Flynn), Daniel Haber (Krishna).