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The WitchesTal como acontecera em “The Old Dark House” de 1963, a Hammer confiou a uma estrela americana o papel principal deste seu filme, como forma de melhor penetração no mercado americano. O resultado não foi o melhor, sendo este mesmo o último filme da carreira de Joan Fontaine, que se confessou desiludida com o projecto. O argumento, o segundo de ocultismo da Hammer, é de Nigel Kneale, o autor da série Quatermass, e a realização de Cyril Frankel, habitualmente realizador de televisão.

Sinopse:
Em África, uma missão é atacada pela tribo local. A professora Gwen Mayfield entra em colapso, quando magia negra é usada contra si. Anos mais tarde em Inglaterra, Gwen é escolhida para ensinar numa escola familiar em Heddeby, dirigida pelos irmãos Alan Bax e Stephanie Bax. Gwen toma particular interesse num aluno, Ronnie Dowsett, e na relação que este parece ter com a colega Linda Rigg, que é condenada por todos. Quando Ronnie surge em coma, Gwen suspeita da avó de Linda, Granny Rigg que se diz pratica bruxaria. A sua suspeita cresce quando Ronnie fica inexplicavelmente curado a troco de ele e a sua mãe abandonarem Heddeby. De seguida o pai de Ronnie surge morto, e Gwen procura pistas, decidindo que ele foi morto por um grupo de pessoas. Nessa noite, os eventos passados em África repetem-se no seu quarto, e Gwen colapsa de novo, acordando dias mais tarde num hospital. Gwen volta a Heddeby e procura ajuda de Stephanie Baxter para resolver o mistério. Descobre então que Linda desapareceu, e suspeita que ela vá ser sacrificada nalgum ritual. Stephanie revela-se então como líder do culto, e tenta recrutar Gwen, explicando-lhe que através do sacrifício de Linda poderá viver mais 50 anos. Durante o ritual, com a participação de muita gente da aldeia, Gwen derrama sangue propositadamente sobre Linda, dessacralizando o ritual. Tal provoca a morte de Stephanie, e o fim do culto. Gwen Mayfield continua como professora em Heddeby, agora com a ajuda de Alan Bax, que se mostra afável, livre da influência da irmã.

Análise:
Feito como um projecto pessoal de Joan Fontaine, que detinha os direitos da história, o filme não resultou do modo que ela queria, uma vez que esta não se adaptou à passagem dos grandes estúdios de Hollywood às produções caseiras da Hammer, de orçamentos baixos e constante improvisação de recursos. A sua interpretação, profissional, nem sempre é eficaz para aquilo que a história precisa, e de facto, a estrela do filme é Kay Walsh, que a partir da segunda metade domina os acontecimentos, na sua interpretação ambígua de melhor amiga de Miss Gwen. Kay Walsh traz, na sua Stephanie Bax, o olhar da modernidade e erudição, sendo ao mesmo tempo a maquiavélica chefe de um culto de bruxaria. Stephanie Bax é a anti-heroína trágica típica da Hammer, que tenta aliar ciência e superstição, de uma forma arrogante, e desprezando mesmo aqueles que a seguem, acabando dominada por forças que não consegue controlar. Tal como acontecera antes, a Hammer virava-se cada vez mais para o tema da bruxaria, desta vez de uma forma menos gótica e com uma aura de modernidade, a que não é alheia a decisão estilística de ter os exteriores filmados numa verdadeira aldeia, e não em estúdio. A história passa-se nos anos 60, numa aldeia que parece presa no tempo, onde as coisas ainda se fazem ao modo antigo, e não há uma igreja há 200 anos. Mais um thriller que um filme de terror, “The Witches” vale-se do nome para criar uma atmosfera opressiva, onde a personagem principal funciona como uma detective amadora, juntando as peças do puzzle lentamente, e tentando não ceder à sua fragilidade pessoal (num paralelo interessante com “Rebecca” de Alfred Hitchcock, interpretado pela mesma actriz, 26 anos antes). Embora com um simbolismo menos rico que outras produções da Hammer, tem ainda assim vários pontos interessantes. Destaca-se a cena do esfolamento do coelho no início do filme, como premonição do sacrifício ritual que seria tema do filme mais à frente. Do mesmo modo não deixamos de notar a coreografia de dança do ritual de bruxaria, e as suas nada escondidas intenções orgiásticas. O ciclo completa-se no epílogo, onde a instalação de um sistema de música na escola fecha definitivamente a porta do passado, abrindo finalmente Heddeby ao século XX.

Produção:
Título original: The Witches [Nos Estados Unidos: The Devil’s Own]; Produção: Seven Arts – Hammer Film Productions. País: Reino Unido; Bray Studios; Ano: 1966; Duração: 87 minutos. Distribuição: Twentieth Century-Fox Film Corporation; Estreia: 21 de Novembro de 1966 (Inglaterra).

Equipa técnica:
Realização: Cyril Frankel; Produção: Anthony Nelson Keys; Argumento: Nigel Kneale, baseado no romance “The Devil’s Own” de Peter Curtis [Norah Lofts]; Música: Richard Rodney Bennett; Supervisão Musical: Philip Martell; Fotografia: Arthur Grant (filmado em Technicolor); Direcção Artística: Bernard Robinson; Montagem: James Needs; Coreografia: Denys Palmer; Cenários: Don Mingaye; Caracterização: George Partleton; Guarda-roupa: Rosemary Burrows.

Elenco:
Joan Fontaine (Gwen Mayfield), Kay Walsh (Stephanie Bax), Alec McCowen (Alan Bax), Ann Bell (Sally), Ingrid Brett (Linda Rigg), John Collin (Dowsett), Michele Dotrice (Valerie), Gwen Ffrangcon Davies (Granny Rigg), Duncan Lamont (Bob Curd), Leonard Rossiter (Dr. Wallis), Martin Stephens (Ronnie Dowsett), Carmel McSharry (Mrs. Dowsett), Viola Keats (Mrs. Curd), Shelagh Fraser (Mrs. Creek), Bryan Marshall (Tom).

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