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ManhattanDepois do passo ao lado que foi “Intimidade”, Woody Allen filmou aquele que é, nalguns aspectos, o sucessor de “Annie Hall”. Produto de uma nova colaboração com o argumentista Marshall Brickman, o filme trazia a novidade de ser filmado a preto e branco, para assim realçar o romantismo da sua cidade de sempre: Manhattan.

Woody Allen voltava a interpretar, no seu papel de pequeno génio neurótico, aqui secundado por Diane Keaton (no seu último filme com Allen durante algum tempo), Mariel Hemingway, Michael Murphy e, num pequeno papel, Meryl Streep.

Sinopse:

Isaac (Woody Allen) é um escritor de material para comédias televisivas que sonha escrever um livro. Às costas traz dois casamentos falhados, que segundo os amigos o impedem de ver futuro na sua relação com a doce Marcy (Mariel Hemingway), uma estudante de dezassete anos.

Quando o amigo Yale (Michael Murphy) lhe apresenta a amante Mary (Diane Keaton), Isaac começa a deixar-se fascinar pela ideia de um romance com uma mulher mais complexa e madura.

Entre a doçura de Tracy, cuja relação o faz sentir culpado, e o risco de Mary, a quem tenta trazer alguma confiança e segurança, Isaac terá de aprender com as escolhas difíceis que tem pela frente.

Análise:

Depois dos resultados ambivalentes de “Intimidade”, seria natural que Woody Allen quisesse voltar a território conhecido. Por isso há quem veja em “Manhattan” uma continuação de “Annie Hall”. A tal não será alheia a nova colaboração com Marshall Brickman na escrita do argumento, trazendo ao filme algumas das características de “Annie Hall”, tais como a história de relações falhadas, e a experiência da vulnerabilidade de um novo amor e, claro, novamente a ideia de se tratar de uma obra com forte conteúdo autobiográfico.

Tal como em “Annie Hall” temos um filme agri-doce onde o drama das relações humanas é condimentado pelo humor de Allen, presente nos seus famosos aforismos, e uma ou outra situação caricata. Mas aqui esse humor está menos presente que no filme de 1977, e a atmosfera geral é mais pessimista. Isaac (Woody Allen) é de certo modo parecido com Alvy de “Annie Hall”, neurótico, perdido, idealista, cobarde, tentando criar a mulher dos seus sonhos, e não aceitando nunca o que a vida lhe traz, e refugiando-se na retórica racionalização com que esconde as suas limitações. Por outro lado Mary (Diane Keaton) é diferente de Annie, mais calculista, intelectual e determinada, por isso mesmo menos capaz de atrair a nossa simpatia.

Quase que para tirar da frente aquilo que o remete para filmes anteriores, Allen despacha brevemente alguns dos seus clichès. Usa uma discussão com Mary para criticar o pseudo-intectualismo, uma explosão no estúdio onde trabalha, para nos dar a sua visão sobre o mundo falso da televisão, e uma leitura do livro da ex-mulher Jill (Meryl Streep) para descrever algumas das suas próprias neuroses e defeitos de uma forma directa e brutal.

Mas “Manhattan” é mais que uma história, e a característica que mais o destaca da obra de Woody Allen de até então, é o cuidado visual com que é filmado. De facto, desde as imagens de abertura se percebe que “Manhattan” é um ode à cidade, acompanhado da música de Gershwin. Numa atitude que repete “Annie Hall”, o filme começa com um monólogo. Sob o pretexto de um conjunto de introduções ao seu novo livro, Isaac (que ainda não nos foi apresentado, sendo para nós apenas Woody Allen), apresenta as diversas visões que tem sobre Nova Iorque, das mais cerebrais às mais lamechas, das intelectuais às humanas, das mais forçadas às mais sinceras.

Dado o mote, o filme inicia-se como uma série de postais ilustrados de Nova Iorque (algo que seria repetido mais tarde na fase europeia de Allen), e não é difícil abstrairmo-nos da história para nos perdermos na beleza de cada plano. E é aí que “Intimidade” regressa. Na forma como cada plano é composto, como os personagens surgem fora de campo, como os interiores se nos mostram como que ofuscando os personagens, que às vezes se limitam a encher um pequeno canto do plano.

“Manhattan” destacar-se-ia para sempre pela magnífica fotografia de Gordon Willis, que filma as sombras com uma incrível beleza (a sequência do planetário é disso exemplo), lembrando-nos algumas das qualidades do Film Noir.

“Manhattan” é ainda, e também por isso mesmo, uma luta entre o racional e o emocional, tantas vezes repetida por Isaac. Racionalmente Isaac escolhe a mulher da sua idade, sobre aquela que o faz verdadeiramente feliz. Racionalmente Mary teoriza sobre tudo não deixando que seja o coração a dominá-la. Racionalmente Tracy (Mariel Hemingway) escolhe a sua carreira sobre uma relação em que já não pode mais confiar. A razão domina a emoção, deixando-nos em aberto se tal é para o melhor ou para o pior.

Numa história onde tudo passa, tudo se transforma, e tudo se parece perder, Woody Allen parece dizer-nos que quando tudo o resto lhe foge, tem sempre Manhattan, e a música de Gershwin, que ilumina todo o filme. Curiosa é a linha final do filme em que, num conselho que parece transcender o ecrã, Tracy diz a Isaac (Allen num dos momentos mais fragilmente humanos da sua carreira) que tem de começar a confiar mais nas pessoas.

O filme foi nomeado para os Oscars de melhor actriz secundária (Hemingway) e melhor argumento original, não tendo vencido nenhum.

Produção:

Título original: Manhattan; Produção: Jack Rollins & Charles H. Joffe Productions; Produtor Executivo: Robert Greenhut; País: EUA; Ano: 1979; Duração: 96 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 25 de Abril de 1979 (EUA), 17 de Janeiro de 1980 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Charles H. Joffe; Argumento: Woody Allen, Marshall Brickman; Fotografia: Gordon Willis (preto e branco); Direcção Artística: Mel Bourne; Guarda-roupa: Albert Wolsky; Montagem: Susan E. Morse; Música: George Gershwin; Director de Produção: Martin Danzig; Cenários: Robert Drumheller; Caracterização: Fern Buchner.

Elenco:

Woody Allen (Isaac), Diane Keaton (Mary), Michael Murphy (Yale), Mariel Hemingway (Tracy), Meryl Streep (Jill), Anne Byrne (Emily), Karen Ludwig (Connie), Michael O’Donoghue (Dennis).

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