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Broadway Danny RoseEm 1984 Woody Allen trazia-nos “O Agente da Broadway”, um filme mais leve que os seus anteriores, novamente a preto e branco, e contando com a presença de Mia Farrow no papel principal. Como na maior parte dos seus filmes Allen, voltava a uma história centrada no seu personagem principal, o prqueno aspirante a algo mais, que nunca passa da cepa torta. Desta vez o pano de fundo era o mundo do espectáculo dos pequenos bares e clubes nocturnos, que Allen bem conhecia da sua carreira de stand-up comedy dos anos 60.

Sinopse:

Danny Rose (Woody Allen) é um agente de pequenos artistas em que mais ninguém vê futuro. Ele é recordado com humor e condescendência por um grupo de veteranos de clubes nocturnos que contam, em jeito de anedota, algumas histórias sobre o pequeno agente. Nas suas palavras, Danny Rose, tornou-se famoso por insistir nos números mais incríveis (o xilofonista cego, a bailarina de uma só perna, os pássaros que tocavam piano, etc.), acabando sempre por ser deixado logo que algum artista começava a fazer carreira. Para o ilustrar, é-nos contada a história de como Danny se envolveu na carreira do cantor romântico, já fora de prazo, Lou Canova (Nick Apollo Forte), então numa atribulada relação com a bonita loura, com ligações à máfia, Tina Vitale (Mia Farrow).

Análise:

A carreira de Woody Allen é frequentemente descrita como tendo atingido um ponto mais baixo nos anos 80. Essa suposta travessia dá-se quando nenhum filme conseguiu igualar o sucesso de “Annie Hall” e “Manhattan”, nem ser intelectualmente tão desafiador como “Intimidade” e “Recordações”. “O Agente da Broadway” insere-se assim num grupo de filmes mais leves, menos pretensiosos, com que Allen tentava voltar a usar o seu humor feito de aforismos, para contar pequenas histórias.

Como seria recorrente na sua carreira, Allen volta a escolher o mundo do espectáculo como pano de fundo para a sua história. Mas deixando o cinema ou a televisão, desta vez o retratado é o mundo dos bares e clubes nocturnos, de performers de simples entretenimento, em busca de uma oportunidade para se lançarem em carreiras profissionais. Danny Rose (o personagem de Woody Allen), incorpora esse mundo de artistas falhados, sonhos inconcretizáveis, e oportunidades perdidas. Não espanta por isso o estilo anedótico em que os vários números geridos por Danny vão surgindo, ele próprio um artista falhado, de carreira bruscamente terminada ao ter causado ataques cardíacos numa plateia de idosos.

A história, com o seu quê de burlesco, de Danny com o cantor romântico que tenta u mregresso à ribalta, Lou Canova, e a problemática namorada deste, Tina Vitale, é o motivo para a narração e flashback, de um grupo de artistas veteranos, que recordam Danny com humor numa tasca de Nova Iorque.

Filmado a preto e branco (Allen era agora um realizador que consistentemente usava a fotografia a preto e branco para retratar a sua cidade), “O Agente da Broadway” é, mais que um olhar sobre o mundo do espectáculo, um olhar pessoal sobre uma certa Nova Iorque que então desaparecia, feita de bares, de armazéns, de pequenas lojas, becos sujos e esquinas movimentadas. A Nova Iorque que o próprio teve que descobrir na sua caminhada quando comediante nos clubes da Broadway. É para essa Nova Iorque, e o período que ela representa na sua vida, que Allen olha com a mesma nostalgia com que o grupo de narradores olha para essa lenda urbana que foi Danny Rose.

“O Agente da Broadway” é por isso, para além de uma comédia (sendo a comédia mais assumida de Allen desde “Nem Guerra, nem Paz”), um filme nostálgico que, de uma forma directa e quase sempre anedótica, faz pelo mundo dos clubes nocturnos, o que “Os Dias da Rádio” faria pela era de ouro da rádio do anos 40 e 50.

Com as habituais piadas sobre os judeus, e o sarcasmo habitual sobre a intelectualidade e o mundo do espectáculo, “O Agente da Broadway” é mais uma página do universo pessoal de Woody Allen. Mas se Danny Rose é o mais nervoso e gesticulador personagem de Allen até então, é também um romântico optimista, com um coração que o leva a tratar os seus artistas como uma família, e sem a instrospecção de outros filmes. Aqui a sua filosofia existencialista chega-nos por tiradas cómicas atribuídas aos seus familiares, que o próprio vai contando em jeito de anedota. Por tudo isto, com o seu burlesco (veja-se a cena das vozes de hélio) e algum absurdo, “O Agente da Broadway” chega a comover-nos pela sua humanidade. Sendo uma comédia ligeira, mesmo sem marcar um trunfo importante na carreira de Allen, é ainda assim um filme que se vê com prazer.

O filme conta ainda com uma interpretação segura de Mia Farrrow, na que era até então a a sua melhor interacção com Allen. Ambos são bem secundados pelo brilhante Nick Apollo Forte no papel do inseguro cantor romântico que foi uma estrela por 15 minutos nos anos 50 (papel esse que esteve para ser entregue a Sylvester Stallone).

O filme foi nomeado para os Oscars de melhor realizador e melhor argumento original. A sua receita situou-se abaixo da de “Zelig”, continuando o declínio comercial de Allen.

Produção:

Título original: Broadway Danny Rose; Produção: Orion Pictures Corporation / Jack Rollins-Charles H. Joffe Productions; Produtor Executivo: Charles H. Joffe; País: EUA; Ano: 1984; Duração: 81 minutos; Distribuição: Orion Pictures Corporation; Estreia: 27 de Janeiro de 1984 (EUA), 4 de Janeiro de 1985 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Robert Greenhut; Argumento: Woody Allen; Produtor Associado: Michael Peyser; Montagem: Susan E. Morse; Figurinos: Jeffrey Kurland; Direcção Artística: Mel Bourne; Fotografia: Gordon Willis (preto e branco); Direcção Musical: Dick Hyman; Cenários: Leslie Bloom; Caracterização: Fern Buchner.

Elenco:

Woody Allen (Danny Rose), Mia Farrow (Tina Vitale), Nick Apollo Forte (Lou Canova), Sandy Baron (O próprio), Corbett Monica (O próprio), Jackie Gayle (O próprio), Morty Gunty (O próprio), Will Jordan (O próprio), Howard Storm (O próprio), Jack Rollins (O próprio), Milton Berle (O próprio), Craig Vandenburgh (Ray Webb), Herb Reynolds (Barney Dunn), Paul Greco (Vito Rispoli), Frank Renzulli (Joe Rispoli), Edwin Bordo (Johnny Rispoli), Gina DeAngeles (Mãe de Johnny), Peter Castellotti (Mafioso no Armazém), Sandy Richman (Teresa), Gerald Schoenfeld (Sid Bacharach), Olga Barbato (Angelina), David I. Kissel (Phil Chomsky), Gloria Parker (Virtuosa dos copos de água), Bob Rollins (Artista de balões), Etta Rollins (Artista de balões), Robert Weil (Herbie Jayson), David Kieserman (Ralph, dono do clube), Mark Hardwick (Xilofonista cego), Alba Ballard (Senhora dos pássaros).

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