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GildaSinopse:

Johnny Farrell (Glenn Ford), um profissional do jogo clandestino, é salvo por Ballin Mundson (George Macready), quando era atacado depois de uma noite de sorte ao jogo entre marinheiros na Argentina. Mais tarde, procurando um novo casino, Johnny descobre que o dono é Ballin que, reconhecendo-lhe um faro especial para o jogo, o convida para trabalhar para si, gerindo o casino.

Tudo vai bem na parceria, até Ballin, após um período de férias, surgir na companhia da sua nova esposa, a deslumbrante Gilda (Rita Hayworth). Quem não fica contente com esta nova adição ao círculo de confiança é Johnny, pois afinal ele e Gilda são velhos amantes de uma relação com um final mal resolvido.

Se por um lado Johnny é fiel ao seu patrão, e protege-o das indiscrições causadas pelas escapadelas nocturnas de Gilda, por outro sabe ser ele o alvo do comportamento dela. Paixões e ciúmes ditarão daí em diante as relações de confiança que comandam os negócios obscuros de Ballin.

Análise:

“Gilda” é, tal como “Laura”, de Otto Preminger (1944), um filme cujo título é um simples nome de mulher. Tal como em “Laura” a mulher não está presente no início do filme, mas domina-o da primeira à última cena, ainda que em “Gilda” nem sempre o saibamos (mas é para esquecer Gilda que Johnny acaba no jogo na Argentina), e é a sua existência, mais que os seus motivos ou actos, que guia todos os acontecimentos.

Onde Laura exercia um fascínio pela sua personalidade, humanidade e inteligência, a Gilda de Rita Hayworth domina pelo seu magnetismo sexual, pela sua sensualidade, pelo desejo visceral que provoca em todos os que a conhecem. Nesse sentido Gilda é uma típica mulher fatal, e a forma como desafia Johnny (Glenn Ford) é reveladora da relação de poder da mulher fatal sobre o homem que a deseja.

Mas se Gilda é o motor história, é Johnny quem a conduz. Inicialmente numa relação de submissão ao homem que lhe paga e lhe permite lucrar num negócio ilícito, Johnny passa à vigilância daquela que ele trata como (e tenta não considerar mais do que) propriedade do patrão, terminando por assumir ele próprio essa propriedade, de um modo frio e cruel, como extrema humilhação e meio para atingir o fim financeiro.

“Gilda” é também uma relação perversa entre três pessoas, num estranho triângulo, ditado por lealdades e traições que tornam dinheiro e amor duas faces de uma mesma moeda. De notar como facilmente Ballin (George Macready) confia todos os seus segredos a Johnny (que se lhe submete numa relação sexualmente demasiado ambígua), e como facilmente desconfia de cada movimento da esposa Gilda. A chegada de Gilda é o início de um segundo triângulo, quando o primeiro era composto por Ballin, Johnny e a arma que Balllin insiste em chamar o seu “pequeno amigo”. Este amigo (um espigão aguçado no final da sua bengala) tem características demasiado fálicas para tal ser um deslize inocente. Curiosamente foi ele que salvou Johnny, e é nele que Ballin confia acima de tudo.

Se esse “pequeno amigo” é a virilidade escondida de Ballin, Johnny é a sua coragem e paixão. Pode-se dizer que Johnny é o lado animal de Ballin, a paixão escondida por Gilda, que Ballin não consegue expressar, embora proclame amiúde. Mais que o amor, é o ódio que o aquece, e é pelo ódio que Johnny e Gilda se ligam.

Mas Johnny torna-se Ballin, tanto substituindo-o como adquirindo a sua frieza. Ambos são alvo das tentações de Gilda. Esta despreza o marido que não lhe mostra calor, e humilha-o nas suas aventuras, que são ao mesmo tempo uma provocação a Johnny, o alvo do seu desejo, e cuja arma é não se mostrar afectado. Sabemos nós o quanto Gilda afecta Johnny, e o quanto ele luta para que tal não aconteça. Nenhuma cena o ilustra tanto quanto aquelas em que Johnny vê Gilda cantar, e que tanto ajudaram ao mito de Rita Hayworth.

Mas no final a redenção chega (o Código Hays assim impunha) exactamente a partir da conduta reprovável tanto de Gilda como de Johnny “Não é maravilhoso? Nenhum de nós tem de pedir perdão, porque fomos ambos horríveis”. Sem redenção fica Ballin, o único a enganar os outros dois outros lados do triângulo, com a sua falsa morte, pela qual deve pagar.

A narração de Glenn Ford, dá-nos o seu personagem como o anti-herói típico do Noir. Também típicos são os diálogos cortantes, e as as belíssimas sequências quase estilizadas de formas geométricas (veja-se o quanto as escadarias são usadas, e as persianas a ligação entre dois níveis de poder). Sombra e luz são jogadas magistralmente, incluíndo imensas cenas em que um dos personagens surge num completo contraluz.

O filme foi principalmente um veículo para Rita Hayworth que, com Gilda, compôs uma das mulheres fatais mais emblemáticas do cinema.

Produção:

Título original: Gilda; Produção: Columbia Pictures Corporation; País: EUA; Ano: 1946; Duração: 106 minutos; Distribuição: Columbia Pictures; Estreia: 14 de Fevereiro de 1946 (EUA), 27 de Março de 1948 (Cinema Condes, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Charles Vidor; Produção: Virginia Van Upp; Argumento: Marion Parsonet, segundo uma história de E.A. Ellington, adaptada por Jo Eisinger; Fotografia: Rudolf Maté (preto e branco); Montagem: Charles Nelson; Direcção Artística: Stephen Goossón e Van Best Polglase; Cenários: Robert Priestley; Figurinos: Jean Louis; Caracterização: Clay Campbell; Direcção Musical: M.W. Stoloff e Marlin Skiles.

Elenco:

Rita Hayworth (Gilda), Glenn Ford (Johnny Farrell), George Macready (Ballin Mundson), Joseph Calleia (Detective Maurice Obregon), Steven Geray (Uncle Pio), Joe Sawyer (Casey), Gerald Mohr (Capitão Delgado), Robert Scott [Mark Roberts] (Gabe Evans), Ludwig Donath (Membro do Cartel Alemão), Don Douglas [Donald Douglas] (Thomas Langford).