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Key LargoSinopse:

Frank McCloud (Humphrey Bogart) é um veterano de guerra que viaja até Key Largo para prestar a sua homenagem ao pai (Lionel Barrymore) e viúva (Laureen Bacall) do seu colega caído em acção. Estes gerem um pequeno hotel, que se encontra reservado por um estranho grupo de hóspedes que age nervosamente, e aparenta ser mais que aquilo que diz. Todos se referem ao chefe, que nunca sai do quarto. E ao relevar-se, é evidente a Frank que aquele é Johnny Rocco (Edward G. Robinson), um famoso gangster escondido das autoridades.

Tal descoberta leva a que o trio fique sequestrado, e Frank tenha que ver ser posta à prova a sua coragem para livrar o grupo daquela situação.

Análise:

“Paixões em Fúria” ficou para a história de Hollywood como a quarta e última parceria entre Bogart e Bacall. E tem o condão de nos trazer mais um lado da versátil relação (dentro e fora da tela) entre o casal. Aqui há uma espécie de reconhecimento instantâneo entre os dois, que não carece de palavras, como se duas almas já se conhecessem de outras vidas (ou outros filmes). Nora reconhece em Frank o homem de honra e coragem que, seguro de si, está disposto a sacrificar a sua imagem, para salvar aquilo que para si é mais importante, a vida e memória daqueles que respeita (“Um Rocco a mais ou a menos não é motivo pelo qual valha perder a vida”). Mesmo que a própria Nora lhe chegue a chamar cobarde, ela entende-o e respeita-o por ser assim, sem que palavras tenham que ser ditas.

Igualmente, Frank reconhece em Nora, e no sogro desta, James Temple (Lioel Barrymore), duas figuras cuja força interior é apenas traída pela condição exterior (ela, mulher, ele inválido), o que é de certo modo reminiscente de “À Beira do Abismo” (The Big Sleep, 1946), onde o personagem de Bogart se deixou cativar pelo velho (e inválido) chefe de família, e a sua petulante filha (também Bacall).

Na realidade este trio deve pouco ao género Noir. Como que apanhados numa história que não é sua, tentam manter a dignidade, e assumir uma coragem que, se no caso do velho Temple é barulhenta e inconsequente, no caso de Frank é dissimulada e calculada. É aí que se pode detectar um cinismo, culpa da desilusão de um regresso a casa após a guerra para constatar que ganha a guerra na Europa, há muitas guerras em casa que nunca serão ganhas.

A história é a de um sequestro que vai acontecendo sem que os sequestrados percebam. Numa casa controlada pelo gangster Johnny Rocco (Edward G. Robinson, num papel ao qual estava habituado), quase toda a acção se passa dentro do hotel. Tal dá à história não só um maior sentido claustrofóbico, como confere ao filme uma qualidade teatral, e atípica no Noir, que frequentemente vive do negrume urbano, aqui não existente.

E como um teatro, é dos jogos de vontades e palavras, do lento desenrolar das ideias e do paulatino ludibriar, que a história se vai desenrolando. De um lado temos a energia visceral, e por vezes incontrolável de Rocco, acompanhada pelos actos irreflectidos dos seus homens, do outro a frieza enervante de Frank, que procura antes de mais proteger os seus. Como num jogo de xadrês, os dois lados combatem um combate surdo, e imprevisível.

É no desenlace que Frank se assume finalmente como um herói de pleno direito, deixando para trás a amrgura do seu cinismo, e assumindo, mais que uma atitude perante os adversários, uma nova atitude perante a vida, o seu futuro, e aquela por quem vem a nutrir sentimentos. Tal faz de “Paixões em Fúria” um grito de esperança perante a desilusão do pós-guerra.

Filmado pela lenda do expressionismo alemão, Karl Freund, John Huston dirigiu um filme, onde mais uma vez lida com a ambição, o medo, a coragem, a fúria e o sentido de auto-preservação até às suas últimas consequências, como que buscando e expondo os instintos humanos mais primários. O filme chega a ser entusiasmante e cheio de momentos de suspense, como é o inesquecível duelo (ao jeito de Western), rejeitado por Frank.

Destaque ainda para Claire Trevor, que venceu o Oscar de melhor actriz secundária, pela sua interpretação da nervosa, mas bem intencionada, Gaye Dawn, a ex-cantora e namorada alcoólica de Johnny Rocco.

Produção:

Título original: Key Largo; Produção: Warner Bros. – First National Pictures; País: EUA; Ano: 1948; Duração: 97 minutos; Distribuição: Warner Bros. Pictures; Estreia: 16 de Julho de 1948 (EUA), 14 de Março de 1949 (Cinema, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: John Huston; Produção: Jerry Wald; Argumento: Richard Brooks, John Huston [adaptado da peça de teatro de Maxwell Anderson]; Música: Max Steiner; Fotografia: Karl Freund (preto e branco); Direcção Artística: Leo K. Kuter; Montagem: Rudi Fehr; Cenários: Fred M. MacLean; Figurinos: Leah Rhodes; Efeitos Especiais: Robert Burks, William McGann; Caracterização: Perc Westmore; Direcção Musical: Murray Cutter.

Elenco:

Humphrey Bogart (Frank McCloud), Edward G. Robinson (Johnny Rocco), Lauren Bacall (Nora Temple), Lionel Barrymore (James Temple), Claire Trevor (Gaye Dawn), Thomas Gomez (Richard ‘Curly’ Hoff), Harry Lewis (Edward ‘Toots’ Bass), John Rodney (Agente Clyde Sawyer), Marc Lawrence (Ziggy), Dan Seymour (Angel Garcia), Monte Blue (Xerife Ben Wade), William Haade (Ralph Feeney).