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The Third ManSinopse:

Holly Martins (Joseph Cotten), um cidadão americano, chega a Viena durante o pós-guerra, a pedido do seu antigo amigo Harry Lime, que lhe promete um emprego. Ao chegar Holly descobre que Harry morreu num acidente, e chega ainda a tempo de assistir ao seu funeral.

Após uma conversa com a polícia e depois de entrevistar o porteiro, e conhecer alguns dos estranhos amigos de Harry, Holly começa a ficar convencido de que a morte do amigo não foi um acidente. Contra o conselho das autoridades, Holly insiste em permanecer em Viena, e investigar por conta própria o que se terá de facto passado.

Análise:

“O Terceiro Homem” destaca-se desde logo dos Noir da era clássica, por ter como cenário a Europa Central, e não os Estados Unidos. Pode até dizer-se que a protagonista do filme é a Viena, cidade em reconstrução, ainda dilacerada pela guerra, e dividida em quatro sectores, por potências estrangeiras, que a dominam e espezinham, e sobrevivendo à custa da capacidade de adaptação dos seus cidadãos, nem sempre de modo legal.

Quando o barão Kurtz (Ernst Deutsch) diz a Holly (Joseph Cotten) que com o fim da guerra as pessoas se viram obrigadas a fazer aquilo que antes as envergonharia, está exactamente a descrever o homem do pós-guerra que o Noir retrata, o homem amoral que quer apenas sobreviver, e para isso fará o que for preciso, ignorando a leis.

Viena resulta assim num aproximar ainda mais claro ao contexto que mais marcou o Noir: o pós-Guerra e a adaptação a uma sociedade abalada moralmente pela guerra. A Viena de “O Terceiro Homem” é um cenário de calçadas irregulares, edifícios históricos, e muitos escombros como cicatrizes de uma guerra ainda há pouco terminada. Aliás note-se como ruínas, esgotos e edifícios decadentes nos mostram figurativamente a baixa condição moral em que se movem os personagens.

O protagonista e narrador, Holly, é um personagem um pouco diferente do anti-herói típico (de notar que ao ser escritor de westerns, retrata heróis clássicos de outra era, já então em desuso), pois tem como único objectivo descobrir a verdade sobre o amigo. Holly não acredita que o amigo Harry se possa ter transformado nessa figura descrita pela polícia como estando envolvido em roubo, fraude, contrabando, e até homicídio. Através de Holly queremos acreditar na humanidade de Harry, esperando que tudo seja um erro. E é através de Holly, ao jeito dos detectives privados, que nos vamos imiscuindo num submundo estranho e perigoso, sem conseguirmos parar até saber a verdade.

A galeria de personagens de “O Terceiro Homem” é notável, desde os sinistros barão Kurtz, Dr. Winkel e Popescu, os últimos homens a verem Harry vivo; aos austeros polícias Major Calloway e Sargento Paine; passando pelo lado mais cómico do porteiro de Harry e do gerente do hotel de Holly (um pequeno papel do conhecido Wilfrid Hyde-White). Mas é a namorada de Harry, Anna Schmidt (Alida Valli) quem mais nos prende a atenção.

Desde o primeiro momento em que a vemos no cemitério, que nos perguntamos até onde ela nos pode levar no mistério. O clichè da mulher fatal faz-nos sempre desconfiar daquela que é capaz de parar a respiração de uma sala quando nela entra. É curioso como de uma forma ou de outra todos procuram Anna, mas ela se revela apenas mais uma vítima de Harry (e essencialmente uma vítima desta nova Viena), sem o poder controlar. As constantes buscas a sua casa são uma prova de que Anna, não tem qualquer controlo sobre os acontecimentos. Tal torna-a desde logo mais confiável e desejável por Holly. Entre os dois estabelece-se então uma cumplicidade. São unidos pela sombra de Harry, pela lealdade que lhe têm, e pela incapacidade de entender o que de facto se terá passado.

Mas o ponto fulcral do filme é o momento em que descobrimos que o terceiro homem, não identificado, a carregar o corpo do morto, era nem mais que o próprio Harry Lime (Orson Welles). Descobrimo-lo inicialmente, sem palavras, através de um gato que ao aninhar-se aos seus pés nos denuncia quem é o homem escondido na penumbra. Descobre-o Holly, quando o abrir de uma janela lhe lança luz sobre o rosto. É um lançar de luz completamente literário, que num gesto nos desvenda o mistério. É aí que Holly percebe que o amigo não morreu, e tudo fora um embuste. E nós, sem palavras, nem apresentações, pela familiaridade de um gato e o rosto de espanto de um homem, sabemos que estamos a ver Harry.

