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To Have and Have NotSinopse:

Em 1940, na Martinica Francesa, Harry Morgan (Humphrey Bogart) aluga o seu barco de pesca desportiva a turistas ricos, ao mesmo tempo que toma conta do seu velho amigo Eddie (Walter Brenna). Harry mantem-se à parte da Guerra, agora que a França sucumbiu e é liderada pelo regime de Vichy.

A chegada de Marie ‘Slim’ Browning (Lauren Bacall), e a vontade de Harry em tirá-la daquele ambiente, leva-o aceitar um trabalho para a resistência. A partir daí nada ficará como dantes, e Morgan e Eddie passam a estar sob o olhar atento das autoridades locais que, comandadas pelo sinistro Capitão Renard (Dan Seymour), tentam descobrir o que se passa debaixo dos seus narizes.

Análise:

Embora assim seja vulgarmente categorizado, “Ter ou Não Ter” não é um Noir típico. Sendo em simultâneo um romance e um filme de guerra, é, sobretudo, um filme que transcende as barreiras dos géneros e ajuda a criar os mitos. De certo modo “Ter ou Não Ter” é um mito em si próprio, criado de tantas peculiaridades que o tornam hoje notado. Senão vejamos: é o único filme que envolve o trabalho de dois nóbeis da literatura (Ernest Hemingway, autor da história original, muito mudada para o filme, e William Faulkner, argumentista); foi o filme de estreia de Lauren Bacall (então com 19 anos); e foi o filme que juntou para a vida a actriz e Humphrey Bogart.

Tal diversidade advém certamente das características de Howard Hawks, celebrizado em diversos géneros como no filme de gangsters “Scarface, o Homem da Cicatriz” (1932); na Screwball Comedy: “Duas Feras” (Bringing Up Baby, 1938) e “O Grande Escândalo” (His Girl Friday, 1940); nos dramas de guerra (Sargento York, 1941); e mais tarde nos westerns: “O Rio Vermelho” (Red River, 1948) e “Rio Bravo” (1959). Segundo o mito, o filme terá nascido da aposta de Hawks em dirigir para o écrã aquela que considerava a pior obra do seu amigo Hemingway, que ainda tentou ajudar no argumento, antes de passar para outros dois argumentistas.

Nascia assim um filme híbrido, onde a falta da paisagem urbana, a iluminação generosa e o ambiente musical do bar traem o género Noir, o mesmo se passando com Harry Morgan (Humphrey Bogart), que sendo o arquétipo do duro, frio e imperturbável anti-herói do Film Noir, surge aqui como que sem necessidade de o provar, uma vez que adivinhamos nele, debaixo dessa aparente frieza e cinismo, uma bondade e compaixão que por vezes surpreende os outros personagens.

Essa bondade é evidente na forma como Harry protege Eddie (Walter Brennan em mais uma brilhante interpretação do simpático rezingão, como o mesmo Howard Hawks o voltaria a dirigir em “Rio Bravo”); na forma como se apieda dos resistentes franceses a ponto de arriscar a sua vida para os ajudar; no modo como abdica de tirar proveito da generosidade de Frenchy; e claro, no modo como está disposto a perder Slim (Lauren Bacall), se isso a puser a salvo.

Se se puder apontar um defeito a “Ter ou Não Ter”, é o facto de ser muito similar a “Casablanca” de Michael Curtiz de 1942. Também aqui temos uma colónia francesa, cuja queda de França às mãos dos Nazis transforma num ninho de conspiradores. Também aqui o centro da acção é um bar de hotel animado por um pianista. Também aqui Bogart interpreta o personagem neutro, que vive num equilíbrio que ele controla, avesso a tomar partidos, mas acabando por se envolver, por desprezo pela cobardia dos vencedores, e admiração pelo sacrifício dos vencidos.

Tal como em “Casablanca”, também em “Ter ou Não Ter” o ponto de não retorno se dá na ajuda a um casal procurado pelas autoridades. A diferença está em que em “Ter ou Não Ter” Madame de Bursac (Dolores Moran) não é um interesse romântico de Bogart, como a personagem de Ingrid Bergman fora em “Casablanca”. De facto, o papel de Dolores Moran terá sido encurtado exactamente por essa razão. E aí triunfou Lauren Bacall. Com Lauren Bacall entrou todo um novo filme e forma de estabelecer um diálogo, feito de olhares provocantes, bailados de fumo, silêncios eloquentes, meios sorrisos em desafio, e até uma famosa proposta de assobio que se tornou uma das mais célebres frases do cinema.

Como um furacão silencioso chegou ‘Slim’, raramente tratada pelo seu nome, como aliás nunca tratou Harry Morgan-Bogart pelo seu, preferindo sempre chamar-lhe Steve. Slim e Steve tornam-se assim dois personagens de um filme dentro do filme. As cenas em que se confrontam fazem-nos destacar-se da história, pois a sua história estava ainda a nascer, e de certo modo seria transportada para os filmes seguintes.

Nessa história sim, encontramos os clichès do Noir, o chiaroscuro, as sombras de estores, a pose de mulher fatal (nunca mais que uma pose, já que Slim é humana, escondendo as fraquezas na aparência de força), a busca por algo escondido na alma humana, e os diálogos feitos de uma aparente frieza, à beira de sucumbir na emoção.

Tanto a química funciona, que nos faz esquecer a história principal, que talvez acabe por ser afinal apenas um pano de fundo para Bogart e Bacall começarem a desenvolver algo mais.

A mesma história de Hemingway seria novamente filmada por Michael Curtiz como “À Sombra do Mal” (The Breaking Point, 1950).

Produção:

Título original: To Have and Have Not; Produção: Warner Bros. – First National Pictures; Produtor Executivo: Jack L. Warner; País: EUA; Ano: 1944; Duração: 100 minutos; Distribuição: Warner Bros. Pictures; Estreia: 11 de Outubro de 1944 (EUA), 29 de Janeiro de 1946 (Cinema S. Luiz, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Howard Hawks; Produção: Howard Hawks; Argumento: Jules Furthman, William Faulkner [baseado no livro de Ernest Hemingway]; Fotografia: Sid Hickox (preto e branco); Montagem: Christian Nyby; Direcção Artística: Charles Novi; Efeitos Especiais: Roy Davidson, Rex Wimpy; Cenários: Casey Roberts; Guarda-roupa: Milo Anderson; Caracterização: Perc Westmore; Direcção Musical: Leo F. Forbstein.

Elenco:

Humphrey Bogart (Harry ‘Steve’ Morgan), Walter Brennan (Eddie), Lauren Bacall (Marie ‘Slim’ Browning), Dolores Moran (Mme. Helene de Bursac), Hoagy Carmichael (Cricket), Sheldon Leonard (Tenente Coyo), Walter Molnar (Paul de Bursac), Marcel Dalio (Gerard ‘Frenchy’), Walter Sande (Johnson), Dan Seymour (Capitão M. Renard), Aldo Nadi (guarda-costas de Renard), Paul Marion (Beauclere).