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MetropolisSinopse:

Num futuro distante Metrópolis é uma cidade fortemente industrializada, dividida em duas classes. Os projectistas da cidade vivem acima do solo, e as massas trabalhadoras em baixo, sem que haja quase contacto entre ambas.

Um dia Freder, filho do líder da cidade, Joh Fredersen, diverte-se num dos centros de recreio da classe rica, quando vê Maria, uma mulher que traz filhos de trabalhadores em visita para verem como os ricos vivem. Freder enamora-se dela e segue Maria até à cidade dos trabalhadores. Aí assiste a uma explosão de uma máquina que mata vários trabalhadores.

Freder vai contar o sucedido ao pai, que despede o seu acessor, Josaphat, por não o ter avisado. Freder simpatiza com Josaphat, e torna-se seu amigo, impedindo-o de se suicidar. Vai depois para a cidade dos trabalhadores, seguido pelo Thin Man, espião do seu pai.

Na cidade dos trabalhadores, Freder assiste ao colapso de Georgy, e substitui-o no seu posto, vestindo as suas roupas. Georgy é enviado a buscar Josaphat, mas distrai-se no caminho, indo para os casinos de Yoshiwara. Enquanto isso Freder é chamado a uma reunião de trabalhadores.

Joh Fredersen, sabendo que os trabalhadores preparam algo, visita Rotwang, um cientista, apaixonado por Hel, a antiga mulher de Joh, que tenta reconstruir num corpo metálico. Descobrindo planos que são um mapa de antigos túneis, Joh e Rotwang decidem investigar. Nas catacumbas Freder vê Maria discursar aos trabalhadores, profetizando sobre a chegada de um mediador entre mãos e cabeça, entre trabalhadores e dirigentes.

Após o discurso, Freder confessa o seu amor a Maria. Ao mesmo tempo Joh e Rotwang decidem raptá-la, e usá-la como modelo para o robot de Rotwang. Sem que Fredersen o saiba, Rotwang planeia matá-lo. Na manhã seguinte o Thin Man consegue obter a morada de Josaphat, e envia Georgy de volta. Freder conta a Josaphat sobre Maria, e depois de sair, o Thin Man luta com Josaphat, que foge para a cidade dos trabalhadores.

Esperando Maria em vão, Freder é confrontado com a imagem da morte, e por fim sai a procurar a sua amada, chegando a casa de Rotwang, mas sem saber que este está a fazer o robot à imagem dela. Quando vai ter com o pai vê-o abraçar a falsa Maria, após o que colapsa e entra em delírio.

A falsa Maria torna-se uma sensação nos clubes levando homens à loucura e à violência. Joh Fredersen apercebe-se que Rotwang tem planos próprios e na luta entre os dois, a verdadeira Maria foge. Quando Freder recupera, Josaphat conta-lhe que Maria (que não sabem ser a falsa) está a provocar o caos em Metrópolis.

Os dois assistem ao discurso onde ela apela à revolta violenta. A revolta inicia-se, Freder é atacado, e Georgy é morto. Enquanto isso Joh Fredersen autoriza que os trabalhadores se movimentem, pois ele deseja as revoltas para justificar o uso da força contra eles. Liderados pela falsa Maria, os trabalhadores destroem a Máquina Coração, não percebendo que assim causarão a inundação da cidade subterrânea, onde os seus filhos ainda estão. A verdadeira Maria encontra Freder e Josaphat, e juntos conduzem as crianças para a sua salvação. Entretanto Grot, o operário da Máquina Coração explica aos trabalhadores a consequência dos seus actos, e estes viram-se contra a falsa Maria, que queimam, até se revelar a sua estrutura metálica.

A verdadeira Maria está escondida na catedral, onde Rotwang a encontra, pensando ter finalmente reencontrado a sua amada Hel. Vendo-os no telhado da catedral, Freder corre para eles, e luta com Rotwang, que cai do cimo da catedral e morre. Freder apela ao povo para fazer a paz, e une as mãos de Grot e o seu pai Fredersen, assumindo-se como o mediador entre as mãos e a cabeça.

Análise:

“Metrópolis”, filmado por Fritz Lang, a partir de uma história de Thea von Harbou, é um dos filmes mais citados da história do cinema, tanto como marco incontornável de um período, exemplo de uma estética que deixou escola, e como percursor dos filmes modernos de ficção científica.

Para o seu tempo foi uma super-produção. Levou um ano a filmar, teve centenas de figurantes, e usou o maior orçamento disponibilizado até então na Alemanha. É porventura o mais iconográfico dos filmes saídos da República de Weimar, e as suas imagens são repetidamente apresentadas, inspirando desde vídeos musicais à pop-art e claro, o cinema.

