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Mildred PierceSinopse:

Ao ser morto à queima roupa, Monte Beragon (Zachary Scott) apenas tem tempo de murmurar o nome “Mildred”, a sua esposa (Joan Crawford).

Na esquadra da polícia, Bert Pierce (Bruce Bennett) o primeiro marido de Mildred confessa o crime, perante a incredulidade desta, ela própria suspeita. Mildred é interrogada, e conta a história da sua vida desde o momento em que decidiu separar-se de Bert, e como, do nada, com a ajuda do amigo e pretendente Wally Fay (Jack Carson), se tornou uma mulher de negócios, dona de uma cadeia de restaurantes, como começou a frequentar a alta sociedade pelas mãos do galã Monte Beragon, e viu a sua vida e a da sua filha Veda (Ann Blyth) transformar-se mais do que adivinharia… ou até gostaria.

Análise:

A partir de uma história de James M. Cain, o autor de “Pagos a Dobrar” (Double Indemnity, 1944), Michael Curtiz (o realizador do célebre “Casablanca” de 1942), traz-nos um drama de ambição, crime e tragédia, contado na primeira pessoa.

Seguindo o padrão normal dos Noir, um crime é a motivação para a história, o assassinato do playboy Monte Beragon (interpretado com segurança por Zachary Scott), na casa de praia de Mildred Pierce. E é o nome dela que ele balbucia no momento da morte, sem testemunhas, apenas para nós ouvirmos, relembrando um pouco a cena inicial de “Um Mundo a seus Pés” (Citizen Kane, 1942) de Orson Welles, e obrigando-nos a pensar que Mildred é a criminosa.

Com base nesse pressuposto, e na pose de mulher fatal do início do filme, assistimos ao desenrolar da história contada em flashback (como não podia deixar de ser), em voz off, pela própria Mildred. Joan Crawford, saída da MGM para a Warner, tornava a reinventar-se (algo que fez várias vezes na sua carreira) com uma versatilidade e potência, que lhe valeriam o Oscar de melhor actriz, numa interpretação absolutamente perfeita. Não espanta por isso que Joan Crawford leve o filme nas suas mãos, isto é, na sua narração. As suas pausas e acelerações cortam-nos a respiração e aceleram-nos o ritmo cardíaco, prendendo-nos até ao limite.

Bastam breves minutos para estarmos presos a essa mulher que de um dia para o outro se vê com um marido desempregado, que incapaz de fazer face às necessidades da família decide sair de casa. Vemos então toda a força interior insuspeitada na mulher que tem que engolir o orgulho e colocar as filhas em primeiro lugar, trabalhando como empregada de mesa. E é pelas filhas (sobretudo pela exigente, snob e irritante Veda) que Mildred trabalha, pois tenta compensá-la com luxo pela falta afecto de um lar desfeito. Todas as opções que toma são pela filha, todos os erros que comete são para a satisfazer (incluindo um casamento sem amor).

E é aqui que o filme se separa do convencional Noir, já que o protagonista não é um anti-herói feito de cinismo. Mildred Pierce é a mais humana e bondosa das pessoas. O negro, a decadência e o cinismo na sua vida vêm de fora. Eles vêm do primeiro marido (Bruce Bennett) que a trai ao abandoná-la num momento difícil, vêm do amigo cínico (Jack Carson) que vê em tudo uma oportunidade para lhe fazer a corte; vêm do sócio e futuro marido (Zachary Scott) que vive uma vida de aparência; não se coibindo em explorar financeiramente a esposa que no fundo despreza; e vêm essencialmente da filha Veda (a jovem Ann Blyth convence-nos pela mesquinhez e falta de compaixão com que compõe Veda), que suga o que pode à sua mãe, não deixando de se envergonhar dela.

Quem matou Monte Beragon torna-se portanto secundário (afinal a polícia sabe a verdade desde o início). O verdadeiro crime que desvendamos é a vida de subjugação de Mildred, que luta contra tudo para agradar à filha, e manter a boa vida do marido, sendo constantemente espezinhada por ambos.

Michael Curtiz consegue aqui, com uma realização notável, e uma fotografia rica, onde as alternâncias entre o negro e o luminoso são uma narrativa por si só, um drama forte, e cheio de emoção, que lhe valeria uma mão cheia de nomeações para os Oscars da Academia, incluíndo a de melhor filme. A título de exemplo veja-se quão notável é a sequência em que Wally descobre o corpo de Monte, com a tensão a aumentar construída numa corrida labiríntica, feita de sombras, escadas circulares, em que a sombra do próprio Wally parece ser mais protagonista que ele próprio, numa verdadeira homenagem ao expressionismo alemão.

Destaque final para Ida Corwin, que no papel da amiga de Mildred, traz ao filme a agudez de diálogo típica do Noir, que lhe valeria (tal como a Ann Blyth) uma nomeação para Oscar de melhor actriz secundária.

Produção:

Título original: Mildred Pierce; Produção: Warner Bros. – First National Pictures; Produtor Executivo: Jack L. Warner; País: EUA; Ano: 1945; Duração: 111 minutos; Distribuição: Warner Bros. Pictures; Estreia: 24 de Setembro de 1945 (EUA), 2 de Dezembro de 1946 (Cinema Tivoli, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Michael Curtiz; Produção: Jerry Wald; Argumento: Ronald MacDougall [baseado no livro de James M. Cain]; Música: Max Steiner; Fotografia: Ernest Haller (preto e branco); Montagem: David Weistbart; Direcção Artística: Anton Grot; Cenários: George James Hopkins; Efeitos Especiais: Willard van Enger; Figurinos: Milo Anderson; Caracterização: Perc Westmore; Arranjos Orquestrais: Hugo Friedhofer; Direcção Musical: Leo F. Forbstein.

Elenco:

Joan Crawford (Mildred Pierce), Jack Carson (Wally Fay), Zachary Scott (Monte Beragon), Eve Arden (Ida Corwin), Ann Blyth (Veda Pierce), Bruce Bennett (Bert Pierce), Lee Patrick (Mrs. Maggie Biederhof), Moroni Olsen (Inspector Peterson), Veda Ann Borg (Miriam Ellis), Jo Ann Marlowe (Kay Pierce).