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Un Chien AndalouUm homem afia uma lâmina e corta o olho de uma mulher, imitando uma nuvem que ao passar em frente à lua a parece cortar em duas.

Um homem, vestido com peças de roupa de freira e uma caixa ao peito cai da bicicleta, na estrada, permanecendo imóvel. A mulher leva-o para casa, dispondo sobre a cama peças de roupa, que retira da caixa que ele trazia ao peito. O homem observa a sua mão cheia de formigas. A imagem mostra a nuvem de formigas tornar-se a axila peluda da mulher, e depois um ouriço. Da sua janela o casal vê uma jovem andrógina a mexer com um pau numa mão cortada, caída na estrada, perante o olhar dos transeuntes. Esta mão é posta numa caixa por polícia e dada ao jovem, que é atropelado por um carro.

Em casa, o homem torna-se agressivo com a mulher, apalpando-a sobre a roupa e imaginando-a nua. Esta foge, e ele persegue-a carregando consigo as tábuas dos dez mandamentos, dois seminaristas e dois pianos com um burro morto em cima. A mulher foge e com a porta entala-lhe a mão, a qual está cheia de formigas.

Na cama as roupas antes dispostas dão lugar ao homem. Surge um segundo homem, que lhe arranca as peças de roupa de freira e as atira para a rua, mandando-o depois ficar virado para a parede. O segundo homem releva-se como sendo o primeiro, e dá-lhe de seguida dois livros. Estes tornam-se pistolas e o primeiro homem mata o segundo com elas. O corpo morto cai em cima de uma mulher nua, no campo, onde é descoberto e levado em cortejo.

Em casa a mulher vê, na parede, uma traça com uma caveira desenhada. Vê depois o homem, sem boca, e ao pintar os lábios a mulher vê os pêlos das suas axilas desaparecer e surgir a cobrir a boca do homem. Ela deita-lhe a língua de fora e sai, encontrando-se na praia com outro homem que a esperava e a repreende pelo atraso. Beijam-se e caminham à beira mar, encontrando as roupas e caixa antes atiradas fora.

Como última cena vemos o casal enterrado na areia até ao peito.

Análise:

“Um Cão Andaluz” foi o primeiro filme Luis Buñuel, então um entusiasta do movimento avant-garde parisiense. A ideia terá nascido das suas conversas com Salvador Dalí, e da vontade de ambos em filmar uma história feita de imagens retiradas de sonhos. A sua regra principal seria: não incluir ideias ou imagens que pudessem ter explicação racional, aceitar apenas o que os impressionasse, sem saber porquê.

Por essa razão nada no filme tenta simbolizar coisa nenhuma. As associações são livres e desprovidas de racionalidade, procurando apenas expressar uma livre associação retirada do subconsciente humano, a que apenas se possa chegar através de psicanálise.

Há, ainda assim, alguns pontos que podem ser notados como ideias recorrentes durante o filme. Temos o confronto masculino-feminino com evidentes referências à sexualidade; o constante uso da violência (cortar do olho, acidentes de viação, morte por tiros, as várias perseguições e abusos da mulher); o repetir da imagem das mãos cheias de formigas (formigas nas mãos é uma metáfora francesa para vontade de matar); e o motivo das riscas que se vê na caixa que frequentemente surge, e na gravata do homem. Quanto à sequência do arrastar dos objectos presos a cordas poderá indicar as prisões convencionais que reprimem os desejos mais secretos, o que é afinal um tema comum no surrealismo. Em todos os exemplos o constante conflito entre o desejo e a probição.

Diz-se que Buñuel e Dalí foram para a estreia com pedras nos bolsos para se defenderem dos ataques que esperavam receber. Para seu espanto o filme foi aplaudido, o que os indignou, pois sentiam que as pessoas aplaudiam o que era novo apenas para se sentirem intelectuais, sem perceber que o filme as insultava e provocava. O filme ficou em exibição durante oito meses.

De facto também Breton e os surrealistas elogiaram o filme, chamando Buñuel e Dalí ao seu seio, e proclamando “Um Cão Andaluz” como o paradigma do cinema surrealista. Por essa razão é ainda hoje visto como uma influência maior sobre todo cinema que faz uso do surrealismo.

O filme alterna música de Wagner (excertos da ópera “Tristão e Isolda”) com tangos argentinos. Tais músicas foram tocadas num gramofone operado pelo próprio Buñuel na noite de estreia, tendo esta banda sonora sido incluída na película sob sua supervisão em 1960.

Produção:

Título original: Un Chien Andalou; País: França; Ano: 1929; Duração: 17 minutos; Distribuição: Les Grands Films Classiques; Estreia: 6 de Junho de 1929 (França).

Equipa técnica:

Realização: Luis Buñuel, Salvador Dalí; Produção: Luis Buñuel, Pierre Braunberger; Argumento: Luis Buñuel, Salvador Dalí; Música: Richard Wagner; Fotografia: Albert Duverger; Montagem: Luis Buñuel; Direcção Artística: Luis Buñuel.

Elenco:

Simonne Mareuil (Mulher), Pierre Batchef (Homem), Luis Buñuel (Homem com a lâmina), Salvador Dalí (Seminarista), Marval (Seminarista), Jaime Miravilles (Seminarista gordo), Robert Hommet (Jovem), Fano Messan (Jovem andrógina).