Nesse momento não podemos deixar de recordar “Laura” de Otto Preminger. É mais uma vez um “morto” que domina toda a história. O morto constitui um elo entre um presente e um passado que têm tanto de reais como de imaginados. Tal como a Holly impoe-se-nos a pergunta, será que o Harry mudou em Viena, tornando-se diferente daquele que Holly conheceu, ou será que era o antigo Harry uma imaginação de Holly, que nunca realmente conheceu como ele era? É esta resposta que Holly procura em Anna, e é ela que os une. Assim, tal como em “Laura” o crime se tornou secundário, e apenas queremos saber quem era Laura, também aqui, o crime deixa de ter importância, e apenas queremos saber até que ponto chegou o cinismo deste Harry, que o antigo amigo e a amante descrevem como uma boa pessoa, e até que pontos as antigas lealdades podem ser destruídas por esta nova Viena.

O realizador inglês Carol Reed teve em “O Terceiro Homem” uma das suas obras mais celebradas (ele que ganharia o Oscar de melhor realizador com “Oliver!” de 1968), com a qual ganhou inúmeros prémios na Europa. Partindo de uma história do conceituado autor Graham Greene, que a transformaria em livro de seguida, Reed (em colaboração com Welles, que ajudou no argumento, e que as más línguas diziam ter sido o verdadeiro realizador do filme) filmou Viena de um modo inesquecível. O seu uso da sombra, a escolha dos cenários labirínticos, e principalmente os ângulos de câmara (contam-se as vezes em que a câmara não está inclinada para um lado e onde não aponta de baixo para cima) são técnicas evocativas do expressionismo alemão. Tal foi perturbador para os críticos da época, mas tornou as imagens do filme facilmente reconhecíveis, como quem fala uma linguagem única, e com ela obtém um efeito marcante.

Com um enorme sentido dramático, e uma galeria de personagens de excentricidade admirável (a lembrar de certo modo a força de um elenco como o de “Relíquia Macabra” de John Huston), Reed dá-nos sequências inesquecíveis, como a perseguição nas ruas escuras de Viena (Cotten persegue literalmente sombras na parede), a busca nos esgotos (deixando-nos a procurar sombras nas paredes), ou o diálogo tenso de Cotten e Welles, no seu primeiro encontro, na roda gigante.

O filme ficou ainda famoso pela música original do não creditado Anton Karas, que com o som da cítara dá um tom exótico à Viena dos final dos anos 40 do século XX, demarcando-a desde logo das bandas sonoras típicas do Noir, baseadas na música jazz. O single “O Terceiro Homem” tornou-se mesmo um sucesso de vendas no Reino Unido.

“O Terceiro Homem” venceu ainda o Oscar da Academia para melhor fotografia a preto e branco.

Produção:

Título original: The Third Man; Produção: London Film Productions / British Lion Film Corporation; País: Reino Unido; Ano: 1949; Duração: 98 minutos; Distribuição: British Lion Film Corporation (Inglaterra), Selznick Releasing Organization (EUA); Estreia: 31 de Agosto de 1949 (Inglaterra), 3 de Março de 1950 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Carol Reed; Produção: Carol Reed; Argumento: Graham Greene [baseado numa história de Alexander Korda – não creditado]; Produtor Associado: Hugh Perceval; Fotografia: Robert Krasker (preto e branco); Montagem: Oswald Hafenrichter; Caracterização: George Frost; Música: Anton Karas [não creditado]; Figurinos: Ivy Baker.

Elenco:

Joseph Cotten (Holly Martins), Alida Valli (Anna Schmidt), Orson Welles (Harry Lime), Trevor Howard (Major Calloway), Bernard Lee (Sargento Paine), Paul Hörbiger (Karl, Porteiro de Harry), Ernst Deutsch (‘Barão’ Kurtz), Siegfried Breuer (Popescu), Erich Ponto (Dr. Winkel), Wilfrid Hyde-White (Crabbin, Gerente do Hotel), Hedwig Bleibtreu (Velha senhoria de Anna).