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The Purple Rose of CairoPela segunda vez na sua carreira, Woody Allen realizou um filme no qual não participou como actor (o primeiro havia sido “Intimidade”, de 1978), fazendo agora de Mia Farrow decididamente a figura central das suas histórias. Talvez por isso, é habitualmente apontado como o filme de Woody Allen preferido de quem não é seu fã. Desta vez Allen filmava uma fantasia romântica, envolta na sua habitual nostalgia sobre a primeira metade do século XX. Embora a cores, o filme volta a ter longos segmentos a preto e branco, e apresenta-nos mais actores habituais no cânone de Allen, como Dianne Wiest.

Sinopse:

Durante a depressão dos anos 30 do século XX, Cecilia (Mia Farrow) é uma mulher de New Jersey, insatisfeita no seu casamento com um marido (Danny Aiello) desempregado, que a ignora, que bebe e lhe bate. Refugia-se por isso no único lugar onde pode sonhar com uma vida diferente: a sala de cinema. Aí Cecilia assiste repetidamente aos mesmos filmes, até um dia um dos personagens do filme “The Purple Rose of Cairo” reparar nisso e sair da tela para conversar com ela.

A notícia de que um personagem (Jeff Daniels) deixou o filme vai perturbar os espectadores, o dono do cinema, os produtores de Hollywood, e o próprio actor que lhe dá vida (novamente Jeff Daniels), e até os personagens de “The Purple Rose of Cairo” que ficam no ecrã sem saber o que fazer.

Cecilia, envolta nesse turbilhão terá que escolher entre uma vida perfeita, oferecida por um personagem de ficção, ou a realidade que já conhece e é demasiado imperfeita.

Análise:

“A Rosa Púrpura do Cairo” é um filme diferente na carreira de Woody Allen. Ao não ser interpretado pelo próprio, o ritmo, os diálogos e a temática ganham novas direcções, espraiando-se para fora das neuroses típicas do autor. Mais que qualquer outro dos seus filmes, “A Rosa Púrpura do Cairo” é um conto de fadas nos tempos modernos, e se a fantasia já roçara a obra do autor noutras ocasiões (“Zelig” sendo o exemplo mais evidente), é aqui que ela desempenha um papel mais proeminente.

A exemplo do que na literatura se chama “realismo mágico”, Allen parte de um artifício fantástico – a saída de um dos personagens da tela (a preto e branco) para o mundo real (a cores) – para caracterizar um contexto que nos é próximo, e dolorosamente real: os sonhos e desilusões de uma sociedade urbana em dificuldades económicas (neste caso, durante a depressão norte-americana). Por isso, na sua história, este incidente é uma premissa aceitável, e repare-se como para os personagens é mais importante lidar com as consequências do fenómeno, que questionar o fenómeno em si (talvez causado por uma tempestade, ou coisa de comunistas, chega a aventar-se sem convicção).

E é aqui que se percebe que afinal o filme não difere assim tanto de outros de Woody Allen. Nele reconhece-se a nostalgia paradoxal por uma época que, para Woody Allen é uma espécie de anos dourados, e por outro um momento terrível na história do seu país. Ao reportar-se à década de 30, Allen pode de novo fazer o elogio da música jazz, e de uma certa inocência do cinema, e até da antiga Manhattan dos glamorosos clubes nocturnos. Mas mais importante, nele reconhece-se um tributo ao cinema clássico.

A Rosa Púrpura do Cairo” é, não podemos esquecer, um filme sobre cinema, e sobre o seu papel na vida dos espectadores. É no cinema que Cecilia sonha com uma vida melhor, repleta de aventuras, romantismo, locais exóticos, e acima de tudo, pessoas coerentes em que possa confiar. É no cinema que Cecilia afoga as mágoas e tenta refugiar-se de um marido com o qual não partilha nada, e cuja frase de maior compaixão é “nunca te bato sem te avisar primeiro”. Finalmente é graças ao cinema que Cecilia vai ganhar coragem para fazer frente ao marido e tomar decisões que mudem a sua vida.

Este glorificar do cinema não é desprovido de um sentido realista. Desde logo somos recordados que o que vemos na tela, e nomeadamente o personagem Tom Baxter (Jeff Daniels), por mais perfeito que nos surja, é pura ilusão, não sendo portanto satisfatório. Em contraste, a realidade, a única coisa palpável que podemos ter a certeza continua connosco dia após dia, é demasiado imperfeita. Como diz um dos personagens do filme, comentando a fuga de Tom Baxter da tela para a realidade: “as personagens de ficção querem viver vidas reais, e as pessoas reais querem viver vidas de ficção”. É o célebre “nunca me sinto bem num lugar que me aceite” de Woody Allen.

O contraste entre ficção e realidade é-nos mostrado na sua plenitude pelos dois personagens brilhantemente desempenhados por Jeff Daniels (que substituiu Michael Keaton, já durante a produção, após Allen sentir que este não era adequado para o filme). De um lado está Tom Baxter, idealista, romântico, nobre, corajoso, que não engana, pois age sempre como foi escrito. Do outro, Gil Shepherd, o actor que o criou, real, ambíguo, cheio de contrastes, e por isso mais profundo, mas mais preocupado com a sua carreira que com as pessoas.

