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Love and DeathDepois de um ano de interregno, algo raro na carreira de Woody Allen, 1975 marcava o regresso do realizador aos écrãs. Voltando a interpretar um filme argumentado por si, Woody Allen tinha de novo ao seu lado Diane Keaton. Desta vez a aposta residia em usar o imaginário da literatura russa do século XIX, “roubando” diálogos e situações a Tolstoi e Dostoievsky, e música a Prokofiev. “Nem Guerra, nem Paz” foi filmado em França e na Hungria, e foi a última vez que Allen filmou nos Estados Unidos até 1996 (“Toda a Gente diz que te Amo”).

Sinopse:

Com a acção a decorrer no início do século XIX, durante as invasões francesas, o filme mostra-nos a história do neurótico Boris Grushenko (Woody Allen), um jovem russo diferente de todos os outros, pois não só é fisicamente desastrado e pouco dotado para actividades físicas como a guerra, como se mostra deste tenra idade preocupado com questões metafísicas, como a morte.

Apaixonado pela prima Sonja que está apaixonada pelo seu irmão Ivan que está apaixonado por… Boris acaba como herói acidental na guerra. Tal leva-o a viver um conjunto de peripécias sexuais na corte de São Petersburgo, e a tentar de novo a sorte junto da prima, recentemente viúva.

Análise:

Woody Allen terminara “O Herói do Ano 2000” de dois anos antes, a dizer que as duas coisas em que acreditava eram o sexo e morte. “Nem Guerra, Nem Paz” surge como o desenvolvimento dessa ideia, o que se expressa melhor no título original “Love and Death”, onde a palavra “amor” é um eufemismo para “sexo”. Filmado na Europa, o filme apresenta uma qualidade visual acima dos precedentes, chegando, a espaços, a parecer-se com uma super-produção.

Inspirando-se em “Guerra e Paz” de Tolstoi, mas também em Dostoievsky, e com uma banda sonora composta de música clássica, em particular Prokofiev, “Nem Guerra, Nem Paz” é uma homenagem aos velhos clássicos da literatura russa (são inúmeros os diálogos absurdos com frases roubadas dos livros daqueles autores), ao mesmo tempo que uma paródia à solenidade e profundidade dos temas por ela abarcados.

Embora se considere “Nem Guerra, Nem Paz” o último filme do ciclo burlesco do realizador, aquele que precede a nova fase iniciada com “Annie Hall”, a verdade é que nalguns pontos “Nem Guerra, Nem Paz” é já um filme de transição. É verdade que o humor tem ainda muito de físico, com piadas contínuas e situações que têm como único objectivo arrancar gargalhadas. Este é talvez o filme de Allen desde “What’s New Pussycat?” onde mais se sente a influência de Groucho Marx.

No entanto vê-se que Allen já brinca com outros artifícios narrativos, os monólogos filosóficos intensifícam-se, o quebrar da quarta parede (falar directamente para o espectador) torna-se mais evidente, a narrativa é constantemente interrompida por episódios fantasiosos, e os anacronismos são propositados (como as cheerleaders no campo de batalha). Com o sonho dos caixões (cena que parece saída de um filme de Fellini) e os diversos encontros com a morte (onde se lembra Ingmar Bergman) Allen traz um pouco de surrealismo e simbolismo ao filme.

Se antes havia uma necessidade de encaixar cenas cómicas, nota-se cada vez mais a necessidade de encaixar referências culturais (note-se nova referência a Eisenstein, na cena da guerra e na lente perfurada por um tiro, e nas estátuas de leões). Os próprios diálogos se tornam mais densos, mesmo que sejam uma paródia do pseudo-intelectualismo, com chorrilhos de conceitos ditos sem qualquer sentido.

Seja com humor físico, ou com diálogos absurdos, Woody Allen mostra uma preocupação constante em todo o filme: a morte. Interroga-a (literalmente) e discute sobre o sentido da vida, dirigindo-se-nos, não com respostas, mas quase que com um grito por ajuda. É a sua negação de todas as respostas convencionais que o leva a procurar nos prazeres físicos e no dia a dia a única libertação que julga possível. Daí as constantes referências ao sexo.

Destaque ainda para a interpretação de Diane Keaton, aqui mais cómica que nunca, deixando de vez qualquer pretensão de seriedade, tornando a sua Sonja, a espaços, mais rocambolesca e risível que o próprio Boris, o qual é uma colagem ao estilo de Bob Hope.

Produção:

Título original: Love And Death; Produção: Jack Rollins-Charles H. Joffe Productions; Produtor Executivo: Martin Poll; País: EUA; Ano: 1975; Duração: 85 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 10 de Junho de 1975 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Charles H. Joffe; Argumento: Woody Allen; Produtor Associado: Fred T. Gallo: Música: Sergei Prokofiev; Supervisão Musical: Felix Giglio; Direcção de Produção: Suzanne Wiesenfeld; Fotografia: Ghislain Cloquet; Direcção Artística: Willy Holt; Efeitos Especiais: Kit West; Cenários: Claude Reytinas; Caracterização: Marie-Madeleine Paris, Anatole Paris; Guarda-roupa: Andre Demarez, Gladys De Segonzac; Montagem: Ron Kalish.

Elenco:

Woody Allen (Boris Grushenko), Diane Keaton (Sonja), Georges Adet (Velho Nehamkin), Frank Adu (Sargento de Instrução), Edmond Ardisson (Padre), Féodor Atkine (Mikhail), Albert Augier (Criado), Yves Barsacq (Rimsky), Lloyd Battista (Don Francisco), Jack Berard (General Lecoq), Eva Betrand (Mulher de Aula de Higiene), George Birt (Médico), Yves Brainville (Andre), Gérard Buhr (Servo), Brian Coburn (Dimitri), Henri Coutet (Minskov), Patricia Crown (Cheerleader), Henry Czarniak (Ivan), Despo Diamantidou (Mãe), Sandor Elès (Soldado 2), Luce Fabiole (Avó), Florian (Tio Nikolai), Jacqueline Fogt (Ludmilla), Sol L. Frieder (Voskovec), Olga Georges-Picot (Condessa Alexandrovna), Harold Gould (Anton), Harry Hankin (Tio Sasha), Jessica Harper (Natasha), Tony Jay (Vladimir Maximovitch), Tutte Lemkow (Pierre), Jack Lenoir (Krapotkin), Leib Lensky (Padre Andre), Anne Lonnberg (Olga), Roger Lumont (Primeiro Padeiro), Alfred Lutter III (Jovem Boris), Edward Marcus (Raskov).

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