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ZeligEstreado um ano após “Uma Comédia Sexual numa Noite de Verão”, embora tenha sido filmado antes, “Zelig” foi o segundo filmes de Woody Allen para a Orion. Foi filmado na maioria a preto e branco, o que começava a ser habitual no realizador, depois das experiências de “Manhattan” e “Recordações”, e novamente graças à fotografia de Gordon Willis. Tal como havia feito em “O Inimigo Público”, de 1969, Allen estruturou o filme como um falso documentário. “Zelig” foi ainda um regresso à comédia, sendo geralmente considerado um dos melhores filmes de Woody Allen, que contava pela segunda vez ao seu lado com Mia Farrow.

Sinopse:

Nos anos 20 é descoberto um homem, Leonard Zelig (Woody Allen) com a incrível capacidade de mudar de aparência, metamorfoseando-se em alguém similar àqueles que o rodeiam, quer fisicamente (fosse um negro, um oriental, alguém extremamente gordo), quer em termos de aptidões (médico, pugilista, aviador, etc.). O fenómeno torna-se motivo de interesse nos jornais e filmes noticiosos, e Zelig passa a ser conhecido como o homem camaleão.

É a psiquiatra Elenora Fletcher (Mia Farrow), quem ganha um interesse especial pelo paciente, acreditando que o problema é psicológico, e que ao lhe dar um ambiente de conforto e carinho conseguirá reverter o processo, voltando a humanizar Zelig.

Análise:

Com “Zelig” Woody Allen voltava ao estilo mockumentary (falso documentário), que lhe tinha dado bons resultados no seu filme inicial “O Inimigo Público” (Take the Money and Run, 1960). É possível ver-se a evolução de um filme para o outro, que não é apenas em termos técnicos, mas sim na própria composição e equilíbrio do filme. Deixando que a narração tome o lugar preponderante, e restringindo o seu papel na tela ao essencial, Woody Allen compõe um filme a todos os níveis notável, quer pela caracterização dos personagens, que poucas linhas faladas têm; pela bonita, e de certo modo nostálgica recriação de uma época (os anos 20 e 30 do século XX); e pela constante sátira mordaz para tantas situações, que se adaptam tanto ao período retratado como aos nossos dias.

Vale a pena reparar no modo como tecnicamente o filme é construído. Partindo da premissa de se tratar de um documentário sobre os anos 20 e 30, existem no filme imagens antigas, e entrevistas contemporâneas. Nas entrevistas contemporâneas (únicos momentos a cores) temos tanto as versões idosas dos personagens principais, como figuras reais contemporâneas, como o escritor Saul Bellow, a realizadora e activista política Susan Sontag, o psicólogo Bruno Bettelheim e o crítico literário Irving Howe, entre outros.

Para melhor recriar a época de Zelig, é adoptado o formato dos filmes noticiosos que eram nesse tempo apresentados no cinema, com a narração típica da época. As imagens vão desde montagens fotográficas (com os imagens dos actores por vezes inseridos em fotografias antigas), e curtos filmes que tanto podiam ser filmes verdadeiros (com os actores inseridos no filme e interagindo com pessoas verdadeiras), como pequenos filmes em jeito de documentário filmados propositadamente jeito do início do século XX (com câmara instável e imagem degradada).

Note-se que já na era digital “Forrest Gump” de Robert Zemeckis venceria um Oscar exactamente por este tipo de proeza, algo que Woody Allen conseguira mais de uma década antes, com igual eficácia, e meios bem mais humildes.

Tudo isto resulta numa montagem perfeita, que nem por um momento nos deixa acreditar que não seja mesmo um documentário. Algo que é ainda mais reforçado pelo papel da banda sonora, não só utilizando música da época, sempre usada de modo pertinente em cada tom da narrativa, como tendo muitas músicas escritas ou adaptadas para se encaixarem no contexto de Zelig.

Woody Allen conseguia assim inovar na forma, encontrando um novo meio de expressar os temas do seu universo pessoal. E em “Zelig” o tema é aquele em que Allen mais se aproxima de um discurso político. Como já havia roçado noutros filmes, Allen expressa através da metáfora do homem-camaleão, o seu medo de uma ditadura do pensamento único em que o ser humano perca a sua individualidade e criatividade. É pelo desejo de ser amado e de pertencer a um grupo que Zelig se torna um camaleão, e instantaneamente se torna igual a quem o rodeia. Essa necessidade de Zelig leva-o, em caso extremo, a querer simplesmente ser um com a multidão, e procurar ambientes em que todos sejam apenas uma peça sem identidade, o que o leva até a aderir ao Partido Nazi.

