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L'etoile de MerIniciando-se com um casal a caminhar pela estrada vemos uma sucessão de cenas desconexas. O casal vai para o quarto, ele sai. Uma mulher vende jornais, um homem compra-lhe uma estrela do mar, e volta ao quarto onde a observa. Linhas surgem-lhe nas mãos. Jornais voam com o vento. Objectos de vidro rodam. Várias naturezas mortas, incluindo a estrela do mar são mostradas. A mulher ameaça a estrela do mar com uma faca. A mulher está deitada na cama, mas já não sonha. Na estrada o casal desfaz-se quando um segundo homem leva a mulher.

Análise:

Filmado a partir do poema de Robert Desnos (ele próprio um dos actores no filme), de linhas extraídas da peça de teatro “La Place de L’Etoile”, “Estrela do Mar” parece um ilustrar, cena a cena, ou reinterpretar desse poema. As linhas do poema intercalam-se entre as imagens como legendas que as explicam, como temas recorrentes, que evocam a mulher, a beleza, o amor e a sua transformação.

Man Ray, o realizador, foi um modernista americano, figura proeminente do avant-garde francês dos anos 20 do século XX, famoso pintor e fotógrafo dadaísta e surrealista. Com “Estrela do Mar”, Ray compôs um filme que assenta no uso de imagens distorcidas através de vidros deformados, dando-lhes um aspecto aquoso, de contornos difusos e ondulantes. Sempre que actores são filmados, esta técnica resulta no que parecem pinturas impressionistas. Já cenas sem actores são filmadas sem distorções, embora por vezes pareçam também elas influenciadas pela pintura, seja nos pormenores do corpo feminino, ou nas várias naturezas mortas.

É difícil definir no filme um tema que se cole ao surrealismo, já que ele acaba por ser um desenrolar de sentimentos, muitas vezes repetidamente enfatizados pelas linhas do poema, exacerbando a beleza, e diferentes contextos em que ela pode ser simbolizada.

A metáfora da estrela do mar (a qual está presente na maioria das cenas), é difícil de encerrar, sendo ela própria recorrente no universo dos surrealistas. Presentes estão a nudez feminina, a sensualidade, o desejo, e a procura. Mas estas surgem sempre de uma forma indirecta e alegórica.

O filme desenrola-se como um sonho, romântico e sensual, que procura definir, entender ou capturar a essência fugidia da beleza, como um alquimista tenta capturar a essência da vida. Produto paradigmático dessa busca parece ser a estrela do mar.

Produção:

Título original: L’Étoile de Mer; País: França; Ano: 1928; Duração: 17 minutos.

Equipa técnica:

Realização, produção, fotografia (preto e branco) e direcção artística: Man Ray; Argumento: Robert Desnos (poema).

Elenco:

Kiki of Montparnasse (Uma mulher); André de la Rivière (Um homem); Robert Desnos (Outro homem).

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