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The Two Faces of Dr. JekyllDepois de Frankenstein, Drácula e Múmia, a Hammer continuou a sua recuperação de monstros de clássicos da literatura inglesa, com a adaptação do romance de Robert Louis Stevenson, “O Médico e o Monstro”. O filme foi então mal recebido, apenas se revelando um clássico com o passar do tempo. Mais uma vez o realizador chamado foi Terence Fisher. O papel principal foi entregue a Paul Massie, com Christopher Lee a secundá-lo. Como em “The Man Who Could Cheat Death” a produção foi de Michael Carreras, que substituiu o habitual Anthony Hinds.

Sinopse:
Em Londres, 1870, o Dr. Henry Jekyll é obcecado pela sua ciência, que o afastou de qualquer vida social, e lançou a mulher Kitty nos braços de um amante, o playboy Paul Allen, que se serve de Jekyll sempre que se vê imerso em dívidas. Jekyll acredita poder separar as duas personalidades que diz haver em cada pessoa, e para o provar torna-se cobaia da sua própria experiência. Nasce assim Edward Hyde (que se distingue de Henry Jekyll por não ter barba), que sem inibições nem restrições morais passa o tempo em clubes nocturnos, onde se torna parceiro de Paul Allen, a quem disputa o amor de Kitty. Sempre que está à beira de ultrapassar algum limite, a inibição de Henry Jekyll é activada e dá-se a transformação no sentido inverso. Desiludido com a sua vida, Jekyll decide dar uma oportunidade a Hyde, tomando uma dose maior da sua fórmula. Procura então Paul, a quem compra as dívidas a troco de ser guiado por este por todos vícios e prazeres menos recomendáveis de Londres. Quando a dívida de Paul chega a cinco mil libras, Hyde deixa-o e apresenta-se a Kitty, dizendo-lhe que lhe cabe a ela pagar as cinco mil libras tornando-se sua amante. Kitty rejeita e entrega-lhe uma carta para Jekyll. Após uma noite de embriaguez, em que é espancado e roubado, Hyde transforma-se em Jekyll e lê a carta em que Kitty anuncia que o deixou. Jekyll decide então destruir a sua fórmula para que Hyde não tenha mais influência sobre si, mas ao ver Kitty e Paul juntos a fúria apodera-se de si e transforma-se expontaneamente em Hyde. Hyde engana Paul e Kitty convocando-os para um cabaret sob o pretexto de ver Jekyll. Quando estes chegam, Hyde separa-os, fechando Paul com uma serpente, e violando Kitty. Esta ao descobrir o amante morto deixa-se cair de uma varanda, morrendo também. Hyde volta a casa com a sua amante Maria, que mata durante um momento de fraqueza em que Jekyll o tenta dominar. Após novo conflito de personalidades, Hyde mata mais um homem, incendiando o seu laboratório e dizendo-se vítima de Jekyll que se teria suicidado. Embora a polícia acredite na sua história, no último momento Jekyll sobrepõe-se a Hyde, revelando-se, e deixando-se finalmente prender.

Análise:
Com a autoria do argumentista Wolf Mankowitz, a Hammer trouxe-nos uma das mais originais interpretações da célebre história “O Médico e o Monstro “. Neste filme, o horror está praticamente ausente, não temos sequer um monstro, pelo menos em termos convencionais, pois Dr. Jekyll (numa interpretação segura e interessante de Paul Massie), ao transformar-se no seu alter-ego, torna-se um homem elegante e distinto. Não existe caracterização que molde a personagem (aparte uma barba), a sua “monstruosidade” é em termos sociais. A história revolve em torno da ideia de Dr. Jekyll em separar as duas personalidades que há numa pessoa, acreditando que a escondida, recalcada por inibições, é superior, por estar acima do bem e do mal. Ao provocar o aparecimento de Mr. Hyde. vai usá-lo como um instrumento da sua vingança sobre aqueles que dele abusam: a mulher (numa interpretação soberba de Dawn Addams), e o amante desta (também uma interpretação notável, de Christopher Lee). Surgem então os dilemas morais, se Hyde está acima da moral, e age por instinto, sem inibições, Jekyll envergonha-se das acções de Hyde, crimes e busca desregrada pelo prazer e excessos que o levam a comportamentos moralmente inaceitáveis. O duelo entre os dois domina o filme. É Hyde um monstro que está dentro de Jekyll, ou apenas aquilo que Jekyll nunca tivera coragem de ser? A pergunta repete-se e surge com várias nuances, através das viagens de Hyde ao submundo social de Londres. Não é difícil entender no filme as diferentes metáforas que nos apresenta, da ambivalência humana, às dependências (de drogas) e alienações, necessidades de nos justificarmos perante actos repreensíveis, e a crítica social da aparência. O argumento inteligentíssimo deixa espaço considerável para preenchermos com a nossa imaginação. Terence Fisher mais uma vez dirige um filme com mestria, não deixando que nenhuma cena ou plano sejam falhos de conteúdo. O ambiente, como no anterior “The Man Who Could Cheat Death” é talvez menos gótico que nos filmes anteriores, numa decisão deliberada por se tratar de uma história urbana. Ainda assim a beleza cénica de Bernard Robinson não o deixa destoar das produções a que a Hammer nos habituou.

Produção:
Título original: The Two Faces of Dr. Jekyll [Nos EUA: House of Fright; e Jekyll’s Inferno]; Produção: Hammer Film Productions. País: Reino Unido; Bray Studios; Ano: 1960; Duração: 88 minutos; Distribuição: Columbia Pictures Corporation; Estreia: 24 de Outubro de 1960 (Inglaterra).

Equipa técnica:
Realização: Terence Fisher; Produção: Michael Carreras; Produtor Associado: Anthony Nelson-Keys; Argumento: Wolf Mankowitz; Música: Monty Norman & David Heneker; Direcção Musical: John Hollingsworth; Fotografia: Jack Asher; Produção Artística: Bernard Robinson; Montagem: Eric Boyd-Perkins; Caracterização: Roy Ashton; Guarda-roupa: Molly Arbuthnot.

Elenco:
Paul Massie (Dr. Henry Jekyll/Mr. Edward Hyde), Dawn Addams (Kitty Jekyll), Christopher Lee (Paul Allen), David Kossoff (Dr. Ernst Littauer), Francis De Wolff (Inspector da Polícia), Norma Marla (Maria), Joy Webster (Jenny), Magda Miller (rapariga de Sphinx), Oliver Reed (segurança do clube).

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