Etiquetas

, , , , , , , , , ,

The Big SleepSinopse:

O detective privado Philp Marlowe (Humphrey Bogart), é chamado a casa do doente General Sternwood (Charles Waldron) para que o ajude com um caso de chantagem sobre a filha Carmen (Martha Vickers). Marlowe não só percebe que o anterior homem de confiança do General desapareceu misteriosamente, como suspeita que a filha mais velha do General, Vivian (Lauren Bacall) saiba mais do que conta. Quando o suposto chantagista surge morto em sua casa, Marlowe compreende que tem um enorme novelo por desenlear, onde nenhuma das múltiplas partes interessadas parece ser inocente.

Análise:

Dois anos depois de “Ter ou Não Ter” (To Have and Have Not, 1944), Howard Hawks voltava a juntar Humphrey Bogart e Lauren Bacall. Sem surpresa, as duas sombras sob a passagem dos créditos, e a imagem inicial e final dos dois cigarros a arder juntos num cinzeiro, sugeriam desde logo uma cumplicidade a dois, que seria o motor do filme.

Partindo de uma história do “rei do noir”, Raymond Chandler, temos novamente o mais icónico dos detectives privados americanos, Philip Marlowe, aqui interpretado pelo actor que o definiria para sempre, o inantingível e imperturbável Humphrey Bogart. A história, típica do Noir, começa quando o detective é chamado a tratar de um caso que envolve muito mais que aquilo que é inicialmente declarado. Só a perseverança de Marlowe lhe vai permitindo descascar o mistério, camada a camada, passando de uma chantagem, a um desaparecimento, e vários assassinatos.

Típica do anti-herói Noir, é a sua motivação, que cedo ultrapassa a incumbência inicial, e acaba numa estranha lealdade a um general moribundo, interesse pela sua filha Vivian (Lauren Bacall) e uma curiosidade teimosa que o leva a pisar repetidas vezes a linha do bom senso, com risco da sua própria vida. Obedecendo à dureza do Noir, a história evolui por entre enganos e revelações, onde nem sempre é claro o que motiva o protagonista. Devemos por isso procurar as motivações, nas acções praticadas, e não nas explicações dadas. Esse espartano modo de explicar através da acção, é visível no beijo no carro que, mais que as palavras por eles antes trocadas, nos mostra a relação nascente entre Marlowe e Vivian.

Quase como uma continuação de “Ter ou Não Ter”, Bogart e Bacall desafiam-se e provocam-se a cada frase, num teste às suas intenções, que é também uma linguagem escondida, num perfeito antagonismo daquilo que ambos desejam. Esse desafio, nasce da desconfiança mútua, e termina num jogo que une almas quase gémeas. E é sempre a partir desses encontros em forma de duelo que se nos desvenda sempre mais uma pontinha do véu, permitindo-nos avançar no labirinto de situações e enredos que formam o mistério.

Mais que em “Ter ou Não Ter”, “À Beira do Abismo” abarca por completo a linguagem visual do Noir, o chiaroscuro, o contraluz, os planos rígidos, e uma imensidão de personagens negros onde (um pouco como em “Relíquia Macabra”) ninguém é inocente, e todos jogam as cartas para o seu lado. Tal mostra-nos Marlowe sozinho contra o mundo, não podendo confiar a ninguém, pelo menos até ao momento (a partir do beijo) em que Vivian deixa de ser a mulher fatal anunciada na sua primeira aparição (veja-se o simbolismo da chamada de Marlowe ao seu quarto, numa clara demonstração de poder), e passa a ser a cúmplice, que os cigarros iniciais sugeriam.

Jogando exemplarmente, e apenas com o seu interesse em jogo, Marlowe imita Deus, decidindo destinos (morte de Eddie Mars), quem inocentar (Vivian e Carmen) e que história se conta no final.

O filme foi celebrizado pela acutilância dos diálogos e a sucessão de acontecimentos que lhe tornam o argumento muito complexo de seguir. Alguns dos mistérios por resolver (como a morte de Sean Regan), terão sido deixados encriptados no filme, devido ao Código Hays (seria impossível o filme inocentar Carmen, se fosse ela a culpada). De fora ficaram também a nudez de Carmen, e a relação homossexual entre Geiger e Lundgren.

Destaque para a interpretação de Martha Vickers que compõe uma mimada e alienada Carmen, que acabou por ter cenas cortadas por se sobrepor demasiado à personagem de Lauren Bacall.

No final dos anos 90 a versão original do filme (de 1945) foi finalmente exibida, com menos cenas cortadas que na versão oficial. Em 1978 foi a vez de Robert Mitchum interpretar Marlowe no remake “Sono Derradeiro” (The Big Sleep) de Michael Winner.

Produção:

Título original: The Big Sleep; Produção: Warner Bros. – First National Pictures Inc; Produtor Executivo: Jack L. Warner; País: EUA; Ano: 1946; Duração: 110 minutos; Distribuição: Warner Bros. Pictures Inc.; Estreia: 23 de Agosto de 1946 (EUA), 14 de Janeiro de 1948 (Odeon Palácio, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Howard Hawks; Produção: Howard Hawks; Argumento: William Faulkner, Leigh Brackett e Jules Furthman [baseado no livro de Raymond Chandler]; Música: Max Steiner; Fotografia: Sid Hickox (preto e branco); Montagem: Christian Nyby; Efeitos Especiais: E. Roy Davidson e Warren E. Lynch; Direcção Artística: Carl Jules Veyl; Cenários: Fred M. MacLean; Figurinos: Leah Rhodes; Caracterização: Perc Westmore; Direcção Musical: Leo F. Forbstein.

Elenco:

Humphrey Bogart (Philip Marlowe), Lauren Bacall (Vivian Rutledge), John Ridgely (Eddie Mars), Martha Vickers (Carmen Sternwood), Dorothy Malone (Dona da Livraria Acme), Peggy Knudsen (Mona Mars), Regis Toomey (Inspector Chefe Bernie Ohls), Charles Waldron (General Sternwood), Charles D. Brown (Norris o Mordomo), Bob Steele (Lash Canino), Elisha Cook Jr. (Harry Jones), Louis Jean Heydt (Joe Brody), Agnes Louzier (Sonia Darrin), Tommy Rafferty (Carol Lundgren).