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Le Sang d'un PoèteUm pintor que desenha um rosto, mas ao ver a boca ganhar vida, tenta apagá-la com a própria mão, e vê a boca passar-lhe para a mão, tendanto libertar-se dela, o que consegue ao passá-la a uma estátua. A estátua ganha vida e incentiva-o a procurar a saída da sala, através do espelho.

Do outro lado do espelho o pintor encontra várias portas, espreitando por cada uma vê do outro lado, um revolucionário mexicano a ser fuzilado, um fumador de ópio, uma menina que aprende a voar, e um hermafrodita. De seguida pega numa pistola e dispara contra si próprio. Depois disso volta ao espelho, e do outro lado da sala destrói a estátua.

Num pátio, crianças brincam com bolas de neve, até que uma mata outra com uma bola.

No mesmo pátio um casal joga às cartas sobre o corpo morto da criança, e sob o aplauso de pessoas nas varandas. Um anjo negro chega e leva consigo a criança morta. Findo o jogo, o homem suicida-se, e a mulher transforma-se na estátua inicial. A estáua surge por fim acompanhada de uma lira.

Análise:

Com “O Sangue de um Poeta”, Jean Cocteau juntava o seu nome ao dos primeiros cineastas que usaram o surrealismo na construção das suas obras. O filme, adiado devido à polémica em torno de “L’Age D’Or” de Luis Buñuel, foi, como ele, patrocinado pelo visconde de Noailles. Foi o primeiro filme de Cocteau da chamada trilogia Órfica, que incluiria ainda “Orfeu” (Orphée, 1950) e “Le Testament d’Orphée” (1960).

O mote para o filme é a sensibilidade de um poeta (“todo o poema é um brasão, que tem de ser decifrado”), e o seu modo relacionar a percepção do exterior com o seu universo interior. Por isso o filme (para o autor “um conjunto de alegorias”) é uma sucessão de quadros que se sucedem de modo irracional, através de associações típicas de sonhos. Por isso também as falas e legendas são sugestões de interpretação poética.

Como habitual nos filmes vanguardistas franceses deste período, “O Sangue de um Poeta” tem uma forte componente simbólica, onde os vários momentos nos remetem para arte, o intelecto e o sentimento. Estas são visíveis na cabeça feita de arames, que surge amiúde a girar sobre os personagens; na boca que “como uma peste” passa da tela para o corpo e para a estátua; no facto de o personagem principal ser um poeta e um pintor; nas associações musicais, como por exemplo a lira (instrumento órfico por natureza), nas estátuas de inspiração clássica, etc.

A atmosfera onírica, característica dos filmes surrealistas, é intensificada por passagens através de espelhos, crianças que voam, mortes que se revertem em vida, anjos, o caminhar pouco natural do poeta contra as portas, etc. Nela está ainda presente a habitual violência dos surrealistas, com vários suicídios, abundante sangue e o assassinato de uma criança, bem como as sugestões de expressão sexual (note-se o rosto de prazer do poeta quando usa a boca da sua mão em actos de conotação sexual; e também a presença de um hermafrodita).

De uma forma ou de outra, todos os quadros apresentam conflito, inconformidade, busca, contradição, e violência. São afinal as características de uma alma criativa (diz-se que autobiográficas, no caso de Cocteau), ou se quisermos… o sangue de um poeta.

O filme é dedicado a Pisanello, Paolo Ucello, Piero della Francesca e Andrea del Castagno, mestres do Renascimento italiano, “pintores de insígnias e enigmas”.

Produção:

Título original: Le Sang d’un Poète; Produção: Vicomte de Noailles; País: França; Ano: 1932; Duração: 51 minutos; Estreia: 20 de Janeiro de 1932 (França).

Equipa técnica:

Realização: Jean Cocteau; Produção: Vicomte de Noailles; Argumento: Jean Cocteau; Música: Georges Auric; Montagem: Jean Cocteau; Fotografia: Georges Périnal (preto e branco); Direcção Artística: Jean Gabriel d’Eaubonne; Figurinos: Coco Chanel.

Elenco:

Enrique Rivero (Poeta), Elizabeth Lee Miller (Estátua), Pauline Carton, Odette Talazac, Jean Desbordes, Fernand Dichamps, Lucien Jager, Féral Benga (Anjo negro), Barbette.

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