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La Coquille et le ClergymanAtravés de uma sucessão de portas, vemos um clérigo que enche repetidamente balões volumétricos com um líquido negro de uma bacia em forma de concha. Após enchê-los destrói-os deixando-os cair uns sobre os outros. O general chega e parte a concha com a espada. O clérigo segue o general gatinhando pela rua. Encontra-o num confessionário com a mulher, luta com ele e atira-o a um abismo, arrancando de seguida o soutien em forma de concha à mulher.

Num salão de baile o clérigo chega com a bacia em forma de concha, que se transforma em soutien e se incendeia. Persegue depois a mulher pelos campos, aprisionando a sua imagem num globo de vidro. Após abrir e fechar inúmeras portas, encontra de novo o general com a mulher, e persegue-os pelos campos. Vê-os depois no porão de um navio, eles beijam-se e o clérigo imagina-se a estrangular a mulher.

Numa sala limpa afanosamente por empregadas, o general celebra o casamento do clérigo com a mulher, após o qual este parte o globo de vidro, que contém agora a sua própria imagem. O clérigo recolhe-a como líquido negro na bacia e bebe-o.

Análise:

“Le Coquille et le Clergyman” é obra do dramaturgo e teórico francês Antonin Artaud, o qual, com o seu manifesto “Théâtre de la Cruauté” (Teatro da Crueldade) definia as regras para o que considerava ser a expressão do surrealismo no teatro. Por crueldade Artaud entendia um mecanismo de corte radical e violento com a realidade e as formas narrativas ortodoxas, com vista a libertar as forças creativas do subconsciente, em que o espectador se tornava um participante activo da experiência. Para o exemplificar Artaud escreveu um guião para filme, que a cineasta Germaine Dulac (reputada como uma das primeiras mulheres realizadoras), dirigiu.

Dulac era ela própria uma teórica, apologista do “Cinéma Pur” (Cinema Puro). Este conceito defendia que o cinema, como forma de arte, devia estar desligado de qualquer outra forma artística, não seguindo por isso conceitos narrativos como os empregues na literatura ou teatro. Por essa razão, Dulac aproximou-se dos surrealistas, filmando aquele que é hoje considerado o primeiro verdadeiro filme surrealista.

No entanto o resultado final não foi do agrado de Artaud, que não só confessava que o objecto final nunca reproduz o conceito idealizado pelo artista, como considerava que o essencial da sua ideia (criar o impacto de um sonho) tinha sido traído por Dulac que, presa às técnicas narrativas impressionistas, preferira tentar reproduzir a irracionalidade de um sonho.

Seja como for, “Le Coquille et le Clergyman” é uma obra que marcou o cinema pelo uso de técnicas avant-garde, como cenários estranhos e efeitos especiais inovadores. Mais concretamente, surpreendeu pela forma não linear de contar uma história, não respeitando espaço ou tempo, mudando de cenas de forma não lógica, e colocando personagens a comportar-se de forma não natural.

Com todos estes ingredientes, o filme é desconcertante, e difícil de descodificar. Há no entanto um tema fundamental que o percorre, este é o do desejo reprimido, e consequente busca atormentada da sua concretização. Temos por isso um padre (símbolo da repressão dos desejos carnais) que deseja uma mulher. Tal é-nos mostrado na forma como a persegue (muito do filme é passado em corridas, buscas e perseguições), quase sempre de forma frustrada, seja por campos infindáveis, ou corredores labirínticos, umas vezes quase que em voo, noutras apenas gatinhando, sempre como num sonho.

O desejo sexual é expresso nos olhares do padre, nas cenas em que a mulher é desnudada, no constante segurar de objectos em forma de concha (por excelência um símbolo feminino, representado na arte – ver por exemplo o quadro de Boticelli “O nascimento de Vénus”, e até na religião, sendo o símbolo da Virgem Maria), no constante uso da água (símbolo de vida e fecundidade), no crescimento da batina em presença da mulher, no surgir de torres nas mãos do padre (objecto fálico) contra o aparecimento de estalactites que pingam (representação do sexo feminino).

O padrão é constantemente de perseguição e luta, em que o general (que por vezes surge com batina de padre), é o oponente declarado, ele próprio símbolo de poder, e a figura a ultrapassar na procura de saciar o desejo.

O filme começa com o destruir de um líquido negro, e termina com a sua ingestão. Qual alquimista, o padre lida com a essência da vida, ou da alma, que começa por desperdiçar para depois beber, talvez assumindo o desejo que antes tentara rebater.

Com muito de críptico a descobrir a cada visionamento, o filme de Dulac é repleto de simbolismo e imagens desconcertantes, que nos remetem para o mais básico da forma de desejo e auto-repressão humana.

O filme é precedido da seguinte legenda: “Não é um sonho, mas o próprio mundo das imagens, fazendo a mente chegar onde nunca lhe fora consentido ir, o mecanismo está ao alcance de todos.”

Produção:

Título original: La Coquille et le Clergyman [Título em inglês: The Seashell and the Clergyman]; Produção: Délia Film; País: França; Ano: 1928; Duração: minutos; Estreia: 9 de Fevereiro de 1928 (Paris, França).

Equipa técnica:

Realização: Germaine Dulac; Produção: Germaine Dulac; Argumento: Antonin Artaud, Germaine Dulac [não creditada]; Música: Iris ter Schiphorst; Fotografia: Paul Guichard, Paul Parguel (preto e branco).

Elenco:

Alex Allin (O Clérigo), Genica Athanasiou (A Mulher do General), Lucien Bataille (O General).

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