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Faust: Eine deutsche VolkssageSinopse:

O demónio Mefisto e um Arcanjo apostam sobre a possibilidade de corromper o mais justo dos homens. Em consequência o demónio espalha uma terrível peste sobre a cidade onde vive Fausto, um velho médico e alquimista.

Impotente perante a devastação, Fausto encontra um livro onde se fala num pacto com o Diabo, e em desespero invoca-o. Mefisto aparece a Fausto na forma de um mendigo e tenta-o a fazer um pacto por 24 horas. Fausto cura as pessoas da aldeia, mas é expulso por não conseguir tocar um crucifixo.

Para o continuar a tentar, o demónio restitui-lhe a juventude e tenta-o com a visão da duquesa de Parma. Os dois viajam até ao casamento da duquesa, que Fausto conquista, enquanto as 24 horas se esgotam, e ele dá a sua alma ao demónio.

Farto da sua vida de opulência e luxúria, Fausto pede para regressar à sua terra natal. Aí enamora-se de Gretchen, que conquista graças à magia de Mefisto. Mas Mefisto denuncia Fausto ao irmão de Gretchen, Valentin, que descobre os amantes e desafia Fausto em duelo. Mefisto mata Valentin, e a culpa recai sobre Fausto, que novamente tem de fugir.

Gretchen é renegada pelo seu povo, e dá à luz ao filho de Fausto, em solidão. Abandonada, deixa o seu filho morrer na neve, e é condenada por assassínio. Fausto vendo o que acontece regressa para salvar Gretchen, e chega a tempo de ver Gretchen na fogueira. Ao ver Fausto desejar nunca ter feito o pacto, Mefisto quebra-o e Fausto volta a ser um idoso, atirando-se ao fogo com a sua amada, e morrendo com ela.

No céu, o arcanjo diz a Mefisto que perdeu, pois no final o amor acabou por triunfar.

Análise:

Em 1926 Murnau trouxe ao cinema a alegoria de Fausto, o homem que se deixou tentar pelo demónio, numa produção de enorme beleza cénica. Tal seria a mais cara produção da UFA até “Metrópolis”, de Fritz Lang, com Murnau usando duas câmaras, ambas filmando diferentes planos e “takes”. Existiram mesmo diferentes variantes do filme, algumas preparadas pelo próprio Murnau, das quais restam hoje ainda cinco.

Assumindo desde o primeiro instante todo o carácter simbólico da história, ficam na memória momentos iniciais onde o bem e o mal são dispostos num jogo de luz e sombras, onde vemos os cavaleiros do apocalipse, a sombra de demoníaca sobre a cidade (de enorme beleza estética), e as pregações de Fausto. Cada cena funciona como um quadro religioso, tal o cuidado com que cada personagem é disposto na tela. Esse é o tom que marcará o resto do filme, fiel às características expressionistas, onde o detalhe cénico se esbate num jogo de luzes sombras.

O tema da fé será central à história, mas se é fundamental no plano terreno, onde a peste é vista como uma provação de Deus (“quem tem fé viverá, mas a morte irá levar os pecadores”), no plano espiritual serão as acções (o sacrifício de amor de Fausto por Gretchen) que irão salvar a sua alma da danação eterna. Pode ainda ver-se esta dicotomia como um conflito entre a tradição cristã (medieval, conservadora) e o modernismo, onde tal como Fausto, devemos convidar o mal, para podermos fazer o bem. Note-se como este Fausto, cedendo às trevas, buscará a luz em Gretchen, que vê pela primeira vez, iluminada na igreja.

Narrado a com um ritmo impetuoso, o filme brilha pelo cuidado colocado em cada plano, e pelo uso das sombras, que tornam cada cena, seja um interior, ou um exterior, de enorme beleza artística, como se de uma pintura se tratasse, visualmente caminhando numa linha subtil entre o estilizado e o realista.

O filme brilha ainda pelas interpretações de Emil Jannings, que compõe um demónio manipulador, astuto, mas ainda assim sedutor, e de Gösta Ekman, no papel do anti-herói, bem intencionado, mas atormentado pelas consequências das suas decisões.

Para muitos trata-se do melhor filme de Murnau, superior mesmo ao comercialmente mais famoso “Nosferatu”. É sem dúvida uma lição de bem filmar, que elevou imenso o patamar do cinema.

Produção:
Título original: Faust: Eine deutsche Volkssage [Título inglês: Faust]; Produção: Universum Film AG (Ufa); País: República de Weimar (Alemanha); Ano: 1926; Duração: 106 minutos; Distribuição: Universum Film AG (Ufa) (Alemanha); Estreia: 14 de Outubro de 1926 (Alemanha), 18 de Abril de 1927 (Portugal, Cinema Tivoli).

Equipa técnica:
Realização: Friedrich Wilhelm Murnau; Produção: Erich Pommer; Argumento: Hans Kyser; Música Original: Werner Richard Heymann; Fotografia: Carl Hoffmann; Direcção Artística: Robert Herlth, Walter Röhrig; Guarda-roupa: Georges Annenkov, Robert Herlth, Walter Röhrig; Caracterização: Waldemar Jabs.

Elenco:
Gösta Ekman (Fausto), Emil Jannings (Mefisto), Camilla Horn (Gretchen), Frida Richard (Mãe de Gretchen), Wilhelm Dieterle (Valentin), Yvette Guilbert (Marthe Schwerdtlein), Eric Barclay (Duque de Parma), Hanna Ralph (Duquesa de Parma), Werner Fuetterer (Arcanjo), Hans Brausewetter (Pretendente), Lothar Müthel (Monge), Hans Rameau, Hertha von Walther, Emmy Wyda.