A única forma de reverter o problema, como bem identificado pela psicóloga (interpretada por Mia Farrow) é dar uma personalidade própria a Zelig, fazer com que não tenha medo de ter uma opinião, mesmo que errada, e um gosto próprio, mesmo que mau. E isso é algo que ela conseguirá, principalmente a partir do momento em que ambos assumem o seu amor. Ou seja, é mais uma vez o amor (os ovos, como se diz em “Annie Hall”) que fornece o caminho.

Com o humor presente em cada frase da narração, Woody Allen volta a usar o contraste entre a voz séria e formal do narrador (Patrick Horgan) e dos entrevistados, e as ideias ridículas que vão sendo expostas, para aumentar o absurdo da situação. Assim cada linha é uma farpa apontada a qualquer aspecto da sociedade, geralmente aqueles que mais tocam Woody Allen.

Temos por isso uma sátira aos psiquiatras e médicos em geral (o problema de Zelig chega a ser diagnosticado como excesso de comida mexicana), aos jornalistas (pela primeira vez vendeu-se jornais dizendo a verdade), à sua educação ortodoxa (até os pais eram anti-semitas quando se tratava de o defender, e o rabino só lhe explicou o sentido da vida em hebreu, cobrando de seguida por lições), aos conservadores (a representante dos bons costumes termina o discurso com “linchem o judeuzinho”), e claro aos intelectuais (afinal a condição de Zelig mostrou o primeiro sintoma quando ele se envergonhou de confessar que nunca lera “Moby Dick” – e tal como Allen, Zelig prefere baseball).

No final todo o público é satirizado pelo seu voyeurismo, e pela forma como é ávido de notícias sobre a vida de alguém que para si é apenas um caso mediático, e sobre o qual não tem a mínima compaixão. Por isso esse mesmo público eleva Zelig a herói, sem que ele o mereça (convive com toda a alta sociedade, e até uma dança lhe é inventada e canções lhe são dedicadas). E também por isso, esse mesmo público o julga como criminoso sem qualquer piedade, numa perfeita analogia do destino dos heróis populares que passam de bestial a besta apenas para se vender jornais (ou reality shows na actualidade).

“Zelig” consegue assim ser uma brilhante comédia, um documentário prodigioso, uma sátira inteligentíssima, e uma história verdadeiramente humana, onde os dois actores principais Allen e Farrow, pouco falam, surgem muitas vezes apenas em fotos, ou pequenos filmes mudos, mas ainda assim nos tocam pela humanidade que conseguem transmitir.

Produção:

Título original: Zelig; Produção: Orion Pictures Corporation / Jack Rollins-Charles H. Joffe Productions; Produtor Executivo: Charles H. Joffe; País: EUA; Ano: 1983; Duração: 80 minutos; Distribuição: Orion Pictures Corporation / Warner Bros. Pictures; Estreia: 15 de Julho de 1983 (EUA), 15 de Março de 1984 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Robert Greenhut; Argumento: Woody Allen; Fotografia: Gordon Willis; Design de Produção: Mel Bourne; Figurinos: Santo Loquasto; Montagem: Susan E. Morse; Produtor Associado: Michael Peyser; Música: Dick Hyman; Direcção Artística: Speed Hopkins; Cenários: Les Bloom, Janet Rosenbloom; Caracterização: Fern Buchner.

Elenco:

Woody Allen (Leonard Zelig), Mia Farrow (Dra. Eudora Fletcher), Patrick Horgan (Narração), John Buckwalter (Dr. Sindell), Marvin Chatinover (Médico que diagnostica doença glandular), Stanley Swedlow ((Médico que diagnostica comida mexicana), Paul Nevens (Dr. Birsky), Howard Erskine (Médico de Hipodermia), George Hamlin (Médico das drogas experimentais), Susan Sontag (a própria), Irving Howe (o próprio), Saul Bellow (o próprio), Bricktop (o próprio), Dr. Bruno Bettelheim (o próprio), Prof. John Morton Blum (o próprio), Marshall Coles Sr. (Calvin Turner), Ellen Garrison (Dra. Fletcher idosa), Elizabeth Rotschild (Irmã Meryl idosa). Jack Cannon (Mike Geibell), Teodore R. Smits (Ted Birbauer).

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