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Murder My SweetSinopse:

Na esquadra da polícia, o detective privado Philip Marlowe (Dick Powell) conta como tudo começou quando foi procurado pelo recentemente libertado Moose Malloy (Mike Mazurki), que procurava Velma a namorada de há oito anos atrás, e por Marriott (Douglas Walton), que precisava um guarda-costas para o pagamento de uma chantagem com um caríssimo colar de jade. Na entrega Marlowe é agredido, ficando inconsciente, para acordar e descobrir Marriott morto, e o colar desaparecido.

Sendo ao mesmo tempo suspeito de ter ficado com o colar de jade, e procurando saber que jogos os diversos intervenientes jogam, Marlowe prossegue a investigação com risco da sua própria vida, levando-o esta a casa dos Grayle, e sobretudo às misteriosas Helen (Claire Trevor) e Ann (Anne Shirley).

Análise:

Se dúvidas houvesse quanto à influência do cinema expressionista alemão no Film Noir, “Enigma” (Murder My Sweet) dissipá-las-ia. Desde o primeiro plano (o reflexo de uma lâmpada numa mesa, numa sala de outro modo escura) que nos é dado a ver que é o jogo de luz e sombra que dominará o cenário. São inúmeras as vezes em que as sombras de um corrimão ou as luzes projectadas do exterior parecem ser todo o cenário que delimita os espaços onde os personagens se movem. Tal é por demais evidente na sequência climática na casa da praia, ou na sequência do sonho de Marlowe (só por si um exemplo do expressionismo), definido pela geometria de escadas, e a profundidade do constante atravessar de portas, e uma queda permanente no vazio (que Hitchcock traria de volta em “Vertigo: A Mulher Que Viveu Duas Vezes”, 1958).

Edward Dmytryk (realizador de ascendência ucraniana), dirigiu este filme a partir da obra “Farewell My Lovely”, do mais célebre autor do Noir, Raymond Chandler, anteriormente filmada em 1942 como “Falcão Detective” (The Falcon Takes Over, de Irving Reis), e conseguiria com isso uma nomeação para Oscar de melhor realizador.

Partindo de uma história que em tudo tem como pano de fundo o mais clássico do Noir (um detective privado envolvido num enredo de crime no qual ele próprio é suspeito e parte interessada), Dmytryk leva-nos ao submundo urbano, de becos e vielas escuras, bares de má reputação e clubes nocturnos que servem de desculpa para negociatas de chantagens a pessoas da alta sociedade dadas à corrupção e decadência.

Pelo meio move-se a figura fulcral de Philip Marlowe, que, iniciando como suspeito numa sala de interrogação, nos dá o pretexto para um longo flashback, e para a omnipresente voz off. A interpretação de Dick Powell (até aí conhecido por papéis ligeiros), dá a Marlowe, para além do habitual cinismo, talvez uma inesperada dose de comicidade de gestos e expressões (culminando na cena final no taxi), que contrastam um pouco com a habitual frieza do anti-herói noir. Ainda assim Marlowe usa o humor como expressão do seu cinismo, e a sua amoralidade é bem visível quando a personagem de Ann Shirley lhe pergunta de que lado está, Powell responde “Nem sequer sei de que lado os outros estão, só sei quem é que hoje está a jogar”.

Como oponentes Marlowe defronta as habituais mulheres fatais, e este plural deve-se ao facto de termos a mulher fatal completa em Helen Grayle (Claire Trevor), a loura platinada, elogiada pela sua beleza, à volta de quem revolve o mistério da chantagem; e a pretendente a mulher fatal, Ann Grayle (Anne Shirley), a ruiva notada pelo seu “crooked nose” e métodos desajeitados, e que pela sua inocência é recompensada com a nossa simpatia final. E se partimos de um início, onde ambas podem ser candidatas a esse papel, é na sequência dos beijos (em que ambas são tratadas do mesmo modo por Marlowe, com resultados diferentes), que se estabelece um paralelo e nos é mostrada a distinção.

O jogo é de influências, perseguições e de descobertas sucessivas, onde por entre diálogos rápidos e inteligentes, o mistério se vai tornando mais denso à medida que Marlowe tenta levantar as diferentes pontas do véu.

No final, como necessário pelo Código Hays, somos brindados com um final feliz. Destaque ainda para o conjunto de actores secundários, todos responsáveis por excelentes interpretações. Por tudo isto, “Enigma” tornou-se um dos modelos do Film Noir dos anos 40 e 50. A mesma história seria filmada de novo em 1975 como “O Último dos Duros” (Farewell, My Lovely, de Dick Richards), com Robert Mitchum no papel de Philip Marlowe.

Produção:

Título original: Murder My Sweet; Produção: RKO Radio Pictures; Produtor Executivo: Sid Rogell; País: EUA; Ano: 1944; Duração: 95 minutos; Distribuição: RKO Radio Pictures; Estreia: 9 de Dezembro de 1944 (EUA), 21 de Março de 1946 (Cinema Politeama, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Edward Dmytryk; Produção: Adrian Scott; Argumento: John Paxton [baseado no livro de Raymond Chandler]; Fotografia: Harry J. Wild (preto e branco); Efeitos Especiais: Vernon L. Walker; Direcção Artística: Albert S. D’Agostino, Carroll Clark; Cenários: Darrell Silvera, Michael Ohrenbach; Música: Roy Webb; Direcção Musical: C. Bakaleinikoff; Montagem: Joseph Noriega; Figurinos: Edward Stevenson.

Elenco:

Dick Powell (Philip Marlowe), Claire Trevor (Mrs. Helen Grayle), Anne Shirley (Ann Grayle), Otto Kruger (Jules Amthor), Mike Mazurki (Moose Malloy), Miles Mander (Mr. Grayle), Douglas Walton (Lindsay Marriott), Don Douglas (Tenente de polícia Randall), Ralf Harolde (Dr. Sonderborg), Esther Howard (Jessie Florian).