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Stardust MemoriesUm ano depois do aclamado “Manhattan”, Woody Allen voltou a filmar, a preto e branco (novamente a fotografia de Gordon Willis), uma história centrada num personagem que parece mais uma vez ser ele próprio. Desta vez sem uma leading lady destacada (Diane Keaton não filmaria mais com ele por alguns anos, e Mia Farrow estrear-se-ia no filme seguinte), Allen distibuiu os papéis femininos dos seus interesses amorosos pelas actrizes Charlotte Rampling, Marie-Christine Barrault e Jessica Harper (esta uma repetente).

Para muitos tratando-se de uma cópia de “Otto e Mezzo” de Fellini, este seria o último filme de Allen para United Artists, e um fracasso de bilheteira, marcando o início do declínio da sua popularidade nos Estados Unidos.

Sinopse:

Sandy Bates (Woody Allen) é um realizador que luta por mudar de caminho, após ganhar a fama como realizador de comédias. Tal leva-o ao conflito com os seus produtores, que não compreendem a sua necessidade de se tornar sério e negro, acusando-o de pretensiosismo.

Quando é convidado a participar num festival em sua homenagem no hotel Stardust, Sandy, faz uma análise da sua carreira, da sua vida sentimental, e daquilo que é importante para si. Através dessa análise, das experiências vividas no hotel, e do contacto com fãs, organizadores, e toda uma legião de pessoas que circula à sua volta, Sandy vai tentar encontrar um novo equilíbrio e motivação para os seus filmes seguintes.

Análise:

Após “Manhattan” repetir o êxito de “Annie Hall”, tornando-se estes dois filmes, para os críticos, o paradigma do filme Alleniano, “Recordações” surgiu como uma reacção a “Manhattan” como “Intimidade” o tinha sido em relação a “Annie Hall”. Se em “Intimidade” Allen homenageava (ou tentava emular) um dos seus ídolos, Ingmar Bergman, em “Recordações” chegava a vez da homenagem a Federico Fellini. Note-se aliás que ambos os realizadores europeus tinham já sido citados por Allen em outros dos seus filmes.

“Recordações” traz-nos por isso o Fellini de “A Doce Vida” (La Dolce Vita, 1960), de “Amarcord” (1970), e principalmente de “Oito e Meio” (Otto e Mezzo, 1963). Tal como em “Oito e Meio” o personagem de Marcello Mastroiani é um realizador a braços com um bloqueio que o impede de chegar ao seu nono filme, também em “Recordações” Sandy (Woody Allen) é um realizador, que vive um bloqueio, que no seu caso é externo, já que o seu estúdio não quer que ele deixe de produzir filmes cómicos.

Tal como Fellini fizera em “Oito e Meio”, Allen constrói o seu “Recordações” como uma série desligada de sequências de carácter onírico, e por vezes delirante e surreal. Embora exista narrativamente um tema central – a estadia no hotel Stardust, para assistir a um festival em sua homenagem – tudo o resto torna-nos difícil decifrar o que é ou não real. Não só as cenas nos surgem sem princípio nem fim aparente, como misturam o passado com Dorrie (Charlotte Rampling) com o presente com Isobel (Marie-Christine Barrault) e Daisy, (Jessica Harper). Os personagens entram e saem de campo consoante são produzidos pelos pensamentos de Sandy, e cenas de fantasia convivem com naturalidade com a realidade. Desse modo, por exemplo, Sandy vê-se como criança a fazer truques de magia, fala com extraterrestres, e leva um tiro.

Se mais exemplos sobre a semelhança entre “Recordações” e “Oito e Meio” fossem precisos, bastaria a sequência de abertura. Com Fellini o filme mostra-nos Mastroiani preso no trânsito, sentindo-se sufocar. Com Allen, Sandy está preso num comboio do qual quer sair por ver na carruagem do lado mais alegria que na sua, e uma bela mulher (uma jovem Sharon Stone) que lhe sopra um beijo. Nessa motivação mais prosaica, Allen homenageia e satiriza Fellini, bem ao seu estilo, ao mesmo tempo que parece dizer que não se sente bem na tristeza que vê à sua volta (e que quer filmar). É o seu o velho paradoxo de não se sentir bem num clube para o qual foi aceite. É isso afinal o que o faz recusar o sucesso e procurar novos caminhos.

Adicione-se ainda a fotografia a preto e branco, as paisagens profundas e áridas, o carácter circense de algumas cenas e músicas, o desfilar de rostos (geralmente em grande plano) bizarros e incomodativos, e temos muito do universo de Fellini transferido para “Recordações”.

A construção em formato livre da narrativa foi sem dúvida decisiva para que Allen perdesse muitos dos seus fãs. São esses mesmo (no filme ridículos e ignorantes) que ele parece satirizar com a recorrente frase “I like your movies, particulary the early funny ones”. O autor não se tem cansado de repetir que o filme não tem nada de autobiográfico, nem essa postura foi uma sátira aos seus fãs. Mas o que dizer quando o ponto em que a sua carreira se encontrava parece um decalque da de Sandy? Usar o amigo Tony Roberts como amigo de Sandy, e o produtor Jack Rollins no papel de seu produtor reforça ainda mais esse decalque, que por mais que Allen insista não ser propositado, não pode ser uma inteira coincidência.

