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Take the Money and RunNos anos que se sucederam ao seu filme “Que Há de Novo, Gatinha?”, Woody Allen esteve ocupado com a sua carreira de stand-up comedy, que lhe valia o reconhecimento nos Estados Unidos, onde era popularizado com inúmeras presenças em talk shows. Dois anos depois da participação na paródia a James Bond “Casino Royale” de 1967, Woody realizava o seu verdadeiro primeiro filme. Como seria hábito daí em diante, seria também ele o protagonista e autor do argumento. Filmado na Califórnia, o filme seria a primeira produção conjunta dos seus agentes Jack Rollins e Charles H. Joffe que subscreviam a máxima de Allen de que é melhor um filme barato que pague os custos, que um filme caro que dê prejuízo.

Sinopse:

Virgil Starkwell é um criminoso, quase sempre falhado, mas nem por isso menos procurado pelas autoridades. Através de um extensivo documentário, acompanhamos a sua vida desde a infância até aos golpes mais notórios, que lhe valeram alguns encarceramentos, e fugas épicas. Tudo sem esquecermos a sua vida amorosa e casamento, e entrevistas a todos aqueles que o conheceram.

Análise:

Com argumento de Woody Allen e do seu habitual companheiro de escrita, Mickey Rose, “O Inimigo Público” é de certa forma o primeiro verdadeiro filme de Woody Allen, afinal o primeiro que realizou com material seu. Tal não era sequer a intenção inicial, mas aconteceu depois de Allen não ter conseguido convencer Jerry Lewis a ser o realizador. O filme é narrado em forma de documentário, o que implica uma narração em voz off, uso de filmagens antigas, e uma estrutura de sequências soltas, acompanhando a vida de Virgil Starkwell (Woody Allen) e da sua esposa Louise (a bela Janet Margolin). O documentário-falso (ou mockumentary) seria um recurso narrativo várias vezes usado por Allen, como o fez ainda em maior escala no filme “Zelig”, ou em pequenos apontamentos, em que usa repórteres que, falando no seu conhecido tom solene, sobre situações ridículas, emprestam um maior humor às cenas. Tal recurso ver-se-ía logo no filme seguinte, “Bananas” de 1971. A estrutura narrativa de “O Inimigo Público” adequa-se perfeitamente ao pretendido por Allen. Isto é, um humor visual feito de situações insólitas, e de piadas que parecem retiradas (e algumas são mesmo) dos seus monólogos de stand-up comedy. O ritmo é elevado, onde quase cada frase é dita para provocar uma gargalhada, sem que a história tenha um papel muito importante. O filme contém já alguns dos temas recorrentes do humor de Woody Allen, como as piadas sobre ginecologistas, a presença de progenitores dominantes e conflituosos, e o uso satírico do judaísmo (com Virgil transformado em rabino temporariamente por efeito secundário de um medicamento). O nonsense de Allen é particularmente brilhante na sequência do primeiro assalto ao banco, e na entrevista de emprego, situações a lembrar o que do lado de cá do Atlântico os Monty Python faziam nesse mesmo ano. Interpretando um dos seus personagens preferidos (um zé ninguém de classe baixa), Allen consegue uma actuação perfeita como um criminoso falhado, que ajudaria a definir a sua persona cinematográfica. Ao seu lado está Janet Margolin, na discreta e tímida Louise. Destaque para o pequeno cameo no final de Louise Lasser ex-mulher de Allen, e que seria sua protagonista nos filmes seguintes. Sem mostrar uma grande coesão, e sem manter o mesmo nível durante todo o filme, “O Inimigo Público” é ainda assim uma excelente introdução ao humor mais burlesco de Woody Allen (o primeiro de cinco filmes nesse registo), e um bom início da sua carreira de realizador, quando filmava ainda com fracos recursos. Como nota final fica a curiosidade de algumas cenas terem sido filmadas na San Quentin State Prison, perto de San Francisco, com verdadeiros reclusos servindo como figurantes.

Produção:

Título original: Take the Money and Run; Produção: American Broadcasting Company (ABC) / Palomar Pictures International / Jack Rollins & Charles H. Joffe Productions; Produtor Executivo: Sidney Glazier; País: EUA; Ano: 1969; Duração: 85 minutos; Distribuição: Cinerama Releasing Corporation; Estreia: 18 de Agosto de 1969 (EUA), 17 de Julho de 1971 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Charles H. Joffe; Produtor Associado: Jack Grossberg; Argumento: Woody Allen, Mickey Rose; Música: Marvin Hamlisch; Orquestração e Direcção Musical: Kermit Levinsky; Fotografia: Lester Shorr (filmado em Technicolor); Montagem: James T. Heckert; Direcção Artística: Fred Harpman; Cenários: Marvin March; Guarda-roupa: Erick M. Hjemvik; Caracterização: Stanley R. Dufford; Efeitos Especiais: A.D. Flowers.

Elenco:

Woody Allen (Virgil Starkwell), Janet Margolin (Louise), Marcel Hillaire (Fritz – Realizador), Jacquelyn Hyde (Miss Blair), Lonny Chapman (Jake – Preso), Jan Merlin (Al – Ladrão do Banco), James Anderson (Director de Trabalhos Forçados), Howard Storm (Fred), Mark Gordon (Vince), Micil Murphy (Frank), Minnow Moskowitz (Joe Agneta), Nate Jacobson (O Juiz), Grace Bauer (Senhora da Casa do Campo), Ethel Sokolow (Mãe Starkwell), Don Frazer (Julius Epstein – O Psiquiatra), Henry Leff (Pai Starkwell), Mike O’Dowd (Michael Sullivan), Jackson Beck (O Narrador).

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