Veja-se por exemplo a cidade Gotham City de “Batman Regressa” (Batman Returns, 1992), de Tim Burton, e percebe-se onde o realizador, fã confesso dfo expressionismo alemão, se inspirou, ou distopias futuristas como “Blade Runner – Perigo Iminente” (Blade Runner, 1992) de Riddley Scott ou “Cidade Misteriosa” (Dark City, 1998), de Alex Proyas, para além claro dos filmes de horror da Universal dos anos 30, com destaque para ” A Noiva de Frankenstein” (The Bride of Frankenstein, 1932), de James Whale.

Visualmente, trouxe-nos efeitos especiais inovadores, um design futurista e maquinal, mas sempre imbuído da estética expressionista que caracterizou o seu tempo. Filmado pelo influente fotógrafo Karl Freund, não faltam os ângulos, as linhas geométricas, o perfil da cidade com os seus vários níveis, os jogos de sombra, os cenários labirínticos.

Mais uma vez, como em tantos outros filmes da época, é a preocupação social que serve de base à história, aqui na forma de uma luta de classes, que parece retirada de um manifesto marxista. Mas desengane-se quem pensar estar perante uma simples propaganda política. De cariz pessimista, o mundo de Metrópolis vive no sonho de uma solução que se pode chamar romântica. Daí que, como uma profecia, seja repetida a frase “o mediador entre a cabeça e as mãos é o coração”.

O coração serve aqui como mediador físico, isto é, ponto médio entre cabeça e mãos, também em sentido figurado como a pessoa que irá unir as duas classes, projectistas e trabalhadores, e ainda simbolicamente como a qualidade que pode unir razão e força sob o mesmo objectivo, para o bem comum. Deste ponto de vista o filme oferece uma solução poética aos problemas das grandes cidades, advindos das desigualdades sociais, que resolve, não no confronto, mas sim na união.

É uma solução que muitos já chamaram de demasiado inocente, mas não é essa inocência de contos de fadas que deve contrabalançar o nosso cinismo? A um outro nível, não é de estranhar que o mediador humano, Freder (competentemente interpretado por Gustav Fröhlich), um elemento da classe dirigente, tome tal papel pelo amor que tem a Maria (a estreante Brigitte Helm), uma mulher da classe trabalhadora. Nesse sentido é o amor (que não conhece barreiras), que medeia e resolve o conflito.

Com o seu tom negro, mas profético (dir-se-ía quase messiânico), “Metrópolis” joga ainda com muitos outros fantasmas, e paradigmas dos conflitos sociais e de civilizações, como por exemplo: a ciência sem escrúpulos (o Rotwang, interpretado por Rudolf Klein-Rogge, é o paradigma do cientista louco), a desumanização trazida pela industrialização, o extremismo fanático e cego, e a sede de poder. Com todos estes ingredientes, “Metrópolis” continua actual, e não podia deixar de ser uma referência incontornável.

Se é discutível que seja o melhor filme do período alemão de Fritz Lang, é indiscutivelmente o mais marcante. Nota final para dizer que hoje cerca de um quarto do filme se encontra perdido.

Produção:
Título original: Metropolis [Título inglês: Metropolis]; Produção: Universum Film AG (Ufa); País: República de Weimar (Alemanha); Ano: 1927; Duração: 153 minutos; Distribuição: Paramount-Ufa-Metro-Verleihbetriebe GmbH (Parufamet) (Alemanha); Estreia: 10 de Janeiro de 1927 (Alemanha), 7 de Abril de 1928 (Portugal, Cinema São Luiz).

Equipa técnica:
Realização: Fritz Lang; Produção: Erich Pommer; Argumento: Thea von Harbou; Música Original: Gottfried Huppertz; Fotografia: Karl Freund, Günther Rittau, Walter Ruttmann; Direcção Artística: Otto Hunte; Erich Kettelhut, Karl Vollbrecht; Esculturas: Walter-Schultz Mittendorf; Guarda-roupa: Aenne Willkomm; Efeitos Especiais: Ernst Kunstmann; Montagem: Fritz Lang.

Elenco:
Alfred Abel (Joh Fredersen), Gustav Fröhlich (Freder, filho de Joh Fredersen), Rudolf Klein-Rogge (Rotwang, o Inventor), Fritz Rasp (The Thin Man), Theodor Loos (Josaphat), Erwin Biswanger (11811, Georgy), Heinrich George (Grot, o Guardião da Máquina Coração), Brigitte Helm (O Homem Criativo / O Homem Máquina / Morte / Os Sete Pecados Mortais / Maria).