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Der Letzte MannSinopse:

O porteiro do hotel Atlantic é um homem idoso, mas orgulhoso do seu trabalho, e por ele respeitado e admirado no bairro pobre onde vive.

Um dia, recebe a notícia que devido à sua avançada idade deve mudar de funções, passando à equipa de limpeza, ficando como assistente nas casas de banho. A notícia devasta completamente o porteiro, que vê a demoção como uma ferida no seu orgulho.

Num acto de dor, rouba o seu uniforme, e usa-o para regressar a casa, assim mantendo a aparência de que nada mudou. Um dia a mulher vai procurá-lo no hotel para lhe levar comida, e aí descobre a verdade. Desconsolada volta a casa para contar à filha, tendo sido ouvida pelas vizinhas.

Nessa noite, ao regressar a casa, o velho porteiro é motivo de chacota da vizinhança que o sabia caído em desgraça. Mal recebido em casa, ele vai dormir para a casa de banho do hotel, onde só o guarda nocturno o trata bem.

Pouco resta ao velho porteiro como motivo para continuar a viver, mas inesperadamente recebe uma herança milionária de um hóspede que morreu nos seus braços na casa de banho. O velho porteiro passa então a ostentar a fortuna comendo principescamente no restaurante do hotel, convidando para o seu lado o guarda nocturno, única pessoa que o tinha ajudado nos dias maus, e não hesitando em dar dinheiro a todos os que visse como vítimas do gozo dos mais favorecidos.

Análise:

Com “O Último dos Homens” Murnau decidiu por em prática as suas ideias mais radicais sobre o que deveria ser o cinema. Por isso mesmo “O Último dos Homens” é um filme com uma história aparentemente banal, sem acontecimentos, sem intertítulos (se exceptuarmos um ou dois momentos em que alguém lê uma carta ou jornal). Narrado apenas pelas imagens, o filme é a tentativa de Murnau se libertar de tudo o que não fosse genuinamente cinematográfico. Por isso, ao invés de acontecimentos, mostra-nos principalmente a evolução dos sentimentos de uma pessoa.

Na tentativa de ir onde a técnica de filmagem nunca tinha ido, juntamente com o fotógrafo Karl Freund, Murnau apostou em elaborados movimentos de câmara, que surgia agora presa por fios, desenhando voos até dentro de janelas, ou percursos sinuosos atrás dos personagens (como na belíssima cena de abertura).

Sendo uma história urbana, dando-nos uma particularidade da sociedade alemã sua contemporânea, Murnau não desistiu de dar ao pretenso realismo um contorno de expressionismo. Note-se o fundo de arranha-céus da cidade, e compare-se com o que Lang faria mais tarde em “Metropólis”; considere-se os interiores do hotel, e os planos que nos são dados detrás de vários pares de portas; saliente-se ainda todo o bairro do porteiro, com prédios estilizados, e as escadarias escuras; e por fim relembre-se a cena em que o prédio do hotel parece cair sobre o porteiro, num repetir da animação opressora da cidade já filmado em “Fantasma”.

A linguagem expressionista está aqui presente de facto em maior dose que noutros filmes de Murnau. Não temos por isso o escape da paisagem aberta, e vemos a luz apenas nas cenas iniciais, em que tudo na vida do porteiro é ainda luminoso, ou no epílogo, quando o volta a ser.

Um destaque para as portas que, desempenham aqui um papel relevante. Começando na porta giratória do hotel, símbolo da mudança que atingirá o porteiro (um Emil Jannings intenso, que carrega todo o filme às suas costas), até porta de casa enfeitada com grinaldas, símbolo do casamento da sobrinha, passando pelas diversas portas do hotel, como as que ligam o patamar “superior” ao “mundo inferior” da casa de banho, portas essas que nunca transpomos. É também detrás da porta do gerente que assistimos à demoção, e à chegada daqueles que ao despir o uniforme do porteiro o “condenarão” à descida ao inferno da sua triste existência.

A história de Carl Mayer, dita tipicamente alemã, parece demasiado ingénua, talvez difícil de perceber para quem não vive o contexto em que ela se desenrola. Através dela vemos o peso que um uniforme tem na sociedade alemã, onde mais que um cargo é um estatuto, o motivo de orgulho e definição de um homem. Era o uniforme de porteiro, mais que a profissão ou o salário, que lhe davam uma certa nobreza. E era essa nobreza de aparência, mais que a personalidade ou a importância real, que traziam ao porteiro a reverência e respeito dos vizinhos e amigos. O perder do uniforme é o desabar de um mundo, é o perder da dignidade, e o fim de uma vida.

É curiosa a necessidade que Murnau teve de dar à história um final de conto de fadas, pelo qual ele próprio parece pedir desculpa. Será este peso do uniforme um espelho da dignidade perdida pela Alemanha após 1918, e a herança final a esperança que a prosperidade, que em 1924 se adivinhava (mas seria efémera), pudesse apagar esse passado recente?

Produção:
Título original: Der Letzte Mann [Título inglês: The Last Laugh]; Produção: Universum Film (Ufa); País: República de Weimar (Alemanha); Ano: 1924; Duração: 86 minutos [versão restaurada: 101 minutos]; Distribuição: Universum Film (Ufa) (Alemanha); Estreia: 23 de Dezembro de 1924 (Alemanha), 8 de Novembro de 1926 (Portugal, Cinema Tivoli).

Equipa técnica:
Realização: F. W. Murnau; Produção: Erich Pommer; Argumento: Carl Mayer; Música Original: Giuseppe Becce; Fotografia: Karl Freund; Direcção Artística: Robert Herlth, Walter Röhrig.

Elenco:
Emil Jannings (o Porteiro), Maly Delschaft (a sua sobrinha), Max Hiller (o noivo dela), Emilie Kurz (a tia do noivo), Hans Unterkircher (gerente do hotel), Olaf Storm (jovem hóspede), Hermann Vallentin (hóspede barrigudo), Georg John (Guarda nocturno), Emmy Wydaa (vizinha magra).