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Entr'acteComo uma série de momentos separados, vemos sucessivamente: um canhão aparecendo sozinho com dois homens a saltar ao seu lado; bonecos de cabeça insuflável viajando na cidade; luvas de boxe sobre imagens de edifícios; fósforos animados que se acumulam numa cabeça e ardem sobre ela; dois jogadores de xadrês num telhado, levados pela chuva; um barco de papel a sobrevoar a cidade; imagens de uma bailarina vista de baixo, mostrando depois ter óculos e barba longa; rostos formando-se na superfície de água; um ovo pairando sobre um repucho com um caçador que o tenta atingir, sendo depois derrubado do telhado pela ave que dele nasce.

A sequência final, mais longa e com continuidade, mostra-nos um funeral, com o carro fúnebre puxado por um camelo, e o cortejo seguindo saltitante. O carro desatrela-se e segue a alta velocidade por uma longa avenida, com todos correndo atrás, até se tombar, e o caixão cair por terra. Quando todos chegam o caixão abre-se, e dele sai um mágico que com a sua varinha faz todos desaparecer um por um, incluindo ele próprio.

Análise:

“Entr’acte”, dirigido pelo cineasta René Clair e com música de Erik Satie, foi pensado, como o nome indica, como um interlúdio. Foi produzido para ser exibido no intervalo do bailado “Relânche” do Ballet Suédois, em Paris, com cenários do pintor dadaísta Francis Picabia, e também ele com música de Satie. Excepção é apenas a sequência inicial do canhão (onde os personagens são desempenhados por Erik Satie e Francis Picabia), exibida antes do ballet.

Não se podendo considerar um filme surrealista, “Entr’acte” é sobretudo uma produção do dadaísmo (do qual, em parte, o surrealismo derivaria), uma forma artística avant-garde que rejeitava a razão e lógica como um todo, expressando-se através do absurdo e irracional. Não espanta por isso a sequência estranha de eventos do filme.

René Clair recorre a diversas técnicas, como sobreposição de imagens e transposições mais ou menos aleatórias (que lembram a colagem e fotomontagem, as quais eram expressões tipicamente dadaístas), câmara lenta, e inversão de velocidade, para produzir variados efeitos e combinações.

A sequência final será por certo aquela que mais se aproxima do surrealismo, com um carro funerário que foge, e um morto que se levanta, e por magia faz desaparecer todos os personagens.

Destaque-se a título de curiosidade, que entre os personagens do filme estão, além dos citados Picabia e Satie, ainda o produtor e coreógrafo Jean Börlin, o compositor Darius Milhaud, o pintor Marcel Duchamp, e o realizador e pintor Man Ray, todos eles figuras de proa do avant-garde francês dos anos 20.

Retirado do seu contexto de interlúdio de ballet, o filme chegaria às salas de cinema primeiro nos Estados Unidos.

Produção:

Título original: Entr’acte; Produção: Les Ballets Suedois; País: França; Ano: 1924; Duração: 22 minutos; Estreia: 4 de Dezembro de 1924 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: René Clair; Produção: Rolf de Maré [não creditado]; Argumento: Francis Picabia, René Clair; Música: Erik Satie; Orquestração: Henri Sauguet; Fotografia: Jimmy Berliet (preto e branco).

Elenco:

Jean Börlin (O Caçador de chapéu tirolês / O Prestidigitador), Inge Frïss (A Bailarina), Francis Picabia (Um homem que carrega o canhão), Marcel Duchamp (Um Jogador de Xadrês), Man Ray (Um Jogador de Xadrês), Darius Milhaud, Erik Satie, Marcel Duchamp.

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