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L'Age D'OrUm prelúdio em jeito de documentário fala-nos sobre a vida dos escorpiões.

Quatro arcebispos são observados por um homem numa encosta rochosa à beira mar. O homem vai chamar os companheiros avisando-os que os maiorcanos chegaram. Estes saem da sua cabana, armados para lutar, mas vão a cambalear e só um sobrevive. De barco chega um numeroso grupo de dignatátios, que encontra os esqueletos dos bispos, e inicia uma cerimónia de inauguração. Esta é interrompida quando um casal é encontrado aos beijos, deitado na lama. O homem é levado, enquanto se fala da fundação da cidade de Roma.

Pela cidade o mesmo homem, ainda enlameado, mostra aos seus guardas que é um alto oficial governativo, e estes libertam-nos. Em casa do marquês, é dada uma festa. O homem reencontra a rapariga por quem está apaixonado, e depois de esbofetear a marquesa, tem de se retirar, combinando um encontro com a sua amada no jardim, enquanto os convidados assistem a um concerto. Aí tentam consumar o seu amor, sendo interrompidos, primeiro por uma chamada do ministro, depois pelo maestro que deixa a orquestra, depara com o casal e é beijado pela rapariga. O homem corren para o quarto dela, desfaz as almofadas, e atira uma série de objectos pela janela (árvore em chamas, arcebispo, arado, lança e girafa).

Como última sequência vemos a descrição de uma orgia no castelo do duque de Blangis, e os quatro homens responsáveis, que dele saem, liderados pelo duque que parece Jesus Cristo. Quando uma mulher tenta sair, o duque condu-la ao castelo, ouvindo-se um grito. Do castelo apenas o duque regressa, agora sem barba. Numa cruz vêem-se pendurados os escalpes de várias mulheres.

Análise:

“L’Age D’Or” foi o segundo filme francês, fruto da colaboração de Luis Buñuel e Salvador Dalí. Foi a primeira longa-metragem da carreira de Buñuel, e um dos primeiros filmes sonoros produzidos em França.

Sucedendo a “Um Cão Andaluz” (Un Chien Andalou, 1929), “L’Age D’Or” é um filme mais longo, com uma narrativa mais clara, mas ainda assim, como o filme anterior, é também uma obra surrealista pura, plena de técnicas narrativas pouco convencionais, ligações fantásticas, radicais ou aparentemente irracionais.

Ainda assim, se em “Um Cão Andaluz”, a premissa era filmar apenas imagens retiradas de sonhos, sem explicação racional, em “L’Age D’Or” é perceptível um tema, que percorre a maior parte do filme. O tema é a sátira da sociedade burguesa, ilustrada pela repressão do desejo sexual (tema caro aos surrealistas) e obstáculos morais convencionais à sua consumação.

Após um prólogo enigmático sobre escorpiões, a história centra-se num casal que em diversos momentos procura a união carnal, sempre interrompida, e censurada. Tal acontece logo no início durante uma inauguração, no meio da lama (com ligações visuais ao autoclismo de uma sanita, e lava borbulhante). Mais tarde o casal é impedido de estar junto pela família, levando à chocante bofetada na marquesa. Quando a consumação parece certa no jardim, surgem mais interrupções, como uma chamada acusatória do ministro, falando da morte de crianças, e a chegada do maestro, que a rapariga corre a beijar. Note-se ainda o momento em que a rapariga, afastada do seu objecto do seu desejo, chupa os dedos do pé de uma estátua, numa clara alusão a sexo oral.

Todas as sequências com o homem são bruscas, e envoltas em violência (outro tema caro a Buñuel), como acontece na sua prisão, no modo com que trata todas as pessoas que encontra (pontapeia os cães e um cego), e na sequência final em que, no quarto da rapariga, se tenta livrar de tudo o que o aprisiona. Chocante é ainda o assassinato a frio de uma criança às mãos do caçador, por um motivo irrisório. E provocantes são ainda o homem que pontapeia um violino, a custódia religiosa retirado de um carro, entre outros.

Claras são as sátiras à religião (os arcebispos mortos na encosta, o arcebispo atirado da janela, os padres que constituem a orquestra, são repetições do tema do peso da igreja, já presente em “Um Cão Andaluz”), à famíla (com a futilidade das festas, num palacete onde circulavam carroças e quartos onde dormiam vacas), à política (nos discursos ocos do prefeito, e acusações do ministro) e à sociedade burguesa em geral.

Por fim, na sequência do castelo do duque de Blangis (inspirada por um conto do marquês de Sade), há uma inversão na atitude perante o sexo, que em vez de reprimido é agora descrito como sendo vivido sem limites, acabando no sacrifício das mulheres. Até aqui, com a semelhança entre o duque e Cristo, e a imagem final dos escalpes pendurados na cruz, parece surgir uma crítica à religião como culpada pelos modos pouco naturais como o desejo é vivido, e pela vitimização da mulher.

“L’Age D’Or” é um filme parcialmente sonoro, mas com muitas sequências filmadas como se fossem para um filme mudo, e o uso do som e dos diálogos distribuído de modo pouco natural, e acompanhado de música de Beethoven, Mozart, Schubert, e essencialmente Wagner. É tecnicamente bastante mais perfeito que “Um Cão Andaluz”, e outros filmes surrealistas do período.

Este filme marcaria ainda a última colaboração entre Buñuel e Dalí (que teve pouco envolvimento neste filme). Os dois separar-se-iam por motivos políticos, exacerbados pela Guerra Civil Espanhola que se avizinhava. Buñuel (no cinema) e Dalí (na pintura) continuariam a ser dois dos vultos mais marcantes do surrealismo, mesmo depois do fim oficial do movimento nos anos 40.

O filme foi patrocinado por um mecenas, o visconde Charles de Noailles, para oferecer à sua esposa, ambos patronos dos surrealistas. A sua exibição provocou reacções violentas de activistas de extrema-direita, e a censura acabou por tirar o filme de exibição em Dezembro do mesmo ano. Buñuel nunca foi perdoado por esta obra, por diversos sectores da sociedade espanhola e francesa, que viam no filme propaganda judia e maçon. Isso ter-lhe-á mesmo dificultado a carreira nas décadas seguintes.

Em 1933 Buñuel e Noailles editariam uma nova cópia, mais curta, que circulou no leste, em meios intelectuais de esquerda, intitulado “Icy Wastes of Dialectical Materialism”. Hoje não existem cópias desta versão.

O filme original só voltaria a estar disponível ao público em 1979.

Produção:

Título original: L’Age D’Or; Produção: Vicomte de Noailles/Les Filme Sonores Tobis-Paris; País: França; Ano: 1930; Duração: 62 minutos; Estreia: 28 de Outubro de 1930 (França), 16 de Junho de 1982 (Cinemateca Portuguesa, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Luis Buñuel; Produção: Vicomte de Noailles; Argumento: Luis Buñuel, Salvador Dalí; Música Original: Luis Buñuel, Georges van Parys [não creditados]; Fotografia: Albert Duverger; Montagem: Luis Buñuel; Direcção Artística: Alexandre Trauner [não creditado]; Cenários: Schildknecht [Pierre Schild]; Direcção de Orquestra: Armand Bernard.

Elenco:

Gaston Modot (O Homem), Lya Lys (Rapariga), Caridad de Laberdesque (Criada de quarto / Menina), Max Ernst (Chefe dos homens na cabana), Josep Llorens Artigas (Governador), Lionel Salem (Duque de Blangis), Germaine Noizet (Marquesa), Duchange (Maestro), Bonaventura Ibáñez (Marquês).

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