Independentemente das escolhas feitas por Cecilia, e das diferenças entre realidade e ficção, é certo que o cinema surge mais uma vez como uma fonte de aprendizagem, e é aqui (mais que nos personagens) que temos Woody Allen no seu modo autobiográfico. Mais que uma pessoa que trabalha no cinema, Allen vive através do cinema, e aprende com os seus (e não só os seus) filmes e personagens. Repare-se como já em “O Grande Conquistador” (Play it Again, Sam, 1972), o personagem de Allen falava e aprendia com um personagem fictício, embora nesse caso fosse produto da sua imaginação. Continuando este paralelismo, compare-se o início desse filme, com o final de “A Rosa Púrpura do Cairo”. Em ambos, temos apenas o rosto do protagonista, embevecido com o que vê no ecrã, que lhe traz um ror de emoções que o fazem rir e chorar ao mesmo tempo. Um outro exemplo a referir é a mistura entre filme e filme dentro do filme que constitui “Recordações” de 1980, algo que Allen viria a repetir no futuro.

O humor de Woody Allen está aqui de modo mais velado. E se a visita de Tom Baxter ao bordel é razão para um diálogo cómico que mistura o sentido da existência com o idealismo de fazer amor por amor, não faltam tiradas satíricas sobre a sociedade americana e a indústria cinematográfica, e a habitual piada de que uma coisa destas só podia acontecer em Nova Jersey.

Ainda não referida, está a interpretação de Mia Farrow, como a frágil, sonhadora e bondosa Cecilia. É a sua melhor interpretação até ao momento num filme de Woody Allen. Cecilia marca-nos pela sua candura e inocência e por, como ela, querermos que o mundo perfeito dos filmes transborde para a nossa vida. Impressionante por isso, é a citada cena final, em que após ter a maior desilusão da sua vida, Cecilia se arrasta quase por instinto para o cinema, o seu porto de abrigo. Aí, pronta para chorar a sua desgraça, Cecilia não consegue deixar de se sentir contagiada pela magia do filme seguinte. E é na luta silenciosa entre uma lágrima e um sorriso que se deixa fascinar por Fred Astaire e Ginger Rogers a dançar e cantar “Cheek-to-Cheek” de Irving Berlin, no filme “Chapéu Alto” (Top Hat, 1935) de Mark Sandrich.

Sendo uma fantasia romântica de um agri-doce quase lancinante, que nos oferece mais um puzzle insolúvel, “A Rosa Púrpura do Cairo” foge ao fácil final feliz, preferindo deixar-nos com aquilo que de mais nobre o cinema tem: a capacidade de nos fazer sonhar.

O filme receberia uma nomeação pela Academia de Hollywood (melhor argumento original). Em termos comerciais, continuaria a linha descendente dos quatro filmes precedentes, tendo vindo a ganhar adeptos com os anos, sendo hoje para muitos um dos melhores filmes da sua carreira. Para Woody Allen, é um dos seus poucos filme em que conseguiu transmitir exactamente o que queria.

Produção:

Título original: The Purple Rose of Cairo; Produção: Orion Pictures Corporation / Jack Rollins-Charles H. Joffe Productions; Produtor Executivo: Charles H. Joffe; País: EUA; Ano: 1985; Duração: 82 minutos; Distribuição: Orion Pictures Corporation; Estreia: 1 de Março de 1985 (EUA), 12 de Setembro de 1985 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Robert Greenhut; Argumento: Woody Allen; Música: Dick Hyman; Produtores Associados: Michael Peyser, Gail Sicilia; Fotografia: Gordon Willis (cores e preto e branco); Direcção Artística: Stuart Wurtzel; Figurinos: Jeffrey Kurland; Montagem: Susan E. Morse; Cenários: Carol Joffe; Caracterização: Fern Buchner.

Elenco:

Mia Farrow (Cecilia), Jeff Daniels (Tom Baxter/Gil Shepherd), Danny Aiello (Monk), Dianne Wiest (Emma), Van Johnson (Larry), Zoe Caldwell (A Condessa), Milo O’Shea (Padre Donnelly), Deborah Rush (Rita), Irving Metzman (Gerente do cinema), John Rothman (Advogado de Raoul Hirsch), Stephanie Farrow (Irmã de Cecilia), Alexander Cohen (Raoul Hirsch), Camille Saviola (Olga), Karen Akers (Kitty Haynes), Michael Tucker (Empresário de Gil), Annie Joe Edwards (Delilah), Peter McRobbie (O Comunista), Juliana Donald (Arrumadora), Edward Herrmann (Henry), David Kieserman (Patrão de Cecilia), John Wood (Jason), Eugene J. Anthony (Arturo), Ebb Miller (Chefe de Orquestra), Raymond Serra (Executivo de Hollywood), Glenne Headly (Prostituta), Willie Tjan (Prostituta), Lela Ivey (Prostituta), Drinda Lalumia (Prostituta), Loretta Tupper (Dona da loja de música).

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