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SleeperUm ano depois de “O ABC do Amor” Woody Allen voltava com novo filme escrito, interpretado e realizado por si, como era agora o seu apanágio. Desta vez Allen voltava a filmar uma história com princípio meio e fim, com um argumento mais coeso, escrito em parceria com Marshall Brickman, com quem viria a ter alguns dos seus maiores sucessos. O tema era pela primeira vez a ficção científica, e com Allen estava Diane Keaton, a musa dos seus filmes seguintes, e que já antes estivera em “O Grande Conquistador”.

Sinopse:

No ano 2173 é descoberta uma cápsula criogénica com uma pessoa de 200 anos anos. Miles Monroe (Woody Allen) é então acordado pelo movimento de resistência que se opõe ao regime totalitarista, para servir como agente secreto. Relutantemente Miles vê-se envolvido com o movimento, assim que começa a ser procurado pela polícia. Na sua fuga recruta a inocente artista Luna (Diane Keaton), a quem tem de ensinar os princípios mais rudimentares da vida do século XX, como por exemplo o sexo.

Análise:

Com “O Herói do Ano 2000” Woody Allen conseguiu aquele que era até então o seu filme mais coeso. Por um lado é o seu filme mais cómico até ao momento, mas (não considerando “O Grande Conquistador”) também aquele em que a história tem um papel mais importante, para além do simples gerar de situações hilariantes. E ela é o confronto entre um homem do século XX e uma sociedade totalitária do futuro, onde tantos conceitos que lhe são caros já desapareceram.

Se em “O ABC do Amor” víamos Woody Allen a mostrar uma neurose precoce, isto é, pré-natal, como espermatozóide no momento da concepção, em “O Herói do Ano 2000” vemos o que mais se aproxima de uma neurose póstuma, não para além da morte, mas para além da sua vida presente, isto é, no futuro.

De certo modo os os dois filmes passam-se entre o sexo e a morte. As tais palavras que dominam muito da obra de Allen, e que ele escolhe para encerrar o filme. Quando Luna (Diane Keaton) lhe pergunta em que acredita o personagem de Miles Monroe, e que serviriam de mote ao filme seguinte.

Para além da comédia, embora em tom de paródia, “O Herói do Ano 2000” é um filme de ficção científica de pleno direito. Se os exemplos do futuro são cómicos (orgasmómetro, frutos e animais gigantes, clonagem a partir de um nariz, etc), a idea do totalitarismo, como forma de impor um conformismo que leve ao pensamento único ao estilo de “1984”, é algo que Allen refere amiúde. Vendo como esse totalitarismo aliado às facilidades tecnológicas gera uma sociedade preguiçosa, desligada da realidade e intelectualmente amorfa, é talvez o que mais se aproxima de um discurso político e social recorrente na sua obra (ver por exemplo “Zelig”).

“O Herói do Ano 2000” foi a dada altura pensado como um possível filme mudo, e por isso são muitas as sequências sem palavras, em que sobre música ragtime, ou de jazz Dixieland (as expressões musicais privilegiadas de Allen, e aqui interpretadas pelo próprio), assistimos a momentos burlescos a lembrar os filmes mudos das primeiras décadas dos século XX, numa clara homenagem a Chaplin (Allen vestido de robot é uma imagem inesquecível).

Mas o filme vai muito além do burlesco, com Allen a satirizar personalidades (Nixon, De Gaulle, Billy Graham, etc.) e situações do século XX (notícias desportivas e concursos de Miss América, por exemplo), a usar a sua recorrente preocupação com o sexo, e a levar a sua crítica da pseudo-intelectualidade a um nível mais abstracto.

O filme conta sobretudo com duas grandes interpretações. Tanto Woody Allen como Diane Keaton sentiam-se aqui ao seu melhor, e perfeitamente à vontade, mostrando uma cumplicidade dificilmente superável. Essa cumplicidade é tanto a imagem de marca de Woody Allen, quanto os seus aforismos. De notar que a canção revolucionária de Luna é exactamente a mesma de Esposito em “Bananas”. Esse ridicularizar, com a repetição do conceito de substituir um ditador por outro mostra, melhor que palavras, a descrença de Allen nos sistemas políticos.

Como curiosidade destaque-se que este é o primeiro filme de Woody Allen a exibir nos créditos iniciais e finais na sua tradicional fonte Windsor Light Condensed branca, sob fundo preto, com música jazz.

Produção:

Título original: Sleeper; Produção: Jack Rollins-Charles H. Joffe Productions; Produtor Executivo: Charles H. Joffe; País: EUA; Ano: 1973; Duração: 84 minutos; Distribuição: United Artists (An MGM Company); Estreia: 17 de Dezembro de 1973 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Jack Grossberg; Argumento: Woody Allen, Marshall Brickman; Fotografia: David M. Walsh (filmado em Deluxe-General); Produtores Associados: Marshall Brickman, Ralp Rosenblum; Música: Woody Allen; Supervisão Musical: Felix Giglio; Direcção Artística: Dale Hennesy; Cenários: Dianne Wager; Efeitos Especiais: A. D. Flowers; Montagem: Ralph Rosenblum; Guarda-roupa: Joel Schumacher, Arnold M. Lipin, G. Fem Weber; Caracterização: Del Acevedo.

Elenco:

Woody Allen (Miles Monroe), Diane Keaton (Luna Schlosser), John Beck (Erno Windt), Mary Gregory (Dr. Melik), Don Keefer (Dr. Tryon), John McLiam (Dr. Agon), Bartlett Robinson (Dr. Orva), Chris Forbes (Rainer Krebs), Marya Small (Dr. Nero), Peter Hobbs (Dr. Dean), Susan Miller (Ellen Pogrebin), Lou Picetti (M.C.), Jessica Rains (Mulher no Espelho), Brian Avery (Herald Cohen), Spencer Milligan (Jeb Hrmthmg), Stanley Ross (Sears Swiggles).

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