Mas “Recordações” é mais que um grito de protesto contra uma indústria que o tenta amarrar, e que Allen satiriza em quase cada linha de diálogo. É antes de mais uma pausa para respirar, e o procurar de um caminho, num momento de insegurança quanto ao seu papel criativo, quando se sente impotente para trazer algo de bom ao mundo. E o Sandy de Allen faz isso tanto literalmente, no retiro no hotel Stardust, como interiormente, revendo as suas neuroses, expondo-as, e tentando exorcizá-las nessa partilha. Surge-nos por isso a sua eterna questão sobre a imortalidade, o sentido da sua existência e obra quando tudo está destinado a perecer. Surge principalmente a busca por um sentido da vida, que Sandy/Allen questiona nos diversos diálogos e ocorrências que vive.

“Recordações” é ainda, talvez, o mais egocêntrico dos filmes de Allen até ao momento. Embora vejamos Sandy em três relações amorosas, não são elas que definem o filme, nem este se preocupa em defini-las. Da bipolar, mas fascinante Dorrie (Charlotte Rampling), à madura e constante Isobel (Marie-Christine Barrault) terminando na enigmática e por isso refrescante Daisy (Jessica Harper), elas surgem apenas como facetas da vida de Sandy, que o ajudam a caracterizar. Mas é única e exclusivamente sobre Sandy que o filme se centra, e desse ponto de vista, todas as cenas são peças do seu interior, um olhar para a sua mente, por isso mesmo caótico e enigmático, mais uma vez, tal como “Oito e Meio” o era sobre a mente do personagem de Mastroiani.

Constantemente em conflito com os críticos, produtores e fãs que lhe pedem comédia, quando Sandy precisa de canalizar a sua tristeza, é curioso como Allen usa a comédia como fuga, quase que negando com palavras, o que pretende dizer com os seus filmes. Daí que a resposta ao seu dilema lhe surja dos seres alienígenas que lhe pedem apenas que conte piadas melhores. Essa fuga é quase literal, quando os fãs (que Sandy hostiliza e repele) não lhe dão um minuto de sossego, pedindo mais um autógrafo, querendo mais uma fotografia com ele, ou dando dicas gratuitas e descabidas, interrompendo-o nos seus momentos mais privados, ou até o alvejam à queima roupa. É o peso do mundo, a incapacidade de o gerir, e o não se sentir merecedor, que incomoda Sandy, e o sufoca.

Mas é por entre esse turbilhão, que Sandy faz as pazes consigo próprio, simbolizado pelo final feliz que decreta ao seu filme. Tal sentido (que tem tudo a ver com a filosofia de Woody Allen) é-nos mostrado num simples momento de perfeição em que Sandy, depois de um dia bonito, ouvindo a sua música preferida, vê Dorrie à sua frente, numa verdadeira cena de paixão entre a câmara e Charlotte Rampling, de uma beleza e simplicidade comoventes.

Feitas as pazes, no final personagens do filme de Allen e do filme de Sandy cruzam-se sem sabermos mais quem é quem. Arte e vida entrecruzam-se, e não nos é mais possível acreditar que Sandy não seja Allen.

Woody Allen considera “Recordações” um dos poucos filmes em que conseguiu transmitir exactamente o que pretendia. Por isso, do seu ponto de vista pessoal é um dos seus filmes mais bem sucedidos.

Produção:

Título original: Stardust Memories; Produção: Jack Rollins-Charles H. Joffe Productions; Produtores Executivos: Jack Rollins, Charles H. Joffe; País: EUA; Ano: 1980; Duração: 89 minutos; Distribuição: United Artists Corporation, Inc.; Estreia: 26 de Setembro de 1980 (EUA), 19 de Dezembro de 1980 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Robert Greenhut; Argumento: Woody Allen; Montagem: Susan E. Morse; Direcção Artística: Mel Bourne, Michael Molly; Figurinos: Santo Loquasto; Fotografia: Gordon Willis (preto e branco); Cenários: Steve Jordan; Caracterização: Fern Buchner.

Elenco:

Woody Allen (Sandy Bates), Charlotte Rampling (Dorrie), Jessica Harper (Daisy), Marie-Christine Barrault (Isobel), Tony Roberts (Tony), Daniel Stern (Actor), Amy Wright (Shelley, groupie de Sandy), Helen Hanft (Vivian Orkin), John Rothman (Jack Abel), Anne De Salvo (Irmã de Sandy), Joan Neuman (Mãe de Sandy), Ken Chapin (Pai de Sandy), Leonardo Cimino (Analista de Sandy), Eli Mintz (Velho), Bob Maroff (Jerry Abraham), Gabrielle Strasun (Charlotte Ames), David Lipman (George, Chauffeur de Sandy), Robert Munk (Sandy criança), Jaqui Safra (Sam), Sharon Stone (Rapariga no Comboio), Andy Albeck (Executivo do Estúdio), Robert Friedman (Executivo do Estúdio), Douglas Ireland (Executivo do Estúdio), Jack Rollins (Executivo do Estúdio), Howard Kissel (Agente de Sandy), Max Leavitt (Médico de Sandy), Renée Lippin (Relações Públicas de Sandy), Sol Lomita (Contabilisata de Sandy), Irving Metzman (Advogado de Sandy), Dorothy Leon (Cozinheira de Sandy), Roy Brocksmith (Dick Lobel), Simon Newey (Mr. Payson), Victoria Zussin (Mrs. Payson), Frances Pole (Libby).

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