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The Postman Always Rings TwiceSinopse:

Frank Chambers é um homem de espírito nómada, cujos pés nunca o deixam ficar muito tempo no mesmo lugar. Ao aceitar um emprego temporário num restaurante à beira estrada, Frank deixa-se encantar pela beleza de Cora, a mulher do seu patrão Nick Smith. Cedo a atracção entre Frank e Cora começa a ser tanto um escape como uma opressão a que nenhum dos dois sabe dar solução. Quase por brincadeira, ou talvez premeditadamente, ambos brincam com a ideia de ver Nick morrer num qualquer acidente.

Análise:

Um dos mais famosos filmes do período Noir, “O Destino Bate à Porta” nasce de mais uma criação do escritor James M. Cain, o autor de “Pagos a Dobrar” (Double Indemnity, 1944) de Billy Wilder, e “Alma em Suplício (Mildred Pierce, 1945) de Michael Curtiz. Embora Cain não tivesse gostado das alterações, nas mãos de Tay Garnett “O Destino Bate à Porta” tornou-se um clássico.

O filme é uma história paradigmática de crime, paixão e destino, em que a mulher presa num casamento que não deseja, convence o amante a livrar-se do esposo. Esta história quase tão velha como o mundo, era já uma repetição do tema exposto no citado “Pagos a Dobrar”, e o mesmo livro tinha já sido filmado em França em 1942 como “Le Dernier Tournant” de Jean Wiener, e em Itália por Luchino Visconti como “Obsessão” (Ossessione, 1943), uma das pérolas do Neo-realismo italiano.

Mas onde no anterior filme de Billy Wilder o tom é de desconfiança e duelo entre os dois perpretadores, em “O Destino Bate à Porta”, a cumplicidade une-os, e é a moral e a justiça quem os persegue quando menos esperam, em jeito de tragédia grega.

O filme, rico em simbolismo e detalhe, é brilhante desde a primeira imagem, um anúncio de “Homem precisa-se” exposto ao vento. De reparar que o anúncio não diz “Empregado precisa-se” ou “Ajuda precisa-se”, como seria mais natural, mas mostra a palavra “Homem” a dar o mote para o que se segue. E este homem é Frank (John Garfield), um simpático e descontraído viajante, que vai esquecer tudo o que o move (a tal inexplicável coceira nos pés) quando vê pela primeira vês a loura Cora (Lana Turner).

A aparição de Cora é sublime. Se o Film Noir amiúde opta por nos apresentar a mulher fatal numa posição superior, aqui ela está ao mesmo nível de Frank, mas ao vê-la primeiro a partir dos seus pés, tendo de subir aos poucos dessa posição inferior até a ver por completo, é Frank (e nós) quem tem de de olhar para cim. O pretexto é um batom que rola pelo chão, simbolo de feminilidade é certo, mas também com o seu quê de fálico, deixando desde logo antever a dualidade presente no casal. Essa mesma cena repetir-se-á quase no final, aquando do acidente. Nele fecha-se um ciclo em que o batom é a primeira e a última coisa que nós, e Frank, vemos de Cora.

Se os incidentes da história não se destacam particularmente, o mesmo não se pode dizer da tensão entre Frank e Cora, um incrível e intenso jogo de gato e de rato, de querer e não querer, de fazer e não fazer, como poucas vezes foi filmado. Este passa-se sempre nas costas do inocente e afável Nick (Cecil Kellaway), cujo “crime” é ser incapaz de corresponder à sexualidade da esposa, condenando-a a uma morte em vida, e por isso merecendo a morte.

Lana Turner é inesquecível no papel mais famoso da sua carreira. A sua Cora é uma mulher fatal profunda, cheia de ambiguidades, com um passado que procura esquecer, e um presente de que quer fugir. Cora mostra complacência quer por Nick quer por Frank. Teme, sofre, e por isso demora a decidir-se, demora a confiar, e demora a aceitar os frutos do seu golpe.

Já Frank, o cúmplice, querendo inicialmente fazer apenas o que é correcto, acaba por fazer apenas “o que tem de ser feito”, numa amoralidade que o arrasta, sem domínio dos acontecimentos. Essa desorientação fica bem demonstrada na falta de confiança em Cora, no desejo de reabilitação aos olhos desta, e no seu desespero final frente ao padre, onde procura a todo o custo obter perdão e compreensão de todos, dos vivos, dos mortos e de Deus.

Começando com um brilho pouco usual no Film Noir, Tay Garnett vai enegrecendo o filme com o evoluir dos objectivos de Frank e Cora. De antologia é a cena em que Frank e Cora dançam a pedido de Nick, numa penumbra apenas iluminada pelo novo neon que eles celebram. Assim como o são as cenas do tribunal e hospital, quase sempre com sombras desenhando-se como grades por detrás de Frank e Cora.

O argumento é rebuscado e tortuoso para os protagonistas, enganando-nos com a primeira sentença, e dando-lhes uma sensação de triunfo, apenas para os fazer cair ainda mais fundo. Como o proverbial carteiro, eles vêem a tentativa de assassinato resultar só à segunda vez, tal como só à segunda serão condenados (pela justiça e pelo destino). No final lembramo-nos do adágio “Deus escreve direito por linhas tortas”, e impressiona ver como Frank, em desespero, implora para não ser condenado pelo crime errado, mas aceita, como uma redenção, sê-lo pelo certo. A moralidade e justiça final impõem-se trazendo a paz que a paixão e o crime tinham levado.

O filme originaria um remake famoso de Bob Rafelson “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes” (The Postman Always Rings Twice, 1981), com Jessica Lange e Jack Nicholson nos principais papéis.

Produção:

Título original: The Postman Always Rings Twice; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1946; Duração: 112 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 2 de Maio de 1946 (EUA), 20 de Julho de 1947 (Cinema, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Tay Garnett; Produção: Carey Wilson; Argumento: Harry Ruskin e Niven Busch [baseado no livro de James M. Cain]; Fotografia: Sidney Wagner (preto e branco); Montagem: George White; Música: George Bassman; Orquestração: Ted Duncan; Direcção Artística: Cedric Gibbons e Randall Duell; Cenários: Edwin B. Willis; Figurinos: Irene; Caracterização: Jack Dawn.

Elenco:

Lana Turner (Cora Smith), John Garfield (Frank Chambers), Cecil Kellaway (Nick Smith), Hume Cronyn (Arthur Keats), Leon Ames (Kyle Sackett), Audrey Totter (Madge Gorland), Alan Reed (Ezra Liam Kennedy), Jeff York